DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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primeiros analistas descobriram foi o domínio das sínteses livres onde tudo é
I «Não e o F-Ktode eu pregar um regresso a Freud que me há-de impedir de afirmar que o Totem et t,lbou
e um abono. É precisamente por causa disso que e preciso regressar a Frcud. Ninguém me ajudou a descobrir
o que são as finnações do inconsciente ... Não estou a dizer que o Édipo não serve para nada, nem que nao rem
qualquer relação com o que fazemos. f verdade que para os psicanalistas não serve para nada! Mas como os
psicanalistas nao sao seguramente psicanalistas, isso não prova nada ... Tudo isto são coisas que expus na devida
alrura; nessa altura falava com pessoas que prerendia ensinar; psicanalistas. A esse nível falei da meráfora
paterna, nunca de complexo de Edipo ... » (Lacan, seminário de 1970).
I J. Laplanehe e J. B. Ponralis, «Fantasme originaire, fantasmes des origines ct origine du fantasme~,
Témps modernes, n.C> 215, Abril de 1964, pp. 1844~1846.
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possível, as conexões sem fim, as disjunções sem exclusividade, as conjunções sem
especificidade, os objectos parciais e os fluxos. As máquinas desejantes roncam,
zumbem do fundo do inconsciente, a injecção de Irma, o tiquetaque do Homem
dos Lobos, a máquina de tossir de Ana, e também todos os aparelhos explicativos
montados por Freud, todas essas máquinas neurobiológicas-desejantes. A desco-
berta do inconsciente tem dois correlatos: primeiro, a descoberta da confrontação
direcra da pr.odução desejante com a produção social, das formações
sintomatológicas com as formações colectivas e portanto da sua identidade de
natureza e da sua diferença de regime; depois, a repressão que a máquina social
exerce sobre as máquinas desejantes, e a relação do recalcamento com essa repres-
são. É tudo isto que se perderá ou que, pelo menos, ficará singularmente compro-
metido com a instauração do Édipo soberano. A associação livre, em vez de se
abrir às conexões plurívocas, fecha-se num impasse de univocidade. Todas as ca-
deias do inconsciente são bi-univocizadas, linearizadas, suspensas num Significante
despótico. Toda a produção desejame é esmagada, submerida às exigências da re-
presentação, aos sombrios jogos do representante e do representado na representa-
ção. Mas o que importa é que a produção do desejo seja substituída por uma
simples representação, tanto no processo de cura como na teoria. O inconsciente
produtivo é substituído por um inconsciente que s6 se sabe exprimir pelo miro,
pela tragédia, pelo sonbo. Mas quem é que garante que o sonbo, a tragédia, o
mito sejam adequados às formações do inconsciente, mesmo se tivermos em con-
ra o trabalbo de transformação? Mais do que Freud, Groddeck permaneceu fiel a
uma autoprodução do inconsciente na co-extensão do homem e da Natureza.
Como se Freud tivesse recuado face a este mundo de produção selvagem e de
desejo explosivo, e quisesse introduzir nele, fosse como fosse, um pouco de or-
dem, da ordem clássica do velho reatro grego. O que é que quer dizer: Freud
descobriu o Édipo na sua auto-análise? Na sua auto-análise ou na sua cultura
clássica goerhiana? Na sua auto-análise descobriu algo que o levou a dizer: olha,
isto parece-se com o Édipo! E começou por considerar esse algo como uma vari-
ante do «romance familiar», como o registo paran6ico através do qual o desejo
estoira com as determinações de família. S6 a pouco e pouco é que virá a transfor-
mar o romance familiar numa dependência do Édipo, a neurotizar e a edipianizar
todo o inconsciente, encerrando-o assim no triângulo familiar. E o esquizo torna-
-se o seu inimigo. A produção desejante é personalizada, ou antes personalogizada,
imaginarizada, estruturalizada (já verificámos que a verdadeira diferença ou fron-
teira não está entre esses termos, que até talvez sejam complementares), A produ-
ção passa a ser s6 produção de fantasmas, produção de expressão. O inconsciente
deixa de ser o que é, fábrica, atelier, para se tornar um teatro, cena e encenação. E
nem sequer reatro de vanguarda, como já havia no tempo de Freud (Wedekind),
mas um teatro clássico, uma otdem clássica de representação. O psicanalista tor-
na-se o encenador de um teatro privado - em vez de ser o engenheiro ou o
mecânico a montar unidades de produção, a lutar com agentes colectivos de pro-
dução e de amiprodução.
Com a psicanálise passa-se o mesmo que com a revolução russa ~ nunca
conseguimos saber quando é que as coisas se começaram a deteriorar. Somos sem-
pre obrigados a recuar um pouco mais. Com os Americanos? Com a Primeira
Internacional? Com o comité secreto? Com as primeiras rupturas que assinalam
tanto a renúncia de Freud como as traições dos que se afastam dele? Com o pr6-
prio Freud, desde a "descoberta» do Édipo? Porque o Édipo é a viragem idealisra.
No entanto, não podemos dizer que a psicanálise tenha esquecido a produção
desejante. As noções fundamentais de economia do desejo, trabalho e investimen-
to conservam toda a sua importância, mas subordinadas agora às formas de um
inconsciente expressivo e já não às formações do inconsciente produtivo. A natu-
reza a-edipiana da produção de desejo continua a estar presente, mas rebatida
sobre as coordenadas do Édipo que a traduzem por «pré-edipiano», por «para-
edipiano)), por <~quase-edipiano}>,etc. AI:. máquinas desejantes subsistem sempre,
mas agora só funcionam por detrás das paredes do consult6rio. O lugar que o
fantasma originário, ao submeter tudo à cena edipiana, concede às máquinas
desejantes, fica por detrás da parede ou nos bastidores'''. Mas não é por isso que
elas deixam de fazer um barulho infernal, que o próprio psicanalista não pode
esquecer. Assim, a sua atitude tem que ser de denegação: sim, tudo.isso pode ser
verdade, mas não é por isso que deixa de ser papá-mamão Está escrito no frontão
do consult6rio: deixa as tuas máquinas desejantes à porta, abandona as tuas má-
quinas 6rfãs e celibatárias, o teu gravador e a tua moto reta, entra e deixa-te
edipianizar. Tudo deriva daqui, a começar pelo carácter inenarrável da cura, o seu
.> Acerca da existência de uma pequena máquina no «fanta.smaoriginário)}, existência essa sempre camu-
flada. err. Freud, Un cas de pamnoia qui contredisait la th/ode psychanal)'lique de cette affietion, 1915.
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carácter interminável altamente contratual, fluxo de palavras em troca de um
fluxo de dinheiro. Basta então um pequeno episódio psicótico: um clarão de
esquizofrenia, levamos um dia o nosso gravador para o consultório do analista-
stop, instrusão de uma máquina desejante, e tudo se transforma, quebrámos o
contrato, não fomos fiéis ao grande princípio da exclusão do terceiro, introduzi-
mos o terceiro, a máquina desejante em pessoa4\u2022 E no entanto qualquer psicana-
lista devia saber que sob o Édipo, arravés do Édipo, atrás do Édipo, estão as
máquinas desejantes, que são afinal aquilo com que ele tem de se haver. No prin-
cípio, os psicanalistas não podiam deixar de ter consciência do forcing, realizado
para se poder introduzir o Édipo, para o injectar em todo o inconsciente. Depois,
o Édipo rebateu-se sobre a produção desejante, apropriou-se dela como se todas
as forças produtivas do desejo emanassem dele. O psicanalista tornou-se o cabide
do Édipo, o grande agente da antiprodução no desejo. Passa-se o mesmo com o
Capital, o mesmo mundo encantado, miraculado (no princípio, dizia Marx, os
primeiros capitalistas não podiam deixar de ter consciência ... ).
Vê-se facilmente que, em primeiro lugar, o problema é um problema práti-
co, e que está, antes de mais, relacionado com a cura. Porque o problema da
edipianização furiosa desenha-se precisamente quando o Édipo ainda não rece-
beu a sua plena formulacão teórica como «complexo nuclean> e existe apenas
marginalmente.