DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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o ANTI-ÉDIPO
CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA 1
GILLES DELEUZE
FÉLIX GUATTARI
o ANTI-ÉDIPO
CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA 1
tradução de Joana Moraes Varela e Manuel Maria Carrilho
ASSÍRIO & ALVIM
TíTULO OR1G1NAL:
L/1,iI,'TI-U:.D1PE. CAPfTALlSME EF SCHIZUN-fREiVif'
G 1')72 by [FS l'[}IT!ONS DE M.!NUr!
© AS~rRI() & AIVIM
IW,\ PASSOS MANUF1" G7 fi, Il~O-2'jH USBOA (20n4)
KA CONTRACAPA: D ..ol,".lCERAU {JANGFR, MAN RAY, Ino
EOIÇAO 0403, JUNHO 2004
ISBN Y:2-)701RI-1
CAPÍTULO 1
AS MÁQUINAS DESEJANTES
Is-~~unciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente.
Isto respira, isto aquece, isto come. Isto caga, isto fode. Mas que asneira ter dito o
isto*. O que há por toda a parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora:
máquinas de máquinas, com as suas ligaçóes e conexões. Uma máquina-órgão
está ligada a uma máquina-origem: uma emite o fluxo que a outra corta. O seio é
uma máquina de produzir leite e a boca uma máquina que se liga com ela. A boca
do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina de falar, uma
máquina de respirar (ataque de asma). É assim que todos somos «bricoleurs}}**,
cada um com as suas pequenas máquinas. Uma máquina-órgão para uma máqui-
na-energia, e sempre fluxos e cortes. O presidente Schreber telTI raios de sol no
cu. Ânus solar. E podem ter a certeza que isto funciona. O presidente Schreber
sente qualquer coisa, produz alguma coisa, e ê capaz de o teorizar. Algo se produz:
efeitos de máquinas e não metáforas.
O passeio do esquizofrênico: é um modelo muito melhor que o neurótico
deitado no divã. Um pouco de ar livre, uma relação com o exterior. Por exemplo,
o passeio de Lenz reconstituído por Büchner. É algo de muito diferente dos mo-
mentos em que Lenzl está em casa do seu bom pastor que o obriga a tomar uma
posição social em relação ao Deus da religião, em relação ao' pai e à mãe. Nas
montanhas, pelo contrário, sob a neve, ele está com outros deuses ou sem deus
* [Ça no original. Em francês é possível fazer um jogo polissémico emre o ça (isto) e o ça freudiano (id),
jogo que é impossível mamer em português.]
*'"' [Brico!age, é lima palavra intraduzÍvel em português que designa o aproveitamento de coisas usadas,
partidas, ou cuja utilização se modifica adaptando-as a ou(ras funções.]
I Conforme o texto de 8üchner, Lenz, tradução francesa Ed. Fomaine.
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nenhum, sem família, sem pai nem mãe, com a natureza. (,Que quer o meu pai?
I' impossível que ele me possa dar algo melhor. Deixem-me em paz." Tudo é
máquina. Máquinas celestes, as estrelas ou o arco-íris, máquinas alpestres que se
ligam com as do seu corpo. Barulho ininterrupto de máquinas. «Pensava que
devia ser um sentimento de uma infinita beatitude o ser tocado pela vida profun-
da de qualquer forma, ter uma alma para as pedras, os metais, a água e as plantas.
acolher em si todos os objectos da natureza, sonhadoramente, como as flores
absorvem o ar com o crescimento e o minguar da lua.» Ser uma máquina clorofílica
ou de fotossíntese ou, pelo menos, fazer do corpo uma peça de tais máquinas.
Lenz colocou-se para cá da distinção homem-natureza, com todas as caracterÍsti-
cas que esta distinção condiciona. Não vive a natureza como natureza, mas como
processo de produção. Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um
processo que os produz um no outro, e liga as máquinas. Há por todo o lado
máquinas produtoras ou desejantes, máquinas esquizofrénicas, toda a vida gené-
rica: eu e não-eu, exterior e interior, já nada querem dizer.
Continuação do passeio do esquizofrénico, quando as personagens de Beckett
decidem sair. É preciso ver, em primeiro lugar, como o seu percurso variado é já
uma máquina minuciosa. E depois, a bicicleta: que relação há entre a máquina
bicicleta-buzina e a máquina mãe-ânus? «Que descanso falar de bicicletas e de
buzinas. Infelizmente não é disto que se trata mas daquela que me deu à luz, pelo
buraco do cu, se não me engano.» Acredita-se muitas vezes que o Édipo é algo de
fácil, de dado. Mas não é assim: O Édipo supõe uma fantástica repressão das má-
quinas desejantes. E porquê, com que fim? Será mesmo necessário ou desejável
sujeitar-nos a isso? E com quê? O que é que havemos de pôr no triangulo edipiano,
com que é que o vamos formar? A buzina da bicicleta e o cu da minha mãe
chegarão? Não haverá questões mais importantes? Dado um determinado efeito,
quaÍ é a máquina que o pode produzir? e, dada uma máquina, para que ê que ela
serve? Adivinhem, por exemplo, pela descrição geométrica de um faqueiro, a sua
urilidade. Ou emão, face a uma máquina complera formada por seis pedras no
bolso direiro do meu casaco (o bolso que debita), cinco no bolso direiro das mi-
nhas calças, cinco no bolso esquerdo das minhas calças (os bolsos de transmissão),
recebendo o último bolso do meu casaco as pedras utilizadas à medida que as
outras avançam, qual é o efeito deste circuito de distribuição em que a própria
boca se insere como máquina de chupar as pedras? Qual será a produção de volúpia?
No fim de Malone meurt, a senhora Pédale leva os esquiwfrénicos a dar um pas-
seio, a andar de charabã, de barco, a fazer um piquenique na natureza: está-se a
preparar uma máquina infernal.
Debaixo da pele o corpo é uma fábrica a ferver,
e por fora,
o doenre brilha,
reluz,
com todos os poros,
esrilhaçados2
Não pretendemos estabelecer um pólo naturalista da esquizofrenia. O que o
esquizofrênico vive especificamente, genericamente, não é, de maneira nenhuma,
um pólo especifico da natureza, mas a natureza como processo de produção. E o
que é que aqui significa processo? É provável que, a um certo nível, a natureza se
distinga da indústria: por um lado, a indústria opõe-se à natureza, por outro
transforma os seus mareriais, por outro restitui-lhe os seus detritos, etc. Esta rela-
ção homem-natureza, indústria-natureza, sociedade-natureza, condiciona, na pró-
pria sociedade, a distinção de esferas relativamente autónomas a que chamamos
«produção~>, «distribuição}>, ({consumo», Mas este nível de distinções gerais, con-
siderado na sua estrutura formal desenvolvida, pressupõe (como Marx o demons-
trou) não só o capital e a divisão do trabalho, mas também a falsa consciência que
o ser capitalista tem necessariamente de si e dos elementos cristalizados de um
processo de conjunto. Porque na verdade - espantosa e negra verdade que surge
no delírio - não há esferas nem circuitos relativamente independentes: a produ-
ção é imediatamente consumo e registo, o consumo e o registo determinam direc-
tamente a produção, mas determinam-na no seio da própria produção . .Qe tal
modo que tudo é produção: produção de produções, de acções e de reacções; produ-
ções de registos, de disrribuições e de pomos de referência; produções de consumos,
de volúpias, de angústias e dores. Tudo é produção: os registos são imediatamente
).Artaud, Van Gogh te suicidé de ia société.
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consumidos, destruídos, e os consumos direcramenre reproduzidos3\u2022 É este o pri-
meiro sentido do processo: inserir o registo e o consumo na própria produção,
torná-los produções de um mesmo processo.
Em segundo lugar, desaparece também a distinção homem/natureza: a es-
sência humana da natureza e a essência natural do homem identificam-se na na-
tureza como produção ou indústria, isto é, afmaI, na vida genérica do homem. A
indústria deixa assim de ser entendida numa relação extrínseca de utilidade para o
ser na sua identidade fundamental com a natureza como produção do homem e
pelo homem4, Não o homem como rei da criação, mas aquele que é tocado pela
vida profunda de todas as formas e gêneros, o encarregado das estrelas e até dos
animais que não pára de ligar máquinas-órgãos a máquinas-energia, uma árvore
no corpo,