DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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e falsificada do recalcado à qual se supõe que o
desejo se deixa prender. E o Édipo é precisamente isto, a imagem falsificada. Não
é nele que o recaIcamento se realiza, nenl é sobre ele que o recalcamento se abate.
Nem sequer é um retorno do recalcado. É um produto fanício do recalcamento.
É apenas o representado enquanto induzido pelo recalcamento. Este não pode
agir sem deslocar o desejo, sem cair num desejo de consequência, pronto para a
punição, pondo-o no lugar do desejo antecedente sobre o qual ele se abate, como
princípio ou na realidade ("ah, afinal era isso!>,). Lawrence, que não combateu
Freud em nome dos direitos do Ideal, mas que falou em nome dos fluxos da
sexualidade, das intensidades do inconsciente, e que se ennisteceu e assustou com
o que Freud se preparava para fazer ao encerrar a sexualidade num infantário
edipiano, pressentiu esta operação de deslocamento e protestou violentamente:
não, o Édipo nao é um estado do desejo e das pulsões, é uma ideia, apenas uma
ideia relativa ao desejo que o recalcamento nos inspira; nem sequer é um compro-
misso, não passa de uma ideia ao serviço do recalcamento, da sua projecção ou
propagação. «(Omóbil incestuoso é uma dedução lógica da razão humana, o últi-
mo recurso que ela tem para se salvar a si própria ... É em primeiro lugar e sobre-
tudo, uma dedução lógica da razão, ainda que efectuada inconscientemente, e
que posteriormente é introduzida na esfera passional, onde se torna um princípio
de acção ... Isto não tem nada a ver com o inconsciente activo que cintila, vibra,
viaja ... O inconsciente não contém nada de ideal que dependa, no que quer que
seja, de um conceito, nem, portanto, nada de pessoal, pois que a forma das pesso-
as, assim como o ego, pertence ao eu consciente ou mentalmente subjecrivo. De
lnodo que as primeiras análises são ou deviam ser impessoais, já que as chamadas
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rl'laçõeshumanas não estão em jogo. O que a psicanálise não conseguiu compreen-
der é que o primeiro contacto não é nem pessoal nem biológico)} 48.
Os desejos edipianos não são de maneira alguma recalcados, nem têm que o
\er, Relacionam-se todavia, inrimanlente, com o recalcamento, mas de outro modo:
'1JO o engodo, a imagem desfigurada com que o recalcamento consegue armar
uma cilada ao desejo. Se o desejo é recalcado, não é por ser o desejo da mãe e da
morte do pai; pelo contrário, só se torna nisso porque é recalcado e só aparece
com essa máscara quando é modelado pelo recalcamento. Pode-se, de resto, duvi-
dar que o incesto seja um verdadeiro obstáculo à instauração da sociedade, como
dizem os partidários de uma concepção de sociedade baseada na troca. Vê-se cada
coisa ... O verdadeiro perigo não é este. Se o desejo é recalcado é porque qualquer
posição de desejo, por mais pequena que seja, pode pôr em questão a ordem
l'stabelecida de uma sociedade, o que não quer dizer que o desejo seja a-social,
muito pelo contrário. Mas isto é perturbante: qualquer máquina desejante pode
Ll'zersaltar sectores sociais inteiros. Apesar do que pensam certos revolucionários
() desejo é, na sua essênda, revolucionário - o desejo, não a festa! - e nenhuma
\ociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que as suas estru-
Iuras de exploração, de sujeição e de hierarquia fiquem comprometidas. Se uma
<,ociedade se confunde com as suas estruturas (hipótese divertida), então sim, o
desejo ameaça-a essencialmente. Portanto, é de uma importância vi,tal para uma
,>ociedade reprimir o desejo, e mesnlO achar algo de melhor que a repressão, para
que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas. De
rKto, é lastimável ter de dizer coisas tão elementares: o desejo não ameaça a socie-
dade por ser desejo de dormir com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto quer
dizer, não que o desejo seja diferente da sexualidade, mas que a sexualidade e o
,lInor não dormem no quarto do Édipo, que sonham com outras larguezas e fa-
lem passar estranhos fluxos que não se deixam armazenar numa orde~ estabelecida.
() desejo não «quer» a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que
Illvoluntariamente, só por querer aquilo que quer. Defendemos desde o começo
.I(&quot;steestudo a identidade de natureza da produção social e da produção desejame
&quot; ;\ sua diferença de regimes, de modo que a forma social de produção exerce uma
48 D.H. Lawrence, &quot;Psychanalyse et inconscient&quot;, 1920, [radução francesa (modificada) in Homme
1:,/ll)rd, coleccão 10/18. pr. 219-256,
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repressão essencial sobre a produção desejante, e a produção desejante (um «ver-
dadeiro» desejo) pode porencialmente fazer a forma social ir pelos ares. Mas o que
é um «verdadeiro» desejo, já que até a própria repressão pode ser desejada? Como
é que os havemos de distinguir? - reclamamos o direito a fazer uma análise
lentíssima. Porque, não nos enganemos, até nas suas utilizações opostas as sínteses
são as mesmas.
Compreende-se perfeitamente o que é que a psicanálise quer com uma
pretensa ligação, em que o Édipo seria o objecto do recalcamenro, e até o seu
sujeito por intermédio do super-ego. O que ela pretende é justificar culturalmen-
te o recalcamento, fazendo-o passar para primeiro plano e considerando que o
problema da repressão em relação ao inconsciente é apenas secundário. Foi por
causa disto que os críticos pretenderam determinar uma viragem conservadora ou
reaccionária em Freud feita no momento em que ele atribui ao recalcamento um
valor aut6nomo como condição de cultura exercendo-se contra as pulsões inces-
tuosas: Reich diz mesmo que a grande viragem do freudismo, o abandono da
sexualidade, se deu quando Freud aceitou a ideia de uma angústia primeira que
desencadeia endogeneamente o recalcamento. Consideremos o artigo de 1908
sobre a {(moral sexual civilizada»: ainda não há referências ao Édipo, considera-se
o recalcamento em função da repressão, que suscita um deslocamento e se exerce
sobre as pulsões parciais, enquanto esta representam, à sua maneira, uma espécie
de produção desejante, antes de se exercerem contra as pulsões incestuosas ou
outras que ameacem o casamento legítimo. Mas depois é evidente que quanto
maior importância se atribuir ao problema do Édipo e do incesto, mais o
recalcamento e os seus correlatos, a supressão e a sublimação, serão fundamentais
para as supostas exigências transcendentes da civilização, e a psicanálise se há-de
embrenhar cada vez mais numa visão familiarista e ideológica. Não nos interessa
voltar a falar nos compromissos reaccionários do freudismo nem da sua «capitula-
ção teórica», trabalho esse que por mais de uma vez foi profunda e rigorosamente
feito49. Não vemos nada de especial na coexistência, no seio de uma mesma dou-
trina teórica e prática, de elementos revolucionários, reformistas e reaccionários.
4') Ver os dois textos clássicos de Reieh (La Fonction de l'orgasme, pp. 165-181) e de Marcuse (Eros et
civilisalion, traduçao francesa, Ed. Minuit. os primeiros capítulos). A questão foi recentemente retomada em
alguns excelentes artigos insertos em Partúans, 0.0 46, Fevereiro de 1969: François Gantheret, «Frelld et la
qllestion socio-poliriquc!>; )ean.Marie Brohm, «Psychanalyse et révolurion» (p. 85 e p. 97).
Recusamos o golpe do «é pegar ou largan), invocando o pretexto de que a teoria
lustifica a prática, já que é nesta que tem a sua origem, ou que não se pode contes-
tar o processo da «cura» senão a partir de elementos tirados dessa mesma cura.
(~omo se houvesse alguma grande doutrina que não fosse uma formação combina-
(!&quot;, feita de peças e de fragmentos, de diversos códigos e fluxos misrurados, de
p,uciais e derivadas, que são precisamente a vida ou o seu devir. Como se se
pudesse censurar alguém por ter uma relação ambígua