Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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no forno, o problema, mesmo não existindo ainda o pirómetro, devia ser mais fácil de solucionar a partir d agora, isto é, o segredo era não aquecer o forno nem de mais nem de menos, nem tanto nem tão pouco, e, sendo esta conta de três, deveria ser de vez. Não foi. é certo que a nova figura não saiu preta, é certo que não saiu branca, mas, oh céus, saiu amarela. Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado à pressa um dilúvio para acabar com o preto e o branco teria partido o pescoço ao amarelo, o que até se poderia con siderar como a conclusão lógica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta, Se eu próprio não sei fazer um homem capaz, como poderei amanhã pedir-lhe contas dos seus erros. Durante uns quantos dias o nosso improvisado oleiro não teve coragem de entrar na olaria, mas depois como se costuma dizer, o bichinho da criação tornou a entrar com ele e ao cabo de algumas horas a quarta figura estaVa modelada e pronta a ir ao forno. Na suposição de que então houvesse acima deste criador outro criador, é muito provável que do menor ao maior se tivesse elevado algo assim como um rogo, uma prece, uma súplica, qualquer coisa no género, Não me deixes ficar mal. Enfim, com mãos ansiosas introduziu a figura de barro no forno, depois escolheu com minúcias e pesou a quantidade de lenha que lhe pareceu conveniente, eliminou a verde e a demasiado seca, tirou de uma que ardia mal e sem graça, acrescentou de outra que dava uma chama alegre, calculou com a aproximação possível o tempo e a intensidade do calor, e, repetindo a imploração, Não me deixes ficar mal, chegou um fósforo ao combustivo. Nós, humanos de agora, que temos passado por tantas situações de ansiedade, um exame difícil, uma namorada que faltou ao encontro, um filho que se fazia esperar, um emprego que nos foi negado, podemos imaginar o que este criador teria sofrido enquanto aguardava o resultado da sua quarta tentativa, os suores que provavelmente só a proximidade do forno impediu que fossem gelados, as unhas roídas até ao sabugo, cada minuto que ia passando levava consigo dez anos de existência, pela primeira vez na história das diversas criações do universo mundo ficou o próprio criador a conhecer os tormentos que nos aguardam na vida eterna, por eterna ser, não por ser vida. Mas valeu a pena. Quando o nosso criador abriu a porta do forno e viu o que lá se encontrava dentro, caiu de joelhos extasiado. Este homem já não era nem preto, nem branco, nem amarelo, era, sim, vermelho, vermelho como são vermelhos a aurora e o poente, vermelho como a ígnea lava dos vulcões, vermelho como o fogo que o havia feito vermelho, vermelho como o mesmo sangue que já lhe estava correndo nas veias, porque a esta humana figura, por ser a desejada, não foi preciso dar-lhe o piparote na cabeça, bastou ter-lhe dito, Vem, e ela por seu próprio pé saiu do forno. Quem desconheça o que se passou nas posteriores idades, dirá que, não obstante tal cópia de erros e ansiedades, ou, pela virtude instrutiva e educativa da experimentação, graças a eles, a história acabou por ter um final feliz. Como em todas as coisas deste mundo, e certamente de todos os outros, o juízo dependerá do ponto de vista do observador. Aqueles a quem o criador rejeitou, aqueles a quem, embora com benevolência de agradecer, afastou de si, isto é, os de pele preta, branca e amarela, prosperaram em número, multiplicaram-se, cobrem, por assim dizer, todo o orbe terráqueo, ao passo que os de pele vermelha, aqueles por quem se tinha esforçado tanto e por quem sofrera um mar de penas e angústias, são, nestes dias de hoje, as evidências impotentes de como um triunfo pôde vir a transformar-se, passado tempo, no prelúdio enganador de uma derrota. A quarta e última tentativa do primeiro criador de homens que levou as suas criaturas ao forno, essa que aparentemente, lhe trouxe a vitória definitiva, veio a ser, afinal, a do definitivo desbarato. Cipriano Algor, também leitor assíduo de almanaques e enciclopédias eu-sei-tudo ou quase-tudo, havia lido esta história quando era ainda rapaz e, tendo esquecido tanta coisa na vida, desta não se esqueceu, vá lá saber-se porquê. Era uma lenda índia, dos chamados peles-vermelhas, para sermos mais exactos, com a qual os remotos criadores do mito deviam, ter pretendido provar a superioridade da sua raça sobre quaisquer outras, incluindo aquelas de cuja efectiva existência não tinham então notícia. Sobre este último ponto, antecipe-se a objecção, seria vão e inútil o argumento de que, uma vez que eles não tinham conhecimento doutras raças, também não as poderiam ter imaginado brancas, ou pretas, ou amarelas, ou furta-cores. Puro engano. Quem assim argumentasse só demonstraria ignorar que estamos a lidar aqui com um povo de oleiros, de caçadores também, a quem o penoso trabalho de transformar o barro numa vasilha ou num ídolo havia ensinado que dentro de um forno todas as coisas podem suceder, tanto o desastre como a glória, tanto a perfeição como a miséria, tanto o sublime como o grotesco. Quantas e quantas vezes, durante quantas gerações, teriam tido eles que retirar do forno peças torcidas, rachadas, feitas em carvão, cruas ou meio-cruas, todas inservíveis. Em verdade, não existe uma grande diferença entre o que se passa no interior de um forno de olaria e de um forno de padaria. A massa de pão não é mais do que um barro diferente, feito de farinha, fermento e água, e, tal como o outro, vai sair cozido do forno, ou cru, ou queimado. Lá dentro talvez não haja diferença, desabafava Cipriano Algor, mas, cá fora, garanto que nesta altura daria tudo para ser padeiro.
Os dias e as noites sucediam-se, e as tardes e as manhãs. É dos livros e da vida que os trabalhos dos homens sempre foram mais longos e pesados que os dos deuses, veja-se o caso já falado do criador dos peles-vermelhas que, ao todo, não fez mais do que quatro imagens humanas, e por este pouco, ainda que com escasso êxito de público interessado, teve entrada na história dos almanaques, ao passo que Cipriano Algor, a quem certamente não esperam as retribuições de um registo biográfico e curricular em letra de forma, terá de desentranhar das profundezas do barro, só nesta primeira fase, cento e cinquenta vezes mais, isto é, seiscentos bonecos de origens, características e situações sociais diferentes, três deles, o bobo, o palhaço e a enfermeira, mais facilmente definíveis também pelas actividades que exercem, o que não sucede com o mandarim e com o assírio de barbas, que, apesar da razoável informação colhida na enciclopédia, não foi possível averiguar o que fizeram na vida. Quanto ao esquimó, supõe-se que continuará a caçar e a pescar. É certo que a Cipriano Algor já tanto lhe faz. Quando as estatuetas começarem a sair dos moldes, iguais em tamanho, atenuadas pela uniformidade da cor as diferenças de indumento que as distinguem, precisará de fazer um esforço de atenção para não as confundir e misturar. De tão entregado ao trabalho, algumas vezes se esquecerá de que os moldes de gesso têm um limite de uso, algo assim como umas quarenta utilizações, a partir das quais os contornos principiarão a esbater-se, a perder vigor e nitidez, como se a figura se fosse a pouco e pouco cansando de ser, como se estivesse a ser atraída a um estado original de nudez, não apenas a sua própria como representação humana, mas a nudez absoluta do barro antes de que a primeira forma expressada de uma ideia o tivesse começado a vestir. Para não perder tempo, tinha começado por atirar os bonecos imprestáveis para um canto, mas depois, movido por um estranho e inexplicável sentimento de piedade e de culpa, foi buscá-los, deformados e confundidos pela queda e pelo choque a maior parte deles, e arrumou-os cuidadosamente numa prateleira da olaria. Poderia ter voltado a amassá-los para lhes conceder uma segunda possibilidade de vida, poderia tê-los achatado sem dó como àquelas duas figuras de homem e mulher que ao princípio modelou, ainda está aqui o barro delas, seco, gretado, informe, e no entanto foi levantar
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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