Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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outras, a partir desse dia nem as coisas atrapalham nem as mãos se deixam atrapalhar, À noite sinto-me tão cansado que me caem os braços só de pensar que deveria pôr uma arrumação neste caos, Com todo o gosto me encarregaria eu da tarefa se não estivesse proibida de aqui entrar, disse Marta, Não te proibi, protestou o pai, Com essas precisas e exactas palavras, não, É que não quero que te canses, quando for o momento de começar a pintar será diferente, trabalharás sentada, não terás de fazer esforços, Vamos a ver se nessa altura não se lembrará de me dizer que o cheiro das tintas prejudica a criança, Está visto que com esta mulher não é possível conversar, disse Cipriano Algor para Marçal como quem se resignou a pedir ajuda, Conhece-a há mais tempo do que eu, aguente-se, mas lá que isto está a precisar de uma limpeza a sério e de uma arrumação capaz, não há dúvida, Posso ter uma ideia, perguntou Marta, autorizam-me os senhores a ter uma ideia, Já a tiveste, rebentarias se não a deitasses cá para fora, resmungou o pai. Qual é, perguntou Marçal, Esta manhã o barro descansa, vamos pôr tudo isto em condições decentes, e como o meu querido pai não quer que me canse a trabalhar, darei eu as ordens. Cipriano Algor e Marçal olharam um para o outro, a ver qual deles falava primeiro, e como nem um nem outro se decidiam a tomar a palavra, acabaram por dizer em coro, Pois sim. Antes da hora de Marçal e Marta terem de sair para o almoço, a olaria e tudo quanto nela se continha estava tão limpo e asseado quanto se poderia esperar de um lugar de trabalho em que a lama é a matéria-prima do produto fabricado. Em verdade, se juntarmos e misturarmos água e barro, ou água e gesso, ou água e cimento, poderemos dar as voltas que quisermos à imaginação para lhes inventar um nome menos grosseiro, menos prosaico, menos ordinário, mas sempre, mais cedo ou mais tarde, acabaremos por ir à palavra justa, à palavra que diz o que há para dizer, lama. Muitos deuses, dos mais conhecidos, não quiseram outro material para as suas criações, mas é duvidoso se essa preferência representa hoje para a lama um ponto a favor ou um ponto contra.
Marta deixou preparado o almoço do pai, É só aquecer, disse ao sair com Marçal. O ruído fraco do motor da furgoneta diminuiu e desvaneceu-se rapidamente, o silêncio tomou conta da casa e da olaria, durante um pouco mais de uma hora Cipriano Algor irá estar sozinho. Aliviado da excitação nervosa dos últimos tempos, não tardou muito a notar que o estômago começava a dar-lhe sinais de insatisfação. Foi levar primeiro a comida ao Achado, depois entrou na cozinha, destapou o tacho e cheirou. Cheirava bem e ainda estava quente. Não havia nenhuma razão para esperar. Quando acabou de comer, já sentado na sua cadeira de repouso, sentiu-se em paz. É por de mais conhecido que o contentamento do espírito não é de todo insensível a uma alimentação suficiente do corpo, porém, se neste momento Cipriano Algor se sentia em paz, se experimentava uma espécie de transporte quase jubiloso em todo o seu ser, não era apenas devido ao facto material de haver comido. Pela ordem, contribuíam também para esse venturoso estado de ânimo o seu inegável avanço no domínio das técnicas de moldagem, a esperança de que a partir de agora se acabem a valer os problemas ou passem a mostrar-se menos intratáveis, o excelente entendimento de Marta e Marçal, que, como é costume dizer-se, entra pelos olhos dentro de qualquer, e, finalmente, mas não de menor importância, a limpeza a fundo da olaria. As pálpebras de Cipriano Algor desceram devagar, ergueram-se ainda uma vez, depois outra com maior esforço, a terceira não passou de uma tentativa inteiramente desprovida de convicção. Com a alma e o estômago em estado de plenitude, Cipriano Algor deixou-se deslizar para o sono. Lá fora, à sombra da amoreira-preta, o Achado também dormia. Poderiam ficar assim até ao regresso de Marçal e Marta, mas de repente o cão ladrou. O tom não era de ameaça nem de susto, não passava de um alerta convencional, um quem vem lá por dever de cargo, Embora conheça a pessoa que acaba de chegar, tenho de ladrar porque é isso o que se espera que eu faça. Não foram, no entanto, os latidos desenfadados do Achado que acordaram Cipriano Algor, mas sim uma voz, uma voz de mulher que lá fora chamava, Marta, e logo perguntava, Marta, estás em casa. O oleiro não se levantou da cadeira, apenas endireitou o corpo, como se estivesse a preparar-se para fugir. O cão já não ladrava. A porta da cozinha estava aberta, a mulher vinha aí, aproximava-se cada vez mais, ia aparecer, se este novo encontro não é efeito de um acaso fortuito, de uma mera e casual coincidência, se estava previsto e registado no livro dos destinos, nem mesmo um terremoto lhe poderá impedir o caminho. Abanando o rabo, o Achado foi o primeiro a entrar, logo apareceu Isaura Madruga. Ah, fez ela, surpreendida. Não foi fácil a Cipriano Algor levantar-se, a cadeira baixa e as pernas subitamente frouxas tiveram a culpa da figura triste que sabia estar a fazer. Disse ele, Boas tardes. Disse ela, Boas tardes, bons dias, nem sei bem a hora que é. Disse ele, Já passa do meio-dia. Disse ela, Pensei que fosse mais cedo. Disse ele, A Marta não está, mas faça o favor de entrar. Disse ela, Não quero incomodá-lo, venho noutra altura, o que me trazia cá não tem urgência. Disse ele, Foi com o Marçal almoçar a casa dos sogros, não se deve demorar. Disse ela, Só vinha para dizer à Marta que consegui arranjar trabalho. Disse ele, Arranjou trabalho onde. Disse ela, Aqui mesmo, na povoação, felizmente. Disse ele, E em que é que vai trabalhar. Disse ela, Numa loja, a atender ao balcão, podia ser pior. Disse ele, Gosta desse trabalho. Disse ela, Na vida nem sempre podemos fazer aquilo de que gostamos, o principal, para mim, era ficar cá, a isto não respondeu Cipriano Algor, ficou calado, confundido pelas perguntas que, quase sem pensar, lhe tinham saído da boca, salta à vista de qualquer que se uma pessoa pergunta é porque quer saber, e se quis saber é porque algum motivo teve para isso, agora a questão de princípio que Cipriano Algor tem para deslindar na desordem dos seus sentimentos é o motivo de perguntas que, entendidas literalmente, e não se vê que possa existir neste caso outro modo de entendê-las, demonstram um interesse pela vida e pelo futuro desta mulher que excede em muito o que seria natural esperar de um bom vizinho, interesse esse, por outro lado, como por de mais o sabemos, em contradição radical e inconciliável com decisões e pensamentos que, ao longo destas páginas, o mesmo Cipriano Algor tem vindo a tomar e a produzir em relação a Isaura, primeiro Estudiosa e actualmente Madruga. O problema é sério e exigiria uma extensa e aturada reflexão, mas a lógica ordenativa e a disciplina do relato, ainda que uma vez ou outra possam ser desrespeitadas, ou até, quando assim convenha, o devam ser, não nos permitem que deixemos por mais tempo Isaura Madruga e Cipriano Algor nesta aflitiva situação, constrangidos, calados um diante do outro, com um cão que olha para eles e não compreende o que se passa, com um relógio de parede que deverá estar a perguntar-se, no seu tiquetaque, para que quererão estes dois o tempo se não o aproveitam. É preciso, portanto, fazer alguma coisa. Sim, fazer alguma coisa, mas não qualquer coisa. Poderemos e deveremos faltar ao respeito à lógica ordenativa e à disciplina do relato, mas nunca por nunca àquilo que constitui o carácter exclusivo e essencial de uma pessoa, isto é, a sua personalidade, o seu modo de ser, a sua própria e inconfundível feição. Admitem-se na personagem todas as contradições, mas nenhuma incoerencia, e neste ponto insistimos particularmente porque, ao contrário do que soem preceituar os dicionários, incoerência e contradição não são sinónimos. É no interior da sua própria coerência que uma pessoa ou uma personagem se vão contradizendo, ao passo que a incoerência, por ser, bem mais do que a contradição, uma constante de comportamento, repele de si a contradição, elimina-a, não
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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