Jose Saramago - A Caverna
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Jose Saramago - A Caverna


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destes montículos de lama, e mesmo que ainda o saibam então é duvidoso que sabê-lo lhes interesse verdadeiramente, os mortos, alguém o disse já, são como pratos rachados em que não vale a pena enganchar aqueles também desusados grampos de ferro que uniam o que se tinha rompido e separado, ou, no caso vertente, explicando o símile por outras palavras, os gatos da memória e da saudade. Cipriano Algor aproximou-se da sepultura da mulher, três anos são já os que ela leva ali em baixo, três anos sem aparecer em parte nenhuma, nem na casa, nem na olaria, nem na cama, nem à sombra da amoreira-preta, nem sob o sol esbraseado da barreira, não voltou a sentar-se à mesa nem ao torno, não retira as cinzas caídas da grelha nem vira as peças que estão a secar, não descasca as batatas, não amassa o barro, não diz, Assim são as coisas, Cipriano, a vida não tem mais do que dois dias para dar, e tanta gente houve que só viveu dia e meio, e outros nem tanto, já vês que não nos podemos queixar. Cipriano Algor não ficou mais de três mínutos, tinha inteligência bastante para não precisar que lhe dissessem que o importante não era estar ali parado, com rezos ou sem rezos, a olhar uma sepultura, o imPortante foi ter vindo, o importante é o caminho que se fez a jornada que se andou, se tens consciência de que estás a prolongar a contemplação é porque te observas a ti mesmo ou, pior ainda, é porque esperas que te observem. Comparando com a velocidade instantânea do pensamento, que segue em linha recta até quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque não percebemos que ele, ao correr numa direcção, está a avançar em todas as direcções, comparando, dizíamos, a pobre da palavra está sempre a precisar de pedir licença a um pé para fazer andar o outro, e mesmo assim tropeça constantemente, duvida, entretém-se a dar voltas a um adjectivo, a um tempo verbal que lhe surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito, essa deve de ser a razão por que Cipriano Algor não teve tempo para dizer à mulher tudo quanto viera pensando, aquilo de não ser justo, Justa, o que me fizeram, mas é bem possível que os murmúrios que estamos a ouvir-lhe agora, enquanto vai caminhando para a saída do cemitério, sejam precisamente o que tinha ficado por dizer. Já ia calado quando se cruzou com uma mulher vestida de luto que entrava, sempre assim tem sido, uns que chegam, outros que partem, ela disse, Boas tardes, senhor Cipriano, o tratamento de respeito justifica-se tanto pela diferença de gerações como por ser costume do campo, e ele retribuiu, Boas tardes, se não disse o nome dela não foi porque não o conhecesse, mas por pensar que esta mulher, de luto carregado por um marido, não terá parte nos sombrios acontecimentos futuros que se anunciam nem na relação que deles se faça, sendo contudo certo que ela, pelo menos, tenciona ir amanhã à olaria a comprar um cântaro, conforme está anunciando, Amanhã lá vou comprar um cântaro, mas oxalá seja melhor do que este, que se me ficou a asa dele na mão quando o levantei, desfez-se em cacos e alagou-me a cozinha toda, pode imaginar o que foi aquilo, também é certo, manda a verdade que se diga, que o coitado já tinha uma idade, e Cipriano Algor respondeu, Escusa de ir à olaria, eu levo-lhe um cântaro novo para substituir esse que se partiu, não tem de pagar, é oferta da fábrica, Diz isso por eu estar viúva, perguntou a mulher, Não. que ideia, é apenas um oferecimento, nada mais, temos uma quantidade de cântaros que se calhar nunca chegaremos a vender, Sendo assim fico-lhe muito agradecida, senhor Cipriano. Não tem de quê, Um cântaro novo é alguma coisa, Sim, mas é unicamente isso, só alguma coisa, Então até amanhã, lá o espero, e mais uma vez muito agradecida, Até amanhã. Ora, correndo o pensamento simultaneamente em todas as direcções, como antes se deixou bem explicado, e avançando ao mesmo tempo com ele os sentimentos, não deverá surpreender-nos que a satisfação da viúva por ir receber um cântaro novo sem precisar de o pagar tenha sido a causa de moderar-se de um instante para o seguinte o desgosto que a fizera sair de casa em tarde tão tristonha a fim de visitar a última morada do marido. Claro que, apesar de ainda estarmos a vê-la parada à entrada do cemitério, certamente regozijando-se no seu íntimo de dona de casa com o inesperado regalo, ela não deixará de ir aonde a convocaram o luto e o dever, mas talvez, afinal, quando lá estiver, não chore tanto como tinha pensado. A tarde já escurece lentamente, começam a aparecer luzes mortiças dentro das casas vizinhas do cemitério, mas o crepúsculo ainda há-de durar o tempo necessário para que a mulher possa rezar sem susto de fogos-fátuos ou de almas penadas o seu padre-nosso e a sua ave-maria, que em boa paz fique e em boa paz descanse.
Quando Cipriano Algor dobrou o último prédio da povoação e olhou para o sítio onde se encontrava a olaria, viu acender-se a luz exterior, uma antiga lanterna de caixa metálica dependurada por cima da porta da morada, e, embora não passasse uma só noite sem que a acendessem, sentiu desta vez que o coração se lhe reconfortava e se lhe abrandava o ânimo, como se a casa estivesse a dizer-lhe, Estou à tua espera. Quase impalpáveis, levadas e trazidas ao sabor das ondas invisíveis que impelem o ar, umas minúsculas gotículas tocaram-lhe a cara, não tardará muito que o moínho das nuvens recomece a peneirar a sua farinha de água, com toda esta humidade não sei quando vamos conseguir que as peças sequem. Quer seja por influência da mansidão crepuscular, ou da breve visita evocadora ao cemitério, ou até, o que seria uma compensação efectiva da sua generosidade, por ter dito à mulher de luto que lhe daria um cântaro novo, Cipriano Algor, neste momento, não pensa em decepções de não ganhar nem em medos de vir a perder. Numa hora como esta, quando pisas a terra molhada e tens tão perto da cabeça a primeira pele do céu, não é possível dizerem-te coisas tão absurdas como que voltes para trás com metade de louça ou que a tua filha te vai deixar sozinho um dia destes. O oleiro chegou ao cimo do caminho e respirou fundo. Recortada sobre a baça cortina de nuvens cinzentas, a amoreira-preta aparece tão preta como a obriga o seu próprio nome.
A luz da lanterna não lhe alcança a copa, nem sequer lhe roça as folhas dos ramos mais baixos, só uma débil luminosidade vai tapizando o chão até quase tocar o grosso tronco da árvore. A velha guarita do cão está ali, vazia desde há anos, quando o seu último habitante morreu nos braços de Justa e ela disse ao marido, Nunca mais quero um animal destes na minha casa. Na entrada escura da casota moveu-se uma cintilação e desapareceu logo. Cipriano Algor quis saber o que era aquilo, baixou-se para espreitar depois de ter dado uns passos em frente. A escuridão lá dentro era total. Compreendeu que estava a tapar com o corpo a luz da lanterna e desviou-se um pouco para o lado. Eram duas as cintilações, dois olhos, um cão, Ou um gineto, mas o mais provável é que seja um cão, pensou o oleiro, e devia estar no certo, da espécie lupina já não resta memória credível por estas paragens, e os olhos dos gatos, sejam eles dos mansos ou dos monteses, como qualquer pessoa tem obrigação de saber, são mesmo olhos de gato, quando muito, e no pior dos casos, poderíamos confundi-los, em mais pequeno, com os do tigre, mas um tigre adulto está claro que nunca poderia meter-se dentro de uma casota deste tamanho. Cipriano Algor não falou de gatos nem de tigres quando entrou em casa, também não pronunciou palavra sobre a ida ao cemitério, e, quanto ao cântaro que vai dar à mulher de luto, entende que não é assunto para ser tratado nesta altura, o que disse à filha foi só isto, Há um cão lá fora, fez uma pausa, como se esperasse resposta, e acrescentou, Debaixo da amoreira, na casota. Marta tinha acabado de se lavar e mudar de roupa, viera descansar um minuto, sentada, antes de começar a preparar o jantar, portanto não estaria na melhor das disposições para preocupar-se com os lugares por onde passam ou param os cães fugidos ou abandonados
Anderson
Anderson fez um comentário
ola. tens como me mandar esse arquivo em pdf pra mim imprimi-lo?
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