DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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O facto da análise de Schreher não ser in vivo não subtrai nada
ao seu valor de prárica exemplar. Porque é precisamente nesse texto (1911) que
Freud enfrenta a questão mais terrível: como é que se pode ter a ousadia de tentar
reduzir ao tema paterno um delírio tão rico, tão diferenciado, tão «divino» como
4 ~Jean-Jacques Ahrahams, L'Homme au magnétophone, dialogue psychanalytlque» Temp> modeme \u2022\u2022
n." 274, Abril de 1969: "A: Como vês. isso não é assim tão grave; não sou o teu pai e ainda posso gritar que
não. Pronto, basta. - Df. X: Está a imitar o seu pai? - A: Que idcia, estou mas é a imitar o seu, aquele que
vejo nos seus olhos. - Dr X: Está a tentar faur o papel de ... - A: ~ Você não é capaz. de curar as pessoas,
você só é capaz de lhes impingir os seus problemas de pai e nunca sair disso; e assim com o problema do pai,
\'aí cOn5eguindo arrastar as vítimas de sessão para sessão ... O doente era cu e você é que era o médico; afinal,
conseguiu resolver o seu problema de infância, de ser o filho em relaçao ao pai ... - Dr. X: Vou telefonar para
o 609. para ver se o riram daqui, para o 609, à polícia que o há-de pôr na rua. -A: À polícia? Ora cá temos:
o papá afinal é da polícia! O seu papá é polícia! e você ia telefonar ao seu papá para me vir cá buscar ... Que
história de doidos! Você só se enervou, só se excitou porque vai aqui aparecer um aparelho que nos vai ajudar
a perceber o que é que se passa.»
o do presidente - Ullla vez que o presidente. nas suas Memórias, só faz referênci-
as muito breves ao pai? Nota-se por diversas vezes no texto de Freud a que ponto
este sentiu a dificuldade: primeiro, parece difícil assinalar como causa da doença,
ainda que como causa ocasional, um <<Ímpeto de líbido homossexuah, dirigido à
pessoa do médico Flechsig; mas, quando substituímos o médico pelo pai, e encar-
regamos o pai de explicar o Deus do delírio, sentindo nós próprios grande dificul-
dade em seguir essa ascensão, estamos a usar direitos que só se podem justificar
pelas vantagens que trazem à nossa compreensão do delírio. No entanto, quanto
mais Freud enuncia os seus escrúpulos mais os repudia e varre com uma resposta
segura. E essa resposta é dupla: não sou eu que tenho a culpa de a psicanálise ser
rão monótona e de descobrir o pai em todo o lado: em Flechsig, em Deus, no sol;
a culpa é da sexualidade e do seu simbolismo obstinado. Por outro lado, não é de
espantar que o pai esteja sempre a aparecer nos delírios actuais sob as formas
menos reconhecíveis e mais ocultas, pois que está sempre a aparecer e de maneira
mais visível nos mitos antigos e nas religiões, que exprimem as forças ou mecanis-
mos que aetuam eternamente no inconsciente. E o presidente Schreber, que em
vida tinha sido sodomizado pelos raios do céu, acabou por ser postumamente
edipianizado por Freud. Não fica uma sópalavra do enorme conteúdo político,
social e histórico do delírio de Schreber, como se a líbido não tivesse nada com
isso. Apenas se invoca um argumento sexual, que estabelece a soldagem da sexu-
alidade ao compíexo familiar, e um argumento mitológico que estabelece a ade-
quação do poder produtor do inconsciente e das «forças produtoras dos mitos e
das religiões,>.
Este último argumento é muito importante, e não é por acaso que a respeito
disto Freud declara estar de acordo com Jung. E, de uma certa maneira, esse
acordo subsiste mesmo depois da ruptura. Porque se considerarmos que o incons-
ciente se exprime adequadamente pelos mitos e pelas religões (ten~o sempre em
conta, bem entendido, o trabaího de transformação), existem dois modos de ler
essa adequação; mas esses dois modos têm em comum o postulado que mede o
inconsciente pelo mito e que, desde o princípio, substitui as formações produti-
vas por simples formas expressivas. A questão fundamental: porque é que se recorre
ao mito?, porquê tomá-lo como modelo? é ignorada, afastada. A suposta adequa-
ção pode ser interpretada da maneira a que se costuma chamar anagógica, dirigida
para «cima»; ou então, e inversamente, da maneira analítica, dirigida para «bai-
60 o ANTI-ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMÍLIA 61
XO), relacionando o mito com as pulsões - mas como as pulsões são decalcadas
do mito, deduzidas do mito, tendo em conta as transformações ... O que quere-
mos dizer é que é a partir do mesmo postulado que Jung é levado a restaurar a
religiosidade mais difusa, mais espiritualizada, e que Freud vê confirmado o seu
rigoroso ateísmo. Para interpretar a adequação que ambos postulam, Freud tem
tanta necessidade de negar a existência de Deus como Jung tem de afirmar a
essência do divino. Mas tornar a religião inconsciente, ou tornar o inconsciente
religioso, é sempre injectar religiosidade no inconsciente (e o que seria da análise
freudiana sem o famoso sentimento de culpabilidade atribuído ao inconsciente?)
E o que é que se passou na história da psicanálise? Freud defendia o seu ateísmo
como um herói. Mas, enquanto o iam ouvindo respeitosamente, enquanto iam
deixando o velho falar, nas suas costas ia-se preparando a reconciliação das igrejas
com a psicanálise, momento em que a Igreja viria a ter os seus próprios psicanalis-
tas e que se poderia escrever na história do movimento: como também nós somos
ainda piedosos! Lembremos a grande declaração de Marx: aquele que nega Deus
faz apenas uma (lcoisa secundária)), porque nega Deus para afirmar a existência do
homem, para pôr o homem no lugar de Deus (tendo em conta, evidentemente, a
transformação)5, Mas aquele que sabe que o lugar do homem é noutro sítio, ou
seja, na coextensividade do homem e da natureza, esse nem sequer deixa subsistir
a possibilidade de uma interrogação sobre «um ser estranho, um ser situado acima
da natureza e do homem)): já não precisa da mediação que o mito é, já não precisa
de passar pela mediação que a negação da existência de Deus é, porque atingiu as
regiões da autoprodução do inconsciente, em que o inconsciente é tão ateu como
órfão, imediatamente órfão, imediatamente ateu. E é evidente que o exame do
primeiro argumento nos havia de levar a uma conclusão semelhante. Porque, ao
soldar a sexualidade ao complexo familiar, ao fazer do Édipo o critério da sexua-
lidade na análise, a prova por excelência da ortodoxia, foi o próprio Freud que
determinou o conjunto das relações sociais e metafísicas como um após ou um
além, que o desejo era incapaz de investir imediatamente. Sendo assim, é total-
mente indiferente que esse além derive do complexo familiar por transformação
analítica do desejo, ou que seja significado por ele numa simbolização anagógica.
~Marx, Ewnomie rt philosophie, Pléiade II, p. 98. E o excelente comendrio de François Chatelet, &quot;la
question de l'athéisme de Marx», in l:,'tudes philosophiques, Julho de 1966.
Consideremos um outro texto de Freud, mais tardio, em que o Édipo já é
designado como «compÍexo nuclean>: Un enfint est battu (1919)_ É difíciÍ que o
leitor não sinta uma impressão de inquietante estranheza. Nunca o tema paterno
foi menos visível e, no entanto, afirmado com tanta paixão e resolução: aqui, o
imperialismo do Édipo baseia-se numa ausência. Porque, afinal, dos três tempos
do fantasma que se supõe haver numa rapariga, acontece que no primeiro o pai
ainda não aparece e no terceiro já não aparece: fica, pois, o segundo, onde o pai
brilha intensamente «sem dúvida nenhuma») - mas, justamente, «esta fase nunca
tem uma existência real; porque permanece inconsciente, nunca pode ser evocada
pela memória, e não é mais do que uma reconstituição analítica, embora necessá-
ria»). Mas o que é que há neste fantasma? Rapazes em quem o professor, por
exemplo, bate em frente do olhar atento das raparigas. Assiste-se, desde o início,
a uma dupla redução freudiana, exigida não pelo fantasma, mas, como pressupos-
to, por Freud. Por um lado Freud quer deliberadamente reduzir o carácter de
grupo do