DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.440 materiais35.589 seguidores
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do capitalismo. Ele não pára de tender para o seu limi-
te, que é um limite propriamente esquizofrénico. É com todas as suas forças que
tende a produzir o esquizo como sujeito dos fluxos descodificados sobre o corpo
sem órgãos - mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do
que o próprio proletário. Levar esta tendência cada vez mais longe, até ao ponto
em que o capitalismo se há-de lançar na lua com todos os s~us fluxos: nós, na
1'J Sobre a histeria, a esquizofrenia e as suas relações com as estruturas sociais, ver as análises de Georges
Devereux, Essaú d'etlmopsychi,1trie généra!e, tradução francesa Gallimard, pp. 67 segs, e a.~belas páginas de
)aspers, Stn'ndberg et Van Gogh, tradução francesa Ed. de Minuit, pp. 232-236. (Será que na nossa épo..:a ,1
loucura é «condição de toda a sinceridade, em domínios onde, em tempos menos incoerentes, seríamos sem
ela capazes de urna experiência e expressão honestas~>· - questão que )aspers corrige, acrescentando: "Vimos
que outrora havia seres que se esforçavam por atingir a histeria; do mesmo nodo, diremos que hoje há muitos
que se esforçam por atingir a loucura. Mas se a primeira tentativa é, numa certa medida, psicologicamente
possível. a outra não o é de modo nenhum e só pode conduzir à mentira").
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verdade, ainda não vimos nada. Quando se diz que a esquizofrenia é a nossa
doença, a doença do nosso tempo, não se quer só dizer que a vida moderna enlou-
quece. Não se trata de um modo de vida, mas de um processo de produção.
Também não se trata de um simples paralelismo, embora do ponto de vista da
falência dos códigos o paralelismo já seja mais exacto, como por exemplo entre os
fenómenos de deslize de sentido nos esquizofrênicos e os mecanismos de
discordância a rodos os níveis da sociedade industrial. De facto, o que queremos
dizer é qtIe o capitalismo, no seu processo de produção, produz uma formidável
carga esquizofrênica sobre a qual faz incidir todo o peso da sua repressão, mas que
não deixa de se reproduzir como limite do processo. Porque o capitalismo nunca
pára de contrariar e de inibir a sua tendência, sem deixar, no entanto, de se preci-
pitar nela; não pára de afastar o seu limite sem deixar ao mesmo tempo de tender
para ele. O capitalismo instaura ou restauta todos os tipos de territorialidades
residuais e factícias, imaginárias ou simbólicas, sobre as quais tenta, o melhor que
pode, recodificar e fixar as pessoas derivadas das quantidades abstractas. Tudo
volta a aparecer - os Estados, as pátrias, as famílias. E é isto que torna o capita-
lismo, na sua ideologia, «a pintura matizada de tudo aquilo em que se acreditou».
O real não é impossível, o que é, é cada vez mais artificial. Marx chanlava lei da
tendência contrariada ao duplo movimento da baixa tendencial da taxa de lucro e
do crescimento da massa absoluta de mais-valia. O corolário desta lei é o duplo
movimento de descodificacão ou da desterritorialização dos fluxos e da sua
reterritorialização violenta e factícia. Quanto mais a máquina capitalista
desterritorializa, descodificando e axiomatizando os fluxos para deles extrair a
mais-valia, mais os seus aparelhos anexos, burocráticos e policiais, reterritorializam
força enquanto vão absorvendo uma parte cada vez maior de mais-valia.
Com certeza que não é relacionando-os com as pulsóes que hoje podemos
definir o neurótico, o perverso e O psicótico, porque as pulsóes são simplesmente
as máquinas desejantes, mas relacionando-os com as territorialidades modernas.
O neurótico instala-se nas territorialidades residuais ou factícias da nossa socieda-
de e rebate-as todas sobre o Édipo como última territorialidade que se reconstitui
no gabinete do analista, sobre o corpo pleno do psicanalista (claro, o patrão é o
pai, o chefe do Estado também, e o senhor também, doutor. .. ). O perverso é o
que toma o artifício à letra: já que assim o querem, hão-de ter territorialidades
infinitamente mais artificiais do que as que a sociedade nos propóe, hão-de ter
novas famílias infinitamente artificiais, sociedades secretas e lunares. Quanto ao
esquizo, com o seu passo vacilante que migra, erra e estrebucha, embrenha-se
cada vez mais na desterritorialização sobre o seu próprio corpo sem órgãos, até ao
infinito da decomposição do socius, e talvez o passeio do esquizo seja o seu modo
particular de reencontrar a terra. O esquizofrénico situa-se no limite do capitalis-
mo; é a sua tendência desenvolvida, o sobre-produto, o proletário e o anjo exter-
minador. Mistura todos os códigos, e traz em si os fluxos descodif1cados do dese~
jo. O real flui. Os dois aspectos do processo encontram-se: o processo metafísico
que nos põe em contacto com o (,demoníaco» na natureza ou no seio da terra, e o
processo histórico da produção social que restitui às máquinas desejantes uma
autonomia em relação à máquina social desterritorializada. A esquizofrenia é a
produção desejante como limite da produção social. A produção desejante e sua
diferença de regime em relação à produção social estão, pois, não no começo mas
no fim. De uma à outra vai apenas um devir, que é o devir da realidade. E se a
psiquiatria materialista se define pela introdução do conceito de produção no
desejo, não pode deixar de pôr em termos escatológicos o problema da relação
final entre a máquina analítica, a máquina revolucionária e as máquinas desejantes.
Em que é que as máquinas desejantes são realmente máquinas, sem metáfo~
ra? Uma máquina define-se como um sistema de cortes. Não se trata de modo
algum do corte considerado como separação da realidade; os cortes operam em
dimensões que variam com o carácter considerado. Qualquer máquina está, em
primeiro lugar, em relação com um fluxo material contínuo (hylê) que ela corta.
Funciona como uma máquina de cortar presunto: os cortes fazem extracções do
fluxo associativo. E assim temos o ânus e o fluxo de merda qu~ ele corta; a boca e
o fluxo de leite, e também o fluxo de ar e o fluxo sonoro; o pênis e o fluxo de
urina, e também o fluxo de esperma. Cada fluxo associativo deve ser considerado
idealmente como um fluxo infinito de uma imensa perna de porco. A hylê desig-
na, com efeito, a continuidade pura que uma matéria possui idealmente. Quando
Jaulin descreve as bolinhas e os pós de cheirar iniciáticos mostra que eles são
produzidos todos os anos como un1 conjunto de extracções duma «sequência
infinita que tem teorican1ente apenas uma origem», bolinha única que se estende
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aos confins do universo30\u2022 Longe de se opor à continuidade o corte condiciona-a,
implica ou define aquilo que corta como continuidade ideal. Éque, como vimos,
todas as máquinas são máquinas de máquinas. A máquina s6 produz um corte de
fluxo se estiver ligada a ourra máquina que se supõe produzir o fluxo. E claro que
esta máquina também é, por seu turno, um corte. Mas só o é em relação a uma
terceira máquina que produz idealmente, ou seja relativamente, um fluxo contí-
nuo infinito. E assim temos a máquina-ânus e a máquina-intestino, a máquina-
-intestino e a máquina-estômago, a máquina-estômago e a máquina-boca, a má-
quina-boca e o fluxo do rebanho (((e assim sucessivamente»). Em suma, qualquer
máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada, e é fluxo ou
produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. É esta a lei da produ-
ção de produção. Por isso, é que, no limite das conexões transversais ou transfinitas,
o objecro parcial e o fluxo contínuo, o corte e a conexão se confundem num só-
sempre cortes-fluxos de onde brota o desejo, e que são a sua produtividade, fazen-
do sempre a inserção do produzir no produto (e é curioso que Mélanie Klein, na
sua profunda descoberta dos objectos parciais, tenha negligenciado o esrudo dos
fluxos e não