Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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ocidente. Uma súbita viração rasteira fez rodopiar, como um espojinho, as cinzas da superfície da cova. Cipriano Algor ajoelhou-se, afastou para um lado as barras de ferro e, servindo-se da mesma pequena pá com que a cova tinha sido aberta, começou a retirar as cinzas, à mistura com pequenos troços de carvão não consumidos. Quase imponderáveis, as brancas partículas pegavam-se-lhe aos dedos, algumas, levíssimas, aspiradas pela respiração, subiram-lhe até ao nariz e obrigaram-no a fungar, tal como o Achado faz às vezes. Consoante a pá se ia aproximando do fundo da cova, as cinzas tornavam-se mais quentes, mas não tanto que queimassem, estavam simplesmente tépidas, como pele humana, e macias e suaves como ela. Cipriano Algor pôs de parte a pá e afundou as duas mãos nas cinzas. Tocou a fina e inconfundível aspereza dos barros cozidos. Então, como se estivesse a ajudar a um nascimento, segurou entre o polegar e os dedos indicador e médio a cabeça ainda oculta de um boneco e puxou para cima. Calhou ser a enfermeira. Sacudiu-lhe as cinzas do corpo, soprou-lhe na cara, parecia que estava a dar-lhe uma espécie de vida, a passar para ela o hausto dos seus próprios pulmões, o pulsar do seu propno coração. Depois, um a um, os restantes manipanços, o assírio de barbas, o mandarim, o bobo, o esquimó, o palhaço, foram retirados da cova e postos ao lado da enfermeira, mais ou menos limpos das cinzas, mas sem a benfeitoria suplementar do sopro vital. Não estava ali ninguém para perguntar ao oleiro os motivos da diferença de tratamento, determinados, à primeira vista, pela diferença de sexo, salvo se a intervenção demiúrgica resultou simplesmente de a figura da enfermeira ter sido a primeira a sair do buraco, sempre, desde que o mundo é mundo, sucedeu assim, cansarem-se da criação os criadores logo que ela passou a não ser novidade. Recordando, porém, os complexos problemas de modelação com que Cipriano Algor teve de lutar quando trabalhava o peito da enfermeira, não será demasiado temerário presumir que a razão última do assopro se encontre, ainda que de modo obscuro e impreciso, nesse seu imenso esforço por chegar ao que a própria ductilidade da argila lhe estava negaceando. Vá lá a saber-se. Cipriano Algor tornou a encher o buraco com a terra que por natural direito lhe pertencia, calcou-a bem para que nem um punhado dela ficasse fora, e, com três bonecos em cada mão, dirigiu-se a casa. Curioso, de cabeça levantada, Achado saltitava ao lado dele. A sombra da amoreira-preta tinha-se despedido da noite, o céu começava a abrir-se todo com o primeiro azul da manhã, o sol não tardaria a aparecer num horizonte que dali não se podia alcançar.
Que tal saíram, perguntou Marta quando o pai entrou, Parece que bem, afinal, mas há que limpá-los da cinza que ainda trazem agarrada. Marta deitou água num pequeno alguidar de barro, Lave-os aqui, disse. Primeira a entrar na água, primeira a sair das cinzas, casualidade ou coincidência, esta enfermeira poderá vir a ter no futuro algumas razões de queixa, mas não por falta de atenções. Como está esse, perguntou Marta, alheia ao debate sobre géneros que tem vindo a travar-se, Bem, repetiu o pai brevemente. Estava de facto bem, com a cozedura toda por igual, uma bela cor vermelha, sem defeito, sem a mínima rachadura, e estavam igualmente perfeitas as outras estatuetas, com excepção do assírio de barbas, que apareceu com uma mancha negra nas costas, efeito felizmente restrito de um incipiente processo de carbonização provocado por uma indesejada entrada de ar. Não tem importância, não sofrerá por isso, disse Marta, e agora faça o favor de se sentar a descansar enquanto lhe preparo o pequeno-almoço, que boa madrugada leva já nesse corpo, Tocou-me a espertina, não consegui adormecer outra vez, Os bonecos podiam esperar que se fizesse dia, Mas eu não, Como diz o ditado antigo, quem tem cuidados não dorme, Ou dorme para sonhar com os cuidados que tem, Foi para não sonhar que acordou tão cedo, perguntou Marta, Há sonhos de que o melhor seria sair rapidamente, respondeu o pai, Foi o caso desta noite, Sim, foi o caso desta noite, Quer contar, Não merece a pena, Nesta casa, os cuidados de um sempre têm sido os cuidados de todos, Mas não os sonhos, Excepto se são de cuidados, Contigo não se pode discutir, Se é assim, não perca mais tempo, conte, Sonhei que o Marçal havia sido promovido e que a encomenda era cancelada, O mais provável daí não será o cancelamento da encomenda, Também o creio, mas as preocupações engancham-se como as cerejas, uma puxa outra, e as duas um cesto cheio, quanto à promoção do Marçal, sabemos que poderá suceder de um momento para o outro, É certo, O sonho foi um aviso para trabalhar depressa, Os sonhos não avisam, A não ser quando os que sonham se sentem avisados, Acordou sentencioso o meu querido pai, Cada idade tem os seus defeitos, e este tem vindo a agravar-se-me nos últimos tempos, Ainda bem, gosto das suas sentenças, vou aprendendo com elas, Mesmo quando não passam de meros jogos de palavras, como agora, perguntou Cipriano Algor, Penso que as palavras só nasceram para poderem jogar umas com as outras, que não sabem mesmo fazer outra coisa, e que, ao contrário do que se diz, não existem palavras vazias, Sentenciosa, É doença de familia. Marta pôs o pequeno-almoço na mesa, o café, o leite, uns ovos mexidos, pão torrado e manteiga, alguma fruta. Sentou-se em frente do pai, a vê-lo comer. E tu, perguntou Cipriano Algor, Não tenho apetite, respondeu ela, Mau sinal, no estado em que estás, Dizem que estes fastios são bastante comuns nas grávidas, Mas precisas de te alimentar bem, pela lógica deverias comer por dois, Ou por três, se levo gémeos, Estou a falar a sério, Não se preocupe, ainda me hão-de vir os enjoos e não sei quantas incomodidades mais. Houve um silêncio. O cão enroscou-se debaixo da mesa, finge-se indiferente aos cheiros da comida, mas é só resignação, ele sabe que a sua vez ainda tarda algumas horas. Vai já começar a trabalhar, perguntou Marta, Assim que acabe de comer, respondeu Cipriano Algor. Outro silêncio. Pai, disse Marta, imagine que o Marçal telefona hoje a comunicar que foi promovido, Tens algum motivo para pensar que isso irá suceder, Nenhum, é só uma hipótese, Muito bem, imaginemos então que o telefone está a tocar neste momento, que tu te levantas e vais atender, que é o Marçal a informar-nos de que passou ao grau de guarda residente, Que faria o pai nesse caso, Acabaria de comer, levaria os bonecos para a olaria e começaria a fazer os moldes, Como se nada tivesse acontecido, Como se nada tivesse acontecido, Crê que seria uma decisão sensata, não se lhe afiguraria mais consequente desistir do fabrico, virar a página, Amada filha, é muito possível que a insensatez e a inconsequência sejam para os novos um dever, para os velhos são um direito absolutamente respeitável, Tomo nota pela parte que me toca, Mesmo que tu e Marçal tenham de mudar-se para o Centro antes, eu ficarei até terminar o trabalho que me encomendaram, depois lá irei ter convosco, como prometi, É uma loucura, pai, Loucura, inconsequência, insensatez, fraca opinião tens de mim, É loucura querer fazer sozinho um trabalho destes, diga-me como imagina que me vou sentir sabendo o que se está a passar aqui, E como imaginas tu que me sentiria eu se largasse o trabalho em meio, não compreendes que nesta altura da vida não tenho muitas coisas mais a que me agarrar, Tem-me a mim, vai ter o seu neto, Desculpa-me, mas não basta, Terá de bastar quando for viver connosco, Suponho que assim será, mas ao menos haverei terminado o meu último trabalho, Não seja dramático, pai, sabe lá qual vai ser e quando o seu último trabalho. Cipriano Algor levantou-se da mesa. Perdeu o apetite de repente, perguntou a filha, vendo que sobrara comida no prato, Custa-me a engolir, aperta-se-me a garganta, São nervos, Deve ser isso, nervos.
O cão tinha-se levantado também, preparado para ir atrás do dono. Ah, fez Cipriano Algor, esquecia-me dizer que o Achado ficou toda a noite debaixo do banco de pedra a vigiar
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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