DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
216 pág.

DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.439 materiais35.571 seguidores
Pré-visualização50 páginas
já está tudo dito, os próprios esquizofrénicos já disse-
J~Nietrsche. cana a Burckhardt de Janeiro de 1889.
Lun tudo - decididos, finalmente, a deixarem-se moldar pelo esquema clínico.
1\1undo negro, deserto crescente: uma máquina solitária ronca na praia, uma fá-
hrica atómica instalada no deserto. Mas se o corpo sem órgãos é esse deserto, é-o
como uma distância indivisível, indecomponível, que o esquizo sobrevoa para
estar em todos os sítios em que se produziu, produz e produzirá real. A realidade
deixou de ser um princípio a partir do qual a realidade do real se pensava como
quantidade abstracta divisível, enquanto o real era repartido por unidades quali-
fIcadas, por formas qualitativas distintas. Mas agora o real é um produto que
el1volve as distâncias com quantidades intensivas. O indivisível está envolvido e
,lquilo que o envolve não se consegue dividir sem mudar de natureza ou de forma.
U esquizo não tem princípios: só é urna coisa se for outra. Só é Mahood se for
\X!orm, e só é Worm se for Tartempion. Só é uma rapariga se for um velho que
!lnge ser uma rapariga. Ou antes, se for alguém que finge ser um velho a fingir
que é uma rapariga. Ou antes, a fingir de alguém ... , etc. Os doze paranóicos de
Suetónio eram já a arte bem oriental dos imperadores romanos. Num livro mara-
vilhoso de ]acques Besse encontramos mais uma vez o duplo passeio do esquizo,
.\ viagem exterior geográfica, que se faz cobrindo distâncias indecomponíveis, e a
viagem interior histórica, que se faz segundo intensidades envolventes: Cristóvão
(.olombo só consegue acalmar a sua ttipulação revoltada quando finge de (falso)
.llmirante que finge de puta a dançar30\u2022 Mas o fingimento, a simulação, deve ser
entendido como há pouco o era a identificação. Exprime essas distâncias
Indecomponíveis sempre envolvidas pelas intensidades que se dividem umas nas
outras mudando de forma. Se a identificação é uma nomeação, uma designação,
.1 simulação é uma escrita que lhe corresponde, uma escrita estranhamente
plurívoca, com a forma do real, que traz O real para fora do seu princípio ao ponto
l'111que é efectivamente produzido pela máquina desejante. Ponto em que a cópia
deixa de ser cópia para se transformar no Real e no seu artifício. Apreender um real
lIl(ensivo tal como é produzido na coextensão da natureza e da história, vasculhar
II império romano, as cidades mexicanas, os deuses gregos e os continentes desco-
h('rtos para extrair esse excesso de realidade, e constituir o tesouro das torturas
I';lranóicas e das glórias celibatárias - sou todos os massacres e também todos os
10 Jacques llesse, «Le Danseur». in Ln Grande Paquê. d. Belfond. 1969 (roda a primeira parte deste livro
,1r\LT(;Ve (I passeio do esquizo na cidade; a segunda parte, «Legendes foHes", procede à aluónação ou ao delírio
,I,' episódios históricos).
92 o ANTI-ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMÍLIA 93
triunfos da história, como se alguns acontecimentos simples unívocos se despren-
dessem dessa extrema plurivocidade: ral é, segundo a fórmula de Klossowski, o
«histrionismo}) do esquizofrénico, o verdadeiro programa de um teatro da cruel-
dade, a encenação de uma máquina produrora de real. Longe de rer perdido não
se sabe bem que contacto com a vida, o esquizofrênico é o que está mais próximo
das palpirações da realidade e a ral ponto que se confunde com a produção do
real. Reicn diz: «o que caracteriza a esquizofrenia é a experiência desse elemento
vital, [... ] quanto ao sentimento da vida, o neurótico e o perverso estão para o
esquizofrênico como o negociante sórdido está para o grande aventureiro»31.
Perguntamos então: o que é que reduz o esquizofrênico à sua figura autista, hos-
pitalizada, separada da realidade? Será o processo ou, antes pelo contrário, a inter-
rupção do processo, a sua exasperação e prolongamento no vazio? O que é que
obriga o esquizofrénico a refugiar-se num corpo sem órgãos que está outra vez
surdo, cego e mudo?
Costuma-se dizer: aquele toma-se por Luís XVII. Nada disso. No caso Luís
XVII, ou antes, no caso mais interessante de todos, o do pretendente Richemont,
o que se encontra no centro é uma máquina desejante ou celibatária: o cavalo de
patas curtas articuladas, no qual teria sido posto o delfim para que pudesse esca-
par. E depois, à volta, há agentes de produção e de antiprodução, os organizadores
da evasão, os cúmplices, os soberanos aliados, os inimigos revolucionários, os tios
hostis e invejosos, que são, não pessoas, mas outros tantos altos e baixos por que
passa o pretendente. E mais, o golpe de génio do prerendente Richemont não foi
apenas o ter «justificado)) Luís XVII, nem o ter justificado os outrOS pretendentes
ao denunciá-los como falsos. Foi o ter justificado os outros pretendentes assu-
mindo-os, autenticando-os, ou seja, transformando-os, a eles também, em esta-
dos por que ele próprio rinha passado: sou Luís XVII mas rambém sou Hergavaulr
e Mathurin Bruneau que pretendiam ser Luís XVII32. Richemont não se identifi-
ca com Luís XVII, mas exige o prémio que é devido àquele que passa por todas as
singularidades da série convergente que há em torno da máquina de apanhar Luís
XVII. Tal como não há um eu no centro, também no contorno não há pessoas.
)1 Reich, LI Fonction de torgdsme, 1942, tradução francesa L'Arche, p. 62. Sobre a crítica do autismo,
ver Roger Gentis, Os murOi do asilo, tradução portuguesa, Portucalense Editora.
)2 11:1auriceGarçon, Louls XVII ou lafausse égnime, Hachette, 1968, p. 177.
Apenas uma série de singularidades na rede disjuntiva, ou de estados intensivos
no tecido conjuntivo, e um sujeito transposicional por todo o círculo, passando
110rtodos os estados, vencendo uns como se fossem inimigos, apreciando outros
como seus aliados, recolhendo em todo o lado o fraudulento prémio das suas
Lransformações. Objecto parcial: uma cicatriz local, aliás incerta, é uma prova
muito melhor que todas as recordações de infância que o pretendente não tem. A
..\u2022íntese conjuntiva pode então exprimir-se: então eu é que sou o rei! então todo
este reino é meu! Mas esse eu é simplesmente o sujeito residual que percorre o
drculo e resulta das suas oscilações.
Todos os delírios têm um conteúdo histórico-mundial, político, racial, arras-
um e misturam raças, culturas, continentes, reinos: é de perguntar se esta longa
(leriva será apenas um derivado do Édipo. A ordem familiar desaparece, recusam-
se as famílias, o filho, o pai, a mãe, a irmã - «Oiço famílias como a minha a
defenderem a declaração dos direitos do homemb. {(Quando procuro o meu con-
1 drio mais profundo encontro sempre a minha mãe e a minha irmã; o terem-me
Ii~ado a uma tal canalha alemã foi uma blasfémia para a divindade, ... a objecção
mais profunda à minha teoria do eterno retornob. O que pretendemos saber é se
() histórico-político, racial e cultural, pertencem apenas a um conteúdo manifesto
,. dependem formalmente de um rrabalho de elaboração ou se, pelo contrário,
dt'vem ser seguidos como o fio do conteúdo latente que a ordem das famílias nos
(ll"ulta. Dever-se-á entender a ruptura com as famílias como uma espécie de «ro-
mance familiar» que, precisamente, nos levaria outra vez às famílias e nos remete-
11;1 mais uma vez para um acontecimento ou para uma determinação estrutural
IIlterior à própria família? Não indicará isso que o problema deve ser posto de
nutro modo. algures fora da família, como o esquizo o põe? Será que «os nomes
d,L história» são derivados do nome do pai, e que as raças, as culturas, os continen-
LC';sao substitutos do papá-mamã. dependências da genealogia edipiana? Será
que o significante da história é o pai morto? Consideremos uma vez ~ais o delírio
do presidente Schreber. É evidente que ele utiliza as raças, a mobilização ou a
110çaode história de uma maneira totalmente diferente da dos autores que invo-
l,'iIllOS. Acontece que as Memórias de Schreber