DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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cendente que introduz por toda a parte as exclusões e as limitações na rede disjuntiva
e precipita o inconsciente no Édipo? E porque é que a edipianização é precisa-
mente isto? É que a relação exclusiva introduzida pelo Édipo não está 56 entre as
diversas disjunções concebidas como diferenciações, mas também entre o conjunto
dessas diferenciacões que ela impõe e um indiferenciado que ela supõe. O Édipo diz-
-nos: se não obedeceres às linhas de diferenciação, papá-mamá-eu, e a rodas as
exclusivas que as balizam, cairás na escuridão do indiferenciado. Devemos com-
preender que as disjunçóes exclusivas não são, de modo algum, COmo as inclusi-
vas: nem Deus, nem os nomes parentais são usados da mesma maneira. Esses
nomes já não designam estados intensivos por que o sujeito passa sobre o corpo
sem órgãos e no inconsciente que continua órfão (sim, fui. ..), mas designam pes-
soas globais que não preexistem aos interditos que as fundam e que as diferen-
ciam entre si e em relação ao eu. E assim a transgressão do interdito torna-se
correlativamente uma confusão de pessoas, uma identificação do eu com as pes-
soas, pela perda das regras diferenciantes ou das funções diferenciais. Mas deve-
mos ainda fazer notar que foi o próprio Édipo que criou tanto as diferenciações que
ordena, como o indiferenciado com que nos ameaça. É por intermédio de um mes-
mo movimento que o complexo de Édipo introduz o desejo na triangulação e
proíbe o desejo de se satisfazer com os termos da triangulação. Força o desejo a
tomar como objecto as pessoas parentais diferenciadas, e em nome das mesmas
exigências interdita o eu correlativo de satisfazer o seu desejo nessas pessoas, ame-
açando-o com o indiferenciado. Mas fOiprecisamente ele que criou esseindiferencíado
como reverso das diferencíacões também por ele criadas. O Édipo diz-nos: ou
interiorizas as funções diferenciais que presidem às disjunções exclusivas, e assim
«resolves» o Édipo - ou te precipitas na escuridão neurótica das identificações
imaginárias. Ou segues as linhas do triângulo que estruturam e diferenciam os
três termos - ou então haverá sempre um termo a mais e serás obrigado a repro-
duzir em todos os sentidos as relações duais de identificação no indiferenciado.
Mas o Édipo está tanto num lado como no outro. E toda a gente sabe a que é que
a psicanálise chama resolver o Édipo: ter que o interiorizar para o aceitarmos me-
lhor quando o encontrarmos no exterior, na autoridade social, e para o podermos
disseminar, passando-o aos nossos filhos. «A criança só se torna homem quando
resolve o complexo de Édipo e é essa resolução que o introduz na sociedade. Aí
,erá obrigada a reviver o Édipo na figura da Autoridade, mas agora sem lhe poder
escapar. Situada entre o impossível retorno àquilo que precede o estado de cultura
c o mal-estar crescente que este provoca, também não tem a certeza de poder
encontrar um ponto de equilibriolil9. O Édipo é como um labirinto: a única
maneira de sairmos é voltarmos a entrar (ou fazermos entrar outro). Édipo como
problema ou como solução - os dois extremos de uma ligadura que retém toda
a produção desejante. Apertêmo-Ia um pouco mais, e da produção desejante já só
passa um rumor. Esmagou-se, triangulou-se o inconsciente, impôs-se-Ihe uma
escolha que não era a sua. Cortam-se todas as saídas: as disjunções inclusivas,
i1imitativas, deixam de ter qualquer uso possível. Arranjaram-se pais para o in-
consciente!
Bateson chama double bind à emissão simultânea de dois tipos de mensa-
gens que se contradizem entre si (por exemplo, o pai que diz ao filho: anda,
nitica-me, mas deixando perceber que qualquer crítica efectiva, ou pelo menos
um certo género de crítica, seria muito mal recebida). Bateson pensa que esta é
uma situação particularmente esquizofrenizante, e interpreta-a como um «(non-
\C'ns»dentro da perspectiva da teoria dos tipos de Russelpo. Mas a nós parece-nos
que o double bind, o duplo impasse, é uma situação corrente e edipianizante por
excelência. E, arriscando-nos a formalizá-Ia, pensamos que remete para este outro
tipo de (mon-senSi>russelliano: uma alternativa, uma disjunção exclusiva, é deter-
minada por um dado princípio que consritui, no entanto, os seus dois termos ou
~ub-conjuntos e que, além disso, entra na alternativa (caso que é extremamente
difereme da disjunção inclusiva). Esre o segundo paralogismo da psicanálise. Em
mma, o «double bind» não é mais do que o conjunto do Édipo. E é neste sentido que
o Édipo deve ser apresentado como uma série, ou como oscilando entre dois
pólos, que são a identificação neurótica e a interiorização dita normativa. Mas o
Édipo, o impasse duplo, está em ambos os lados. E se aqui um esquizo se produz
como entidade, é por ser o único meio de escapar a essa via dupla, onde a
normarividade não oferece mais saídas que a neurose, e onde a solução não está
menos entravada que o problema; refugiamo-nos, então, no corpo sem órgãos.
I" A. Bcsançon \u2022. ,Vers une hismire ps)'chanalytique», Anna!es, i\·faio de 1969.
2" G. Bateson e colaboradores, «Towards a Theory of SchilOphrenia., Behaviora! Scienre, 1956, 1 (e os
,ornentários de Pierre Fédida, ~l)sychose et paremé», Critique. Outubro de 1968).
84 o ANTI-ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMÍLIA 85
Parece-nos que o próprio Freud viu claramente que o Édipo era inseparável
de um duplo impasse onde precipitava o inconsciente. Lê-se numa carta de 1936
dirigida a Romain Rolland: «Tudo se passa como se o principal fosse superar o
pai. e como se fosse sempre interdito que o pai fosse superado.» E isto percebe-se
ainda mais claramente quando Freud expõe toda a série histórico-mítica: o Édipo
está ligado a um extremo pela identificação assassina) e ao outro pela restauração
e interiorização da autoridade do pai (<<restabelecimento da ordem antiga num
novo plano»)2]. Entre os dois está a latência, essa famosa latência, que é
indubitavelmente a maior mistificação psicanalítica: essa sociedade dos «irmãos)
que se interditam os frutos do crime, e que passam todo o tempo a interiorizar;
mas estamos prevenidos: a sociedade dos irmãos é sombria, instável e perigosa, e
deve preparar o aparecimento de um equivalente da autoridade paterna, fazer-nos
passar para o outro pólo. De acordo com uma sugestão de Freud, a sociedade
americana, a sociedade industrial com anonimato de gestão e desaparecimento
do poder pessoal, etc., é-nos apresentada como um ressurgimento da «sociedade
sem pais,>. É evidente que ela se encarregou de encontrar novas maneiras de res-
taurar o equivalente (por exemplo, a surpreendente descoberta que Mitscherlich
faz ao dizer que, afinal de contas, a família real inglesa não é uma coisa tão má
como isso ... )22. Logo, s6 se deixa um pólo do Édipo para passar para o outro.
Nem pensar em sair desta alternativa: neurose ou normalidade. A sociedade dos
irmãos não descobre nada da produção e das máquinas desejantes mas, pelo con-
trário, estende o véu da latência. Quanto aos que não se deixam edipianizar de
uma maneira ou da outra, num ou no outro extremo, a psicanálise lá está para
pedir ajuda ao asilo ou à polícia. A polícia está connosco! Nunca a psicanálise
mostrou tão bem o gosto que tem em apoiar o movimento da repressão social e
em o ajudar com todas as suas forças. E não se pense que aludimos a aspectos
folclóricos da psicanálise. Não é por Lacan ter outra concepção da psicanálise que
se deve menosprezar o tom reinante nas associaçóes mais célebres: repare-se no
Dr. Mendel, nos Drs. Stéphane, na sua ira, na sua invocação literalmente policial,
quando vêem que alguém pretende evitar a ratoeira do Édipo. O Édipo é como
aquelas coisas que se tornam perigosíssimas precisamente por já ninguém acredi-
;I Freud, PrycholQgie callective el ttnalyre du moi, capítulo 12, B.
!2 A. Mirscherlich, Vt-rs la wciété sam peres, 1963, tradução francesa Gallimard, pp. 237-330.
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