DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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sombra de um phallus fantástico que
distribuiria as suas lacunas, passagens e articulações. Existem, isso sim, no real
imediato impossível. Como diz Gombrowicz, os estruturalistas «procuram as es-
truturas na cultura e eu procuro-as na realidade imediata. O meu modo de ver
estava em relação directa com os acontecimentos de então: hitlerianismo,
estalinismo, fascismo ... Estava fascinado pelas formas grotescas e terrih.cantes
que iam surgindo na esfera do inter-humano e destruindo tudo o que até então
era veneráveh38\u2022
Os helenistas lembram com razão que, mesmo no Édipo venerável, era já de
'(política» que se tratava. Simplesmente, enganam-se quando concluem que, sen-
do assim, a líbido não é para aí chamada. O que acontece é precisamente o con-
trário: o que a líbido investe através dos elementos disjuntivos do Édipo, e preci-
samente na medida em que esses elementos nunca formam uma estrutura mental
autónoma expressiva, são os cortes extra-familiares, sub-familiares, essasformas de
produção social que se relacionam com a produção desejante. E portanto, a esquizo-
-análise não esconde ser uma psicanálise política e social, uma análise militante:
não porque generalize o Édipo à cultura, como ridiculamente se tem feito, mas
porque, bem pelo contrário, se propõe mostrar a existência de um investimento
3S Witold Gombrowicz, L'Herne, n.o 14, p. 230.
libidinal inconsciente da produção social-histórica, distinto dos investimentos
conscientes que com ele coexistem. Proust não se enganava quando dizia que,
longe de fazer uma obra intimista, ia mais longe que os defensores de uma arte
populista ou proletária que se limitava a descrever o social e o político em obras
«voluntariamente» expressivas. Porque Prousr se interessa pelo modo como, pri-
meiro o caso Dreyfus, depois a guerra de 14, re-cortaram as famílias, nelas intro-
duziram novos cortes e novas conexões que implicam uma organização diferente
da líbido heterossexual e homossexual (por exemplo, no meio em decomposição
que é O dos Guermantes). A líbido investe sob formas inconscientes o campo
social e assim alucina toda a história, e delira as civilizações, os continentes e as
raças, «sentindo)) intensamente um devir mundial. Não há cadeia significante
..\u2022em um Chinês, um Árabe, um Negro a passar pela cabeça, a perturbar a noite de
um Branco paranóico. A esquizo-análise propõe-se desfazer o inconsciente ex-
pressivo edipiano, sempre artificial, repressivo e reprimido, mediatizado pela fa-
mília, para conseguir atingir o inconsciente produtivo imediato. Sim, a família é
um estímulo - mas um estímulo sem valor especial, um indutor que não é
organizador nem desorganizador. Quanto à resposta, nunca é ela que a dá. E se há
uma linguagem, é sempre na resposta, não no estímulo. Até a psicanálise edipiana
reconhece a indiferença das imagens parenrais efectivas, a irredutibilidade da res-
posta à sua estimulação. Mas ela limitou-se a compreender a resposta a partir de
um simbolismo expressivo ainda familiar em vez de a interpretar num sistema
Inconsciente de produção enquanto tal (economia analítica).
O grande argumento do familiarismo é ,(Pelo menos ao princípio ... » Este ar-
gumento, umas vezes formulado explicitamente, também se encontra, embora
implicitamente, nas teorias que, apesar disso, recusam o ponto de vista da génese.
Pelo menos ao princípio, o inconsciente exprimir-se-ia num estado de relações e
constelações familiares onde o real, o imaginário e o simbólico estaeiam mistura-
dos. As relações sociais e metafísicas surgiriam após, como um além. E como um
princípio nunca vem sozinho (e é esta mesmo a condição para não sair dele), invo-
ca-se primeiro um princípio pré-edipiano, «a indiferenciação primitiva das etapas
mais precoces da personalidade,~ na relação com a mãe, e depois um segundo prin-
cípio que é o próprio Édipo com a lei do pai e as diferenciações exclusivas que ela
prescreve no seio da família- e por fim, a latência, a famosa latência depois do que
começa o além. Mas como esse além consiste em fazer que outros percorram o
mesmo caminho (as futuras crianças) e também porque o primeiro princípio só é
designado por (pré-edipiano)} para marcar a sua pertença ao Édipo como eixo de
referência, é evidente que se fecharam as duas pontas do Édipo e que o além ou o
após serão sempre inrerprerados em função do Édipo, em relação com o Édipo e
no quadro do Édipo. Rebater-se-á tudo sobre ele, como o testemunham as discus-
sões sobre o papel comparado dos faetares infantis e dos faetares actuais na neuro-
se: e como poderia ser doutra maneira se o facto r «aetuaL>é concebido sob a forma
de um após? Mas na verdade nós sabemos que os Eaetares actuais existem desde o
nascimento e que determinam os investimentos lihidinais em função dos cortes e
das conexões que introduzem na família. Por cima ou por baixo da cabeça dos fa-
miliares a produção desejante e a produção social vivem na experiência infantil a
sua identidade de natureza e a sua diferença de regime. Considerem-se três gran-
des livros sobre a infância: L'Enjàntde Jules Vallios, Bas les coeurs de Darien e Mort
à créditde Céline. São uma boa prova de que o pão, o dinheiro, o habirar, a pro-
moção social, os valores burgueses e os valores revolucionários, a riqueza e a po-
breza, a opressão e a revolta, as classes sociais, os acontecimentos políticos, os pro-
blemas metafísicos e colectivos, o que é respirar? porque é que se é pobre? porque
é que há ricos? - são objecto de investimentos nos quais os pais apenas desempe-
nham um papel de agentes de produção ou de antiprodução particulares, sempre
agarrados a outros agentes que eles não exprimem, pois que lutam com eles no céu
e no inferno da criança. E a criança pergunta: porquê? O Homem dos Ratos não
esperou por ser grande para investir a mulher rica e a mulher pobre que constitu-
em o factor actual da sua obsessão. É por razões inconfessáveis que se lhe nega a
existência de uma sexualidade infantil, mas é também por razões pouco confessáveis
que se reduz essa sexualidade ao desejo da mãe e ao querer ocupar ° lugar do pai. A
chantagem freudiana consiste no seguinte: ou reconhecem o carácter edipiano da
sexualidade infanril, ou são forçados a abandonar a afirmação de sexualidade. To-
davia, não é à sombra de um phallus transcendente que os efeitos inconscientes de
«significado) se colocam sobre o conjunto das determinações de um campo social;
mas é, pelo contrário, o investimento libidinal dessas determinações que fixa a sua
utilização particular na produção desejante, e o regime comparado desta produ-
ção e da produção social, donde derivam o estado do desejo e a sua repressão, a
distribuição dos agentes e o grau de edipianização da sexualidade. Lacan tem ra-
zão em dizer que existe, em função das crises e dos cortes da ciência, um drama
104 o Al\TI-ÉDIPO PSICANALISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMÍLIA 105
específico do sábio que por vezes o leva à loucura, e que <<nestecaso ele não se po-
deria incluir a si mesmo no Édipo sem o pôr em causaw')9. Neste sentido cada
criança é um pequeno sábio, um pequeno Cantor. E por muito que se recue no
tempo nunca se encontrará uma criança presa a uma ordem familiar autónoma,
expressiva ou significante. Até o bebé nos seus jogos e papas, nas suas cadeias e
meditações se encontra já preso a uma produção desejante actual, em que os pais
têm o papel de objectos parciais, de testemunhas, de relatores e agentes no decor-
ref de um processo que os transcende totalmente e que estabelece uma relação
imediata entre o desejo e uma realidade histórica e social. É verdade que nada é
pré-edipiano e que é necessário fazer o Édipo recuar até ao princípio, mas até ao
princípio de uma repressão do inconsciente. E não é menos verdade que na ordem
da produção tudo é a-edipiano; que o não-edipiano, o a-edipiano começam tão
cedo como o Édipo e se