DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.445 materiais35.651 seguidores
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sair da
roda dos nascimentos, sem boca para mamar, sem ânus para cagar. Estarão as
máquinas suficientemente avariadas para se entregarem e nos entregarem ao nada?
Dir-se-ia que os fluxos estão ainda demasiado ligados, que os objectos parciais são
ainda demasiado orgânicos. Mas um puro fluido em estado livre e sem cortes, \\;"
deslizando sobre um corpo pleno. AB máquinas desejantes fazem de nós um orga- .
nismo; mas no seio desta produção, na sua prôpria produção, O corpo sofre por
estar assim organizado, por não ter outra organização ou organização nenhuma.
«Uma paragem incompreensível» a meio do processo, como terceiro tempo: «Sem
boca. Sem lingua. Sem dentes. Sem laringe. Sem esójàgo. Sem estômago. Sem ventre.
Sem ânus.» Os autómatos param e deixam que a massa inorgânica que articulam
apareça. O corpo pleno sem órgãos é o improdutivo, o estéril, o inengendrado, o
inconsumivel. Antonin Artaud descobriu-o, precisamente onde ele se encontra-
va, sem forma nem figura. Instinto de morte é o seu nome, e a morte não existe ) ~'
sem modelo. Porque o desejo também deseja a mone, potque O COtpO pleno da
morte ê o seu motor imóvel, tal como deseja a vida. porque os órgãos da vida são
a working machine. Não perguntaremos como é que isto func~ona em conjunto:
esta questão é já produto de uma abstracção. As máquinas desejantes só funcio~
nam avariadas, avariando-se constantemente. O presidente Schreber «viveu du-
rante muito tempo sem estômago, sem intestinos, quase sem pulmões, com o
esófago desfeito, sem bexiga. com as costelas esmagadas; comeu, por vezes, partes
da sua própria laringe, e por aí adiante». O corpo sem órgãos é o improdutivo; no
entanto, é produzido no lugar próprio, a seu tempo, na sua síntese conectiva,
como a identidade do produzir e do produto (a mesa esquizofrénica ê um corpo
14 o ANTI-ÉDIPO AS MÁQUINAS DESEJANTES 15
sem órgãos). O corpo sem órgãos não é o testemunho de um nada originaL nem
o resto de uma totalidade perdida. Mas sobretudo o que ele não é, de modo
algum, é uma projecção: não tem nada a ver com O corpo de cada um nem com
uma imagem do corpo. É o corpo sem imagem. Ele, o improdutivo, existe onde é
produzido, precisamente no terceiro tempo da série binário-linear. É perpetua-
mente re-injectado na produção. O corpo caratónico é produzido na água do
banho. O corpo pleno sem órgãos é anti-produção; mas é ainda uma característi-
ca da síntese conectiva ou produtiva ligar a produção à anti-produção. a um ele-
mento de anei-produção.
Entre as máquinas desejantes e o corpo sem órgãos surge um conflito apa-
rente. Todas as conexões das máquinas, todas as produções de máquina, todos os
barulhos de máquina se tornam insuportáveis ao corpo sem órgãos. Debaixo dos
órgãos sente larvas e vermes repugnantes, e a acção de um Deus que o aldraba e
sufoca, organizando-o. «o corpo é o corpo l está só I e não precisa de órgãos I o
corpo nunca é um organismo I os organismos são os inimigos do corpo)~9.Tantos
pregos na sua carne quantos os suplícios. As máquinas-órgãos, o corpo sem ór-
gãos opõe a sua superf.ície deslizante, opaca e tensa. Aos fluxos ligados, unidos e
re-cortados, opõe o seu fluido amorfo indiferenciado. Às palavras fonéticas, opõe
sopros e gritos que são outros tantos blocos inarticulados. Pensamos que é este o
sentido do recalcamento dito originário: não um «contra-investimento», mas esta
repulsão das máquinas desejanres pelo corpo sem órgãos. E é mesmo isto o que a
máquina paranóica significa, a acção violenta das máquinas desejantes sobre o
corpo sem órgãos e a reacção repulsiva do corpo sem órgãos que as sente global-
mente como um aparelho de perseguição. Assim, não podemos seguirTausk quan-
do ele vê na máquina paranóica uma simples projecção do «(próprio corpo» e dos
órgãos genitais 10. A gênese da máquina dá-se precisamente aqui, na oposição do
processo de produção das máquinas desejantes com o estado improdutivo do
corpo sem órgãos, como o testemunham o carácter anón1Ino da máquina e a
9 Artaud, in 84, n'" 5-6, 1948.
](l Victor Tausk, "De la genese ele l'appareil à inflllencer au COllrs de la schimphrenie)l 1919, tradução
francesa in La Ps)'chanaLyse, n.O 4.
indiferenciação da sua superfície. A projeccão só intervém secundariamente, as-
sim como o contra-investimento na medida em que o corpo sem órgãos investe
um contra-interior ou um contra-exterior, sob a forma de um órgão perseguidor
ou de um agente exterior de perseguição. Mas a máquina paranóica é, em si, uma
transformação das máquinas desejantes: resulta da relação das máquinas desejantes
com o corpo sem órgãos, na medida em que este já não as pode suportar.
Mas se quisermos ter uma ideia das forças ulteriores do corpo sem órgãos no
processo não interrompido, devemos passar por um paralelo entre a produção
desejante e a produção social. Tal paralelo é apenas fenomenológico; não conside-
ra nem a natureza nem a relação entre as duas produções, nem sequer a questão
de saber se existem, efectivamente, duas produções. Simplesmente, também as
formas de produção social implicam um estado improdutivo inengendrado, um
elemento de anti-produção em ligação com o processo, um corpo pleno determi-
nado como socius. Que pode ser o corpo da terra, ou o corpo despótico ou, então,
o capital. Foi dele que Marx disse: não é o produto do trabalho, mas aparece
como o seu pressuposto natural ou divino. Ele não se contenta, com efeito, enl se
opor às forças produtivas em si mesmas. Rebate-se sobre toda a produção, consti-
tui uma superfície onde se distribuem as forças e os agentes de produção, de
modo que se apropria do sobreproduto e se atribui a si próprio o conjunto e as
partes do processo, que parecem então emanar dele como de uma quase-causa.
Forças e agentes tornam-se o seu poder, sob unIa forma miraculosa, parecem
miracufados por ele. Em suma, o socius como corpo pleno forma unIa superfície
onde toda a produção se regista e parece emanar da superfície de registo. A socie-
dade constrói o seu próprio delírio ao registar o processo de produção mas não é
um delírio da consciência, ou antes, a falsa consciência é a consciência verdadeira
de um falso movimento, percepção verdadeira de um movimento objectivo apa-
rente, percepção verdadeira do movimento que se produz na s~perf.ície de registo.
O capital é, de facto, o corpo sem órgãos do capitalista, ou antes, do ser capitalis-
ta. Enquanto tal, o capital é não só a substância fluida e petrificada do dinheiro,
mas vai também dar à esterilidade do dinheiro a forma com que este produz
dinheiro. Produz a mais-valia, como o corpo sem órgãos se reproduz a si próprio,
germina e estende-se até aos confins do universo. Encarrega a máquina de fabri-
car uma mais-valia relativa, ao mesmo tempo que se encarna nela como capital
fixo. E é no capital que se engatam as máquinas e os agentes, de modo que até o
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seu funcionamento é miraculado por ele. Tudo parece (objectivamente) produzi-
do pelo capital enquanto quase-causa. Como diz Marx, no princípio os capitalis-
tas têm necessariamente consciência da oposição do trabalho e do capitaL e do
uso do capital como meio de extorquir sobre-trabalho. Mas depressa se instaura
um mundo perverso enfeitiçado, enquanto que o capital tem o papel de superfí-
cie de registo que se rebate sobre roda a produção (fornecer mais-valia, ou realizá-
-Ia, é isso o direito de registo). «À medida que a m~is-valia relativa se desenvolve
no sistema especificamente capitalista e que a produtividade social do trabalho
cresce, as forças produtivas e as conexões sociais do trabalho parecem separar-se
do processo produtivo e passar do trabalho ao capital. O capital torna-se assim
num ser bastante misterioso, porque todas as forças produrivas parecem nascer no
seu seio e pertencer-lhe» 11. E o que é aqui especificamente capitalista