DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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atravessam-no, separam-lhe os vértices. O selo
edipiano não se consegue colar a esses fluxos, como não se consegue colar à água
nem à compota. Eles exercem de encontro aos lados do triângulo, e para fora, a
irresistível pressão da lava ou a invencível força da corrente de água. Mas quais são
as boas condições para a cura' Um fluxo que se deixa carimbar pelo Édipo; objec-
tos parciais que se deixam unificar num objecto completo, ainda que ausente,
phalius da castração; cortesjluxo que se deixam projecrar docilmente no espaço
mítico; cadeias plurívocas que se deixam bi-univocizar, linearizar, suspender de
um significante; um inconsciente que se deixa exprimir; sínteses conectivas que
permitem que se faça delas um uso global e específico; sínteses disjuntivas que se
deixam apanhar num uso exclusivo e limitativo; sínteses conjuntivas que permi-
tem que se faça delas um uso pessoal e segregativo ... Pois que significa «era então
isso que isto queria dizefi'? Significa que o Édipo e a castração esmagam o «então}}.
Suspiro de alívio: vês, o coronel, o instrutor, o professor, o patrão, tudo isto queria
dizer isso, o Édipo e a castração, «uma nova versão de toda a história)} ... Não
queremos dizer que o Édipo e a castração não existam: somos edipianizados, cas-
trados, e não foi a psicanálise que inventou essas operacões às quais fornece ape-
nas os novos recursos e processos do seu génio. Mas já chega de fazer calar o
clamor da produção desejante: somos todos esquizos! somos todos perversos! so-
mos todos Líbidos demasiado viscosas ou demasiado líquidas ... não por gosto,
mas porque seguimos os fluxos desterritOrializados ... Qual o verdadeiro neurótico
que não está apoiado no rochedo da esquizofrenia, nesse rochedo móvel, aerólito?
Quem é que não procura as territOrialidades perversas para lá dos jardins infantis
do Édipo' Quem não seme nos fluxos do seu desejo a lava e a água! Afinal qual é
a nossa doença? A esquizofrenia como processo? Ou a furiosa neurotização a que
nos entregam, para a qual a psicanálise inventou novos meios, o Édipo e a castra-
ção? A nossa doença será a esquizofrenia como processo - ou o prolongamento
infinito do processo no vazio, essa horrível exasperação (a produção do
esquizofrénico-entidade) ou a confusão do processo com um fim (a produção do
perverso-artifício) ou a interrupção prematura do processo (a produção do neu-
rótico-análise)? Confrontam-nos à força com o Édipo e com a castração, reba-
tem-nos sobre eles: ou para nos medirem por esse tormento, ou para verificarem
que não podemos ser medidos por ele. Mas de qualquer maneira o mal já está
feiro, a cura escolheu o caminho juncado de detritos da edipianização, em vez do
da esquizofrenização, que agora tem que nos curar da cura.
o problema prático relativamente às sínteses do inconsciente é o da sua uti-
lização, legítima ou não, e das condições que definem uma utilização de síntese
como legítima ou ilegítima. Tomemos como exemplo a homossexualidade (que é
bem mais do que um exemplo), Já observámos que em Proust, nas célebres pági-
nas de Sodoma e Comorra, se entrelaçavam dois temas francamente contraditóri-
os: o primeiro é o tema da culpabilidade fundamental das «caças malditas}); o
segundo é o da radical inocência das flores. Aplicou-se a Proust, talvez precipita-
damente, o diagnóstico de uma homossexualidade edipiana, por fixação à mãe,
com dominância depressiva e culpabilidade sado-masoquista. De Uln modo geral
parece-nos que houve pressa demais nos fenômenos de leitura em descobrir con-
tradições, quer para as declarar irredutíveis, quer para as resolver ou demonstrar
que são apenas aparelHes. Na verdade, o que eXIste não são contradições, reais ou
aparentes, mas simplesmente graus de humor. E, como a própria leitura tem os
~eus graus de humor, desde o negro até ao branco, com os quais avalia os graus
coexistentes daquilo que lê, o único problema é sempre o da repartição sobre uma
escala de intensidades, que determina o lugar e a utilização de cada coisa, de cada
ser ou de cada cena: há isto e mais aquilo, e embora isso nos possa desagradar,
temos que nos arranjar. Talvez o aviso canalha de Charlus, quando diz: «Com que
então está-se nas tintas para a sua avó hã, seu pulha!)" profeeie precisamente isto.
Pois o que é que se passa no À Procura do limpo Perdido, que é uma só e mesma
história infinitamente variada? É evidente que o narrador não vê nada, não ouve
nada, é um corpo sem órgãos, ou melhor, é como uma aranha especada na sua
teia: não observa nada, mas responde ao menor sinal, à mínima vibração, saltan-
do sobre a presa. Tudo começa por nebulosas, por conjuntos estatísticos de con-
tornos pouco nítidos, por formacões molares ou colectivas que comportam singu-
laridades repartidas ao acaso (um salão, um grupo de raparigas, uma paisagem.,.).
A seguir, nessas nebulosas ou colectivos, desenham-se dados», organizam-se séri-
es, e nessas séries aparecem pessoas, pela acção de estranhas leis de falta, ausência,
assimetria, exclusão, não-comunicação, vício e culpabilidade. E, depois ainda,
tudo se torna a misturar, a desfazer, mas desta vez numa multiplicidade pura e
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molecular, em que todos os objectos parciais, coclas as «caixas» e «vasos)" têm as
suas determinações positivas e estabelecem uma comunicação aberrante através
de uma transversal que percorre toda a obra, imenso fluxo que cada objecto par-
cial produz e re-corta, reproduz e corta ao mesmo tempo. Mais do que o vício, diz
Preust, o que inquieta é a loucura e a sua inocência. Se a esquizofrenia é o univer-
sal, o grande artista é então aquele que salta o muro esquizofrénico e atinge a
prática desconhecida, onde já não pertence a nenhum tempo, a nenhum meio, a
nenhuma escola.
É o que acontece numa passagem exemplar, no primeiro beijo que o narrador
dá a Albertine. O rosto de Albertine começa por ser uma nebulosa, mal se distin-
guindo do conjunto das raparigas. Depois, a pessoa de Albertine vai-se destacan-
do, através de uma série de planos que são como que as suas personalidades dis-
tintas, e o rosto de Alhertine salta de um plano para outro, à medida que os lábios
do narrador se aproximam da sua face. Por fim, na exagerada proximidade, tudo
se desfaz como uma visão no deserto, o rosto de Alberrine desfaz-se em ohjectos
parciais moleculares, enquanto que os do narrador voltam ao corpo sem órgãos,
olhos fechados, nariz apertado, boca cheia. Mas todos os amores contam esta
história. Da nebulosa estatística, do conjunto molar dos amores homens-mulhe-
res, destacam-se as duas séries malditas e culpadas que testemunham de uma mesma
castração de duas faces não sobreponÍveis, a série Sodoma e a série Gomorra, que
se excluem uma à outra. Mas ainda não se disse tudo, porque o tema vegetal, a
inocência das flores, nos trazem uma outra mensagem e um outro código: somos
rodos bissexuados, temos todos dois sexos, mas compartimentados, não
comunicantes: o homem é simplesmente aquele em que a parte masculina domi-
na estatisticamente, e a mulher, aquela em que a parte feminina domina estatisti-
camente. E assim, ao nível das combinações elementares é preciso fazer intervir
pelo menos dois homens e duas mulheres para constituir a multiplicidade na qual
se estabelecem comunicações transversais, conexões de objectos parciais e fluxos:
a parte masculina de um homem pode comunicar com a parte feminina de uma
mulher, mas também pode comunicar com a parte masculina de uma mulher, ou
com a parte feminina de um outro homem, ou ainda com a parte masculina de
outro homem, etc. E a partir daqui deixa de haver culpabilidade, porque ela não
se pode agarrar a flores como estas. À alternativa das exclusões «oU... OUII opõe-se o
«(quer» das combinações e permutações onde as diferenças vêm a dar no