DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
216 pág.

DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.440 materiais35.584 seguidores
Pré-visualização50 páginas
rapariga/rapaz, pais/agentes de produção e de
anriprodução, tanto em cada indivíduo como no sacius que preside à organização
do fantasma de grupo. Os rapazes procuram, ao mesmo tempo, ser castigados-ini-
ciados pelo professor na cena erótica da rapariga (máquina de ver) e gozar,
masoquisticamente, na mãe (máquina anal). E assim os rapazes só podem vef se se
tornarem raparigas, e as raparigas só podem experimentar o prazer da punição se
se tornarem rapazes. É todo um coro, toda lima montagem: ao regressarem à aldeia
depois de uma expedição no Vietname os crápulas dos Marines obrigam, na pre-
sença das irmãs chorosas, o professor, que tem a mamá ao colo, a castigá-los, e gozam
por terem sido tão maus, por terem torturado tão bem. É tão mau, mas como é bom!
Talvez isto faça lembrar uma cena do filme Paralelo 17: vê-se o coronel Patron, o
filho do general, declarar que os rapazes são formidáveis, que adoram o pai, a mãe
e a pátria, que nos actos religiosos choram pelos camaradas mortos que eram rapa-
zes valentes - depois, o rosto do coronel altera-se numa careta e revela um grande
paranóico que acaba por gritar: e com tudo isto, são verdadeiros assassinos ... É
evidente que, quando a psicanálise tradicional explica que o professor é o pai, e o
coronel também, e que até a mãe é o pai, submete todo o desejo a urna determina-
ção familiar que já não tem nada a ver com o campo social realmente investido pela
líbido. Claro que há sempre pedaços do pai ou da mãe que aparecem na cadeia
significante, o bigode do pai, o braço ameaçador da mãe, mas só furtivamente, entre
os agentes colectivos. Os termos do Édipo não formam um triângulo, porque es-
tão espalhados por todos os cantOS do campo social, a mãe ao colo do professor, o
pai ao lado do coronel. O fanrasma de grupo esrá ligado, maquinado, ao socius. Ser
enrabado pelo socius, desejar ser enrabado pelo socius, não deriva nelll do pai nem
da mãe, embora o pai e a mãe desempenhem um papel secundário como agentes
subalternos de transmissão ou de execução.
Quando a noção de fanrasma de grupo foi elaborada segundo a perspecriva
da análise institucional (nos trabalhos da equipa de La Borde, reunida em torno
de Jean Oury), insistiu-se em primeiro lugar na sua diferença de natureza em
relação ao fantasma individual. Verificou-se que o fantasma de grupo era inseparável
das articulações (,simbólicas» que definem um campo social considerado real, en-
quanto que o fantasma individual rebatia todo o conjunto desse campo sobre os
dados «imaginários». Se prolongarmos esta primeira distinção, veremos que até o
próprio fantasma individual está inserido no campo social existente, mas que o
apreende por meio de qualidades imaginárias que lhe conferem uma espécie de
transcendência ou de imortalidade ao abrigo das quais o indivíduo, o eu, joga o
seu pseudo-destino: que me importa morrer, diz o general, se o Exército é imor-
tal! A dimensão imaginária do fantasma individual tem uma importância decisiva
na pulsão de morte, visto que a imortalidade conferida à ordem social existente
provoca no eu todos os investimentos de repressão, todos os fenómenos de iden-
tificação, de ,(super-egocização» e de castração, todas as resignações~desejos (tor-
nar-se general, tornar-se pequeno, médio ou grande quadro), e até aceitar morrer
ao serviço da ordem, enquanto a pulsão é projectada para fora e dirigida contra os
outros (morte ao estrangeiro, morte aos que não são daqui!). pelo contrário, o
pólo revolucionário do fantasma de grupo, esse, aparece na capacidade de viver as
próprias instituições como mortais, de as destruir ou mudar consoante as articu-
lações do desejo e do campo social, transformando a pulsão de morte numa au-
têntica criatividade institucional. Porque é este o critério, pelo menos formal,
para distinguir a instituição revolucionária da enorme inércia que a lei comunica
às instituições numa dada ordem estabelecida. Como diz Nietzsche, igrejas, exér-
citos, Estados, qual destes cães é que quer morrer? Aparece assim uma terceira
diferença entre fantasma de grupo e fantasma individual: o sujeito deste é o eu
C'nquanro determinado pelas instituições legais e legalizadas, nas quais (,se imagi~
na)), e ao ponto de até mesmo nas suas perversões se conformar com a utilização
exclusiva das disjunções imposras pela lei Cahomossexualidade edipjana, por exem-
plo). Mas o sujeito do fantasma de grupo são as próprias pulsões, e as máquinas
desejantes que elas formam com a instituição revolucionária. O fantasma de gru-
po inclui as disjunções, porque cada um, desriruído da sua idenridade pessoal mas
não das suas singularidades, entra em relação com o outro por intermédio da
comunicação própria aos objecros parciais: cada um passa para o corpo do outro
\obre o corpo sem órgãos. Klossowski mostrou bem que há uma relação inversa
que divide o fantasma em duas direcções, consoante é a lei económica que estabe-
66 o ANTI-ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMfLIA 67
Ieee a perversão nas «trocas psíquicas)), ou são as trocas psíquicas que, pelo contrá-
rio, provocam uma subversão da lei: {(OEstado singular, anacrônico relativamen-
te ao nível institucional gregário, pode, consoante a sua maior ou menor intensi-
dade, efecruar uma desactualização da própria instituição e denunciá-la como
anacrónica))9. Os dois tipos de fantasma, ou melhor, os dois regimes, distinguem-
-se, portanto, porque num é a produção social dos «bens» que impõe a sua lei ao
desejo por intermédio de um eu cuja unidade fictícia é garantida pelos próprios
bens, e no outro é a produção desejante dos afectos que impõe a sua regra a
instituições cujos elementos são simplesmente as pulsões. Se ainda for preciso
falar de utopia neste último caso, à Fourier, não será certamente de uma utopia
como modelo ideal, mas como acção e paixão revolucionárias. E, nas suas obras
mais recentes, Klossowski indica-nos que o único meio de ultrapassar o estéril
paralelismo Marx/Freud é perceber como a produção soeial e as relações de pro-
dução são uma instituição do desejo, e como os afeetos ou as pulsões fazem parte
da infra-estrutura. Porque elesfazem parte dela, e estão presentes nela de todas as
maneiras, criando nas formas económicas tanto a sua própria repressão como os
meios de a combater.
Finalmente, o desenvolvimento das distinções entre fantasma de grupo e
fantasma individual mostra com toda a clareza que o fantasma individual não
existe. O que existe são dois tipos de grupos, os grupos-sujeitos e os grupos-
-sujeitados - o Édipo e a castração formam a estrutura imaginária sob a qual os
membros do grupo sujeitado vivem e fantasmam individualmente a sua pertença
ao grupo. Devemos ainda dizer que estes dois tipos de grupos estão em movimen-
tação constante - um grupo-sujeito corre a todo o momento o risco de sujeição
e um grupo sujeitado pode ser, em certos casos, forçado a assumir um papel revo-
lucionário. E é extremamente inquietante verificar quanto a análise freudiana só
retém dos fantasmas as linhas de disjunção exclusiva, e os esmaga nas suas dimen-
sões individuais ou pseudo-individuais que, por natureza, os referem a grupos
sujeitados, em vez de fazer a operação inversa e descobrir no fantasma um ele-
mento subjacente de potencialidade revolucionária de grupo. Quando nos dizem
~ Pierre Klossowski, tl/ietzsrhe tt ir cerele lJicieux, p. 122. A meditação de K1ossowski acerca da relaçao
entre os instintos c as instituições, a presença das pulsões na própria infra-estrurura econômica, desenvolve·se
no seu artigo {,Sacie et Fourien (TiJpique, n.'~ 4-5) e principalmente em L1 mOrJllllie lJiwmte (Losfe1d, 1970).
que o instrutor e o professor são o papá, assim como o coronel e a mãe, quando
assim se rebatem todos os agentes da produção e da anti-produçáo sociais sobre as
figuras da reprodução familiar, compreendemos que a líbido. transtornada,