Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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o lume, Pelos vistos também com os cães se pode aprender alguma coisa, Sim, aprende-se sobretudo a não discutir o que deve ser feito, algumas vantagens o simples instinto haveria de ter, Está a querer dizer que é também o instinto que lhe manda terminar o trabalho, que nos seres humanos, ou em alguns, existe um factor de comportamento parecido ao instinto, perguntou Marta, O que eu sei é que a razão só teria um conselho para me dar, Qual, Que não fosse parvo, que o mundo não se acabaria pelo facto de eu não acabar os bonecos, Realmente, que importância poderiam ter para o mundo uns quantos bonecos de argila a mais ou a menos, Aposto que não mostrarias tanta indiferença se em vez de bonecos de argila se tratasse de nonas ou quintas sinfonias, infelizmente, minha filha, o teu pai não nasceu para músico, Se realmente crê que estava a mostrar indiferença, fico triste, Claro que não, desculpa. Cipriano Algor ia a sair, mas parou ainda um momento no limiar da porta, Em todo o caso, há que reconhecer que a razão também é capaz de produzir ideias aproveitáveis, esta noite, ao acordar, ocorreu-me que se poderá economizar muito tempo e algum material se fizermos as estatuetas ocas, secam e cozem mais depressa, e poupamos no barro, Viva a razão, afinal, Olha que não sei, as aves também fazem os ninhos ocos e não andam por aí a gabar-se.
A partir desse dia, Cipriano Algor só interrompeu o trabalho na olaria para comer e dormir. A sua pouca experiência das técnicas fê-lo desentender-se das proporções de gesso e água na fabricação dos tacelos, piorar tudo quando se equivocou nas quantidades de barro, água e desfloculante necessárias a uma mistura equilibrada da barbotina de enchimento, verter com excessiva rapidez a calda obtida, criando bolhas de ar no interior do molde. Os três primeiros dias foram gastos a fazer e a desfazer, a desesperar-se com os erros, a maldizer o seu desajeitamento, a estremecer de alegria sempre que lograva sair-se bem de uma operação delicada. Marta foi oferecer ajuda, mas ele pediu-lhe que o deixasse em paz, maneira de se expressar em verdade nada condizente com a realidade do que se estava a viver dentro da velha oficina, entre gessos que endureciam cedo de mais e águas que chegavam tarde ao encontro, entre pastas que não estavam suficientemente secas e caldas demasiado espessas que se recusavam a deixar-se coar, muito mais acertado teria ele sido se dissesse Deixa-me em paz com a minha guerra. Na manhã do quarto dia, como se os maliciosos e esquivos duendes que eram os diferentes materiais se tivessem arrependido do modo cruel como haviam tratado o inesperado principiante na nova arte, Cipriano Algor começou a encontrar suavidades onde antes só havia enfrentado asperezas, docilidades que o enchiam de gratidão, segredos que se desvelavam. Tinha o manual auxiliar em cima da bancada, húmido, manchado de dedadas, pedia-lhe conselho de cinco em cinco minutos, às vezes entendia mal o que havia lido, outras vezes uma súbita intuição iluminava-lhe a página inteira, não será despropositado afirmar que Cipriano Algor oscilava entre a infelicidade mais dilaceradora e a mais completa das bemaventuranças. Levantava-se da cama ao primeiro alvor, despachava a desjejua em dois tempos e metia-se na olaria até à hora do almoço, depois trabalhava durante a tarde toda e pelo serão adentro, fazendo apenas um intervalo rápido para jantar, com uma frugalidade que nada ficava a dever às outras refeições. A filha protestava, Vai-me cair doente, a trabalhar dessa maneira e a comer tão pouco, Estou bem, respondia ele, nunca me senti tão bem na vida. Era certo e não o era. À noite, quando finalmente se ia deitar, lavado dos cheiros do esforço e das sujidades do trabalho, sentia que as articulações lhe rangiam, que o seu corpo era uma pegada dor. Já não posso o que podia, dizia consigo mesmo, mas, lá muito ao fundo da sua consciência, uma voz que também era sua contrariava, Nunca pudeste tanto, Cipriano, nunca pudeste tanto. Dormia como se imagina que uma pedra deverá dormir, sem sonhos, sem estremecimentos, parecia até que sem respiração, descansando sobre o mundo o peso todo da sua infinita fadiga. Algumas vezes, como uma mãe inquieta, antecipando, sem nisso ter pensado, desassossegos futuros, Marta se levantou a meio da noite para ir ver como estava o pai. Entrava silenciosamente no quarto, aproximava-se devagarinho da cama, inclinava-se um pouco a escutar, depois saía com os mesmos cuidados. Aquele homem grande, de cabelos brancos e rosto castigado, seu pai, era também como um filho, saberá pouco da vida quem isto se recuse a entender, as teias que enredam as relações humanas, em geral, e as de parentesco, em particular, sobretudo as próximas, são mais complexas do que parecem à primeira vista, dizemos pais, dizemos filhos, cremos que sabemos perfeitamente de que estamos a falar, e não nos interrogamos sobre as causas profundas do afecto que ali há, ou a indiferença, ou o ódio. Marta sai do quarto e vai pensando Dorme, eis uma palavra que aparentemente não fez mais do que expressar uma verificação de facto, e contudo, em cinco letras, em duas sílabas, foi capaz de traduzir todo o amor que num certo momento pôde caber num coração humano. Convém dizer, para ilustração dos ingénuos, que, em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloquência, menor será a parte de verdade.
O quarto dia calhou ser aquele em que havia que ir buscar Marçal ao Centro para o seu descanso, a que naturalmente chamaríamos semanal se não fosse, como sabemos, decimal, isto é, de dez em dez. Marta disse ao pai que iria ela, que não interrompesse o trabalho, mas Cipriano Algor respondeu-lhe que não, que nem pensasse em tal coisa, Os roubos na estrada diminuiram, é certo, mas há sempre um risco, Se há perigo para mim, também o haverá para si, Em primeiro lugar, sou homem, em segundo lugar, não estou grávido, Respeitáveis razões que só lhe ficam bem, Falta ainda a terceira razão, que é a importante, Diga, Não poderia trabalhar enquanto não regressasses, por isso o trabalho não será prejudicado, além disso a viagem vai servir-me para espairecer a cabeça, que bem precisada está, só consigo pensar em moldes, tacelos e caldas, Também servirá para me espairecer a mim, portanto iremos ambos buscar o Marçal, o Achado fica a guardar o castelo, Se é assim que queres, Deixe lá, estava a brincar consigo, o pai costuma ir buscar o Marçal, eu costumo ficar em casa, viva pois o costume, A sério, vamos, A sério, vá. Sorriram os dois e o debate da questão central, isto é, as razões objectivas e subjectivas do costume, ficou adiado. À tarde, chegada a hora, e sem ter mudado a roupa de trabalho para não perder tempo, Cipriano Algor meteu-se a caminho. Quando já ia a sair da povoação deu por que não tinha virado a cabeça ao passar diante da rua onde mora a Isaura Madruga, e quando aqui se diz virar a cabeça, tanto se entende para um lado como para o outro, pois Cipriano Algor, em dias passados, umas vezes tinha olhado para ver se via, outras vezes para onde tinha a certeza de que não veria. Passou-lhe pela ideia perguntar a si mesmo como interpretava a desconcertante indiferença, mas uma pedra que estava no meio da estrada distraiu-o, e a ocasião perdeu-se. A viagem para a cidade decorreu sem dificuldades, só teve de sofrer um atraso causado por uma barragem da polícia que fazia parar um carro sim um carro não a fim de examinar os documentos dos condutores. Enquanto esperava que lhos devolvessem, Cipriano Algor teve tempo de observar que a linha de limite das barracas parecia ter-se deslocado um pouco em direcção à estrada, Qualquer dia tornam a empurrá-los lá para trás, pensou.
Marçal já estava à espera. Desculpa ter-me atrasado, disse o sogro, devia ter saído mais cedo de casa, e logo a polícia quis meter o nariz na papelada, Como está a Marta, perguntou Marçal, ontem não pude telefonar, Acho que está bem, em todo o caso deverias falar-lhe, anda a comer pouco, sem apetite, ela diz que nas mulheres grávidas é normal, pode ser que seja, dessas
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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