DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.445 materiais35.651 seguidores
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são percorridas duma ponta a
(lll(ra por uma teoria dos povos eleitos por Deus e dos perigos que o povo acrual-
Illcnte eleito, o Alemão, corre ameaçado pelos judeus, pelos católicos, pelos eslavos.
r\,IS suas metamorfoses e passagens intensas Schreber torna-se aluno dos jesuítas,
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burgomestre de uma cidade onde os Alemães combatem contra os Eslavos, a ra-
parigaque defende a Alsácia contra os Franceses; por fim, atravessa o gradiante ou
o limiar ariano para se tornar um príncipe mongol. O que significa esta transfor-
mação em aluno, burgomestre, rapariga, mongol? Não há nenhum delírio para-
nóico que não remexa em massas históricas, geográficas e raciais. O erro seria
concluir daqui que, por exemplo, 0$ fascistas são simples paranóicos; e seria pre-
cisamente um erro .porque no estado aetual das coisas seria remeter o conteúdo
histórico e político do delírio para uma determinação familiar interna. E o que
nos parece ainda mais perturbante é que todo este enorme conteúdo desapareça
completamente na análise que Freud fez: de tudo isto nem um vestígio fica; é
tudo esmagado, triangulado no Édipo, submetido ao pai, revelando friamente as
insuficiências da psicanálise edipiana.
Consideremos ainda outrO delírio paranóico particularmente rico em carac-
terísticas políticas, que Maud Mannoni nos refere. Este exemplo é para nós uma
grande surpresa, até porque temos uma grande admiração por Maud Mannoni e
pelo modo como sabe pôr os problemas institucionais e anti-psiquiátricos. É o
caso de um homem da Martinica que se situa no seu delírio em relação aos árabes
e à guerra da Argélia, em relação aos brancos e aos acontecimentos de Maio, etc.:
«Foi por causa do problema argelino que adoeci. Tinha feito a mesma asneira que
eles (prazer sexual). Adoptaram-me então como irmão de raça. Tenho sangue
mongol. Os argelinos contrariaram-me sempre em todas as realizações. Tive
ideias racistas ... Descendo da dinastia dos Gauleses, por isso sou nobre ... Deter-
minem o meu nome, determinem cientificamente o meu nome e poderei ter um
harém.» Ora, embora reconhecendo o carácter de «revolta» e de «verdade para
todos» que a psicose implica, MaudMannoni pretende que a destruição das rela-
ções familiares que passam a ser substituídas por temas que o próprio sujeito
confessa serem racistas, políticos e metafísicos, se originou no interior da estrutu-
ra familiar, considerada como matriz. A origem estaria, pois, no vazio simbólico
ou «na forclusão inicial do significante do pai)}. E sendo assim, o nome a determi-
nar cientificamente, o nome que aparece na história, é pura e simplesmente o
nome do pai! Tanto neste como noutros casos a utilização do conceito lacaniano
de forclusão leva à edipianização forçada do rebelde: a ausência de Édipo é inter-
pretada como uma jà!ta ligada ao pai, como um buraco na estrutura; em seguida,
e em nome dessa falta, é-se remetido para o outro pólo edipiano, o das identifica-
ç6es imaginárias no seio do indiferenciado materno. A lei do doubie bind funcio-
na implacavelmente, remete-nos de um pólo para o outro, porque o que é foreluído
(farelos) tem de reaparecer no real, sob uma forma alucinatória. Mas assim, é todo
o tema histórico-político que é interpretado como um conjunto de identificações ima-
gindrias dependentes do Édipo ou do que «falta)} ao sujeito para se deixar
~dipianizar33. É claro que a questão não é de saber se as determinações ou
IIldeterminações familiares desempenham ou não um papel. É evidente que de-
sempenham. Mas esse papel será um papel inicial de organizador (ou desor-
ganizador) simbólico, de que os conteúdos flutuantes do delírio histórico deriva-
riam como estilhaços de um espelho imaginário? Será o vazio do pai, e o desen-
volvimento canceroso da mãe e da irmã que constituirão a fórmula trinitária do
l'squizo que o submete à força ao Édipo? E todavia, como já vimos, se há proble-
ma que não se ponha na esquizofrenia, é o das identificações ... E se curar é
cdipianizar, então compreendemos os sobressaltos do doente que «não se quer
curar» e trata o analista como um aliado da família, e logo a seguir da polícia.
() esquizofrénico estará doente separado da realidade, porque lhe falta o Édipo,
porque lhe «falta}}qualquer coisa do Édipo - ou, pelo contrário, por causa da
t'Jipianização que ele não pode suportar e que todos lhe pretendem aplicar
(a repressão social antes da psicanálise)?
O ovo esquizofrénico é como o ovo biológico: têm uma história semelhante,
l.' para se chegar até ao seu conhecimento correcto encontraram-se as mesmas
ditlculdades e ilusões. Acreditou-se inicialmente que, no que diz respeito ao de-
\envolvimento e diferenciação do ovo, o destino das partes do ovo seria determi-
nado por verdadeiros «organizadores)}. Mas, verificou-se depois que, por um lado,
lodas as espécies de substâncias variáveis tinham a mesma acção que o estímulo
considerado, e que, por outro, as próprias partes tinham competências ou
potencialidades específicas que escapavam ao estímulo (experiênc!a dos enxer-
n Maud Mannoni, Le prJ'chidtre, um fim et ia ps}Chanalj'u, Ed. du Seui!, 1970. pp. J 04~I07: .As perso-
Illgens edipianas estão no seu lugar, mas no jogo de permutaçóes que se efectua há como que um lugar vazio ...
\) ljtle aparece rejeitado é tudo quanto diga respeito ao phallus e ao pai ... Todas as vezes que Georges tema
'-II(:lrar~se como desejame é remetido para uma forma de dissolução de idcnridades . .f um outro toulmente
,lltercnte, cativado pela imagem da mãe ... Fica imobilizado numa espécie de posição imaginária na qual é
'.ltivado pela imago maternal é daí que se situa no triângulo cdipiano -, o que implica um processo de
I<klltiflcaçao impossível, implicando sempre, à maneira de uma pura dialécrica imaginária, a destruição de um
<lU do outrO dos elementos».
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tos). Surgiu, portanto, a ideia de que os estímulos não eram organizadores mas
simplesmente inclutores: e, em última análise, inclutores de uma natureza qual-
quer. Qualquer tipo de substância, de material, mono, cozido, triturado, tem o
mesmo efeito. Os começosclo desenvolvimento é que provocaram o erro: a simpli-
cidade do começo, divisões celulares por exemplo, podia fazer crer que havia uma
espécie de adequação entre o induzido e o indutor. Mas sabemos que se julga
sempre mal uma coisa quando ela é julgada a partir dos seus começos, porque
para poder aparecer, é forçada a imitar estados estruturais, a introduzir-se em
estados de forças que lhe servem de máscaras. E mais: devemos reconhecer que,
desde o começo, ela utiliza esses estados doutra maneira e que investe, sob a másca-
ra, através da máscara, as formas terminais e os estados superiores específicos que
depois há-de ter. E é esta a histótia do Édipo: as figuras parentais não são
organizadores, mas indutores ou estimulas de um valor qualquer que desencadei-
am processos de uma natureza muito diferente, dotados de uma espécie de indife-
rença para com o estímulo. E não há dúvida que se pode crer que no começo(?) o
estímulo, o indutor edipiano, é um verdadeiro organizador. Mas acreditar é uma
operação da consciência ou do pré-consciente, uma percepção extrínseca e nunca
uma operação do inconsciente sobre si mesmo. Porque o que aparece desde o
começo da vida da criança é já uma outra força que atravessa a máscara do Édipo,
um outro fluxo que se escapa auavés de todas as suas fendas, uma outra aventura
que é a da produção desejante. E não podemos dizer que a psicanálise não o tenha
reconhecido. Na sua teoria do fantasma originário, das marcas de uma hereditari-
edade arcaica e das fontes endógenas do super-ego, Freud afirma constantemente
que os factores activos não são os pais reais, nem mesmo os pais tal como a criança
os imagina. O mesmo acontece,