DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.445 materiais35.641 seguidores
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rodo o momento o perigo de ser rebatida sobre o quadro de um Édipo
(',>trutural, a que se diagnostica uma lacuna e se restaura a integridade, santíssima
I ríndade que continua a estrangular a produção desejante e a abafar os seus pro-
hlemas. O conteúdo político e cultural, histórico-mundial e racial, continua a ser
nmagado pelo torniquete edipiano. É que se teima em tratar a família como uma
matriz, ou melhor, como um microcosmo, como um meio expressivo que vale por
'>1mesmo, e que, por muito bem que exprima a accão das forças alienantes,
,'mediatiza))-as precisamente porque suprime, nas máquinas desejantes, as verda-
\u2022.leiras categorias de produção. Parece-nos que Cooper ainda conserva um ponm
(lc vista semelhante (Laing liberta-se mais do familiarismo, graças ao~ recursos de
IIIll fluxo vindo do Oriente). «As famílias», escreve Cooper, «operam uma medi-
,1\J.O entre a realidade social e as suas crianças. Se a realidade social em questão é
11(.1 em formas sociais alienadas, essa alienação será mediatizada pela criança e por
cLt experimentada como algo de estranho às relações familiares ... Pode haver uma
llc ..\u2022soa que diga, por exemplo, que o seu espírito é controlado por uma máquina
,ketrica ou por homens de um outro planeta. No entanto, estas construções são
1'111 larga medida incarnações do processo familiar, que aparenta ser a realidade
100 o ANTI·ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMÍLIA 101
substancial, mas que é apenas a forma alienada da acção ou da praxis dos mem-
bros da família, pra.xis essa que domina literalmente o espírito do membro psicótico.
Esses homens metafóricos do cosmos são literalmente a mãe, o pai e os irmãos que se
sentam ao lado do suposto psicótico, à mesa ao pequeno-almoço»36. Até a tese
essencial da anti-psiquiatria que em última análise estabelece uma identidade de
natureza entre a alienação social e a alienação mental, deve ser compreendida em
função do familiarismo e não da sua refutação. Porque é na medida em que a
família-microcosmo, a família-gradímetro, exprime a alienação social, é que se
pensa que ela {(organiza)) a alienação mental no espírito dos seus membros, ou do
seu membro psicótico (e dentre os seus membros, <,qual é que é o bom»?).
Bergson fez na concepção geral das relações microcosmo - macrocosmo uma
revolução discreta e que se torna necessário retomar. A assimilação do ser vivo a um
microcosmo - macrocosmo é lugar comum desde a antiguidade. Mas se o ser vivo
era semelhante ao mundo, dizia-se, era por ser ou tendia a ser um sistema isolado,
naturalmente fechado: a com paração do microcosmo com o macrocosmo era, pois,
a comparação de duas figuras fechadas, uma das quais exprimia a outra e nela se
inscrevia. No início de L'Evolution créatriceJ Bergson modifica completamente o
alcance da comparação, porque abre os dois todos. Se o ser vivo se assemelha ao
mundo, é na medida em que, pelo contrário, se abre à abertura do mundo; seé um
todo, é na medida em que o todo, o do mundo e o do ser vivo, está sempre a fazer-
-se, a produzir-se ou a progredir, a inscrever-se numa dimensão temporal irredutível
e aberta. Cremos que com a relação família-sociedade se passa o mesmo. Não exis-
te triângulo edipiano: o Édipo está sempre aberto num campo social aberto. Édipo
aberto a todos os ventos, aos quatro cantos do campo social (nem sequer 3 + 1, mas
4 + n). Triângulo mal fechado, poroso, rriângulo esrilhaçado donde escapam os
fluxos do desejo em direcção a outros sítios. Écurioso verificar que tenha sido pre-
ciso esperar pelos sonhos dos colonizados para nos apercebermos de que, nos vér-
tices do pseudo-triângulo, o que havia era a mãe a dançar com o missionário o pai
a ser enrabado pelo cobrador de impostos, o eu a ser castigado pelo Branco. É pre-
cisamente este acasalamento das figuras familiares com agentes doutra natureza, o
seu abraço de lutadores, que impede que o rriângulo se feche, que valha por si
mesmo e pretenda exprimir ou representar essa outra natureza dos agentes que o
.16 David Coopero Psychiatrie et antipsychiatrie, 1967, tradução francesa Ed. du Seuil, p. 64.
próprio inconsciente põe em questão. Fanon, ao tratar de um caso de psicose de
perseguição ligado à morte da mãe, começa por pensar que está «em presença de
um complexo de culpa inconsciente como o que é descrito por Freud em Deuil et
mélancolie~); mas logo descobre que a mãe foi morta por um soldado francês, e que
o sujeito em questão assassinou a mulher de um colono, cujo fantasma esventrado
;lrrasta para todo o sempre, avivando-lhe a recordação da mãe37\u2022 Pode-se sempre
dizer que estas situações-limite de traumatismos de guerra, de estados provocados
pela colonização, de extrema miséria social, etc., são pouco propícios à construção
do Édipo - e é precisamente por isso que favorecem um desenvolvimento ou
explosão psicóticos-, mas apercebêmo-nos de que o problema não é este. Porque,
além de se confessar que é necessário um certo conforto da família burguesa para
produzir sujeitos edipianizados, adia-se cada vez mais a questão de se saber o que é
realmente investido nas confortáveis condições de um Édipo supostamente normal
ou normativo.
O revolucionário é o primeiro a ter o direito de dizer: O Édipo? Sei lá o que
é isso! - porque os seus fragmentos disjuntos estão colados a todos os cantos do
campo social histórico, como campo de batalha e não palco de teatro burguês. E
Unto pior se os psicanalistas se puserem a berrar. Mas Fanon observa que os
períodos conturbados têm repercussão não só nos militantes activos, como tam-
bém nos neutros e naqueles que pretendiam ficar de fora, que não se querem
meter em política. E nós diremos o mesmo dos períodos aparentemente calmos:
é um erro groresco acreditar que a criança só conhece papá-mamã e que não sabe,
&quot;à sua maneira», que o pai tem um patrão que não é o pai do pai, ou ainda que ele
próprio é um patrão que não é pai ... De modo que estabelecemos a seguinte regra
para todos os casos sem excepção: o pai e a mãe só existem aos bocados, nunca se
organizando numa figura nem numa estrutura, simultaneamente capazes de re-
presentar o inconsciente e de representar nele os diversos agentes ~a colectivida-
de, porque se estilhaçam sempre em bocados, lado a lado com esses agentes, se
digladiam, opõem ou se conciliam com eles num corpo a corpo. O pai, a mãe e o
cu estão em conflito e em contacto directO com os elementos da situação histórica
e política, com o soldado, o chui, o invasor, o colaboracionista, o contestatário ou
com o resistente, com o patrão, a mulher do patrão, que a todo o momento
.'7 Frann Fanon, Les Damnés de la terre, Maspero, 1961, p. 199.
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impedem que as triangulações se façam e que o conjunto da situação se rebata
sobre o complexo familiar e se interiorize nele. Em suma, a família nunca é um
microcosmo no sentido de ser uma figura aurónoma, ainda que inscrita num
círculo mais vasto que ela mediatizaria e exprimiria. A família está, por natureza,
excentrada, descentrada. Ouvimos falar de família fusional, eisional, tubular,
forcluinte. Mas donde é que vêm os cones e a distribuição de cortes, que precisa-
mente impedem a famnia de ser um (~interior»? Há sempre um tio da América,
um irmão falhado, uma tia que fugiu com um militar, um primo desempregado,
falido ou arruinado, um avô anarquista, uma avó louca ou caquética internada
num hospital. A família não produz os seus próprios cortes: as famílias são corta-
das por cortes que não são familiares: a Comuna, o caso Dreyfus, a religião e o
ateísmo, a guerra de Espanha, a escalada do fascismo, o estalinismo, a guerra do
Vietname, Maio de 68 ... tudo isto forma os complexos do inconsciente, muito
mais eficazes que o eterno Édipo. E é mesmo do inconsiente que se trata. Se há
estruturas, não é no espírito que elas estão à