DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.445 materiais35.641 seguidores
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é o papel do
dinheiro e o uso do capital como corpo pleno para formar a superfície de inscri-
ção ou de registo. Mas um corpo pleno qualquer, corpo da terra ou do déspota,
uma superfície de registo, um movimento objectivo aparente, um mundo perver-
so enfeitiçado fetichista, pertencem a todos os tipos de sociedade como constante
da reprodução social.
O corpo sem órgãos rebate-se sobre a produção desejante, atrai-a, apropria-
-se dela. As máquinas-órgãos agarram-se a ele como a um colete de esgrima ou
como as medalhas ao ,(mail1ot» do lutador que, ao andar, as faz balançar. Uma
máquina de atracção sucede, pode assim suceder, à máquina repulsiva: uma má-
quina miraculante depois da máquina paranóica. Mas que quer dizer o "depois»?
As duas coexistem, e o humor negro encarrega-se não de resolver as contradiçóes,
mas de fazer que elas não existam, com que nunca tenham existido. O corpo sem
órgãos, o improdutivo, o inconsumível, serve de superfície para o regisro de qual-
quer processo de produção do desejo, de modo que as máquinas desejantes pare-
cem emanar dele no movimento objectivo aparente em que se relacionam com
ele. Os órgãos são regenerados, miraculados no corpo do presidente Schreber que
atrai os raios de Deus. Não há dúvida que a antiga máquina paranóica subsiste
nas vozes trocistas que procuram «desmiracular» os órgãos, e especialmente o
ânus do presidente. Mas o essencial é o estabelecimento de uma superfície encan-
II Marx, Lt Capital. 7, capo 25 (Pléiade rI, p. 1435). Cfr. Althusser, Lire le Capital, os comentários de
Balibar, tomo 11,pp. 213 segs., e de Machercy, tomo I, pp. 201 segs. (Maspero, 1965).
rada de inscrição ou de registo que se atribui a si própria todas as forças produti-
vas e os órgãos de produção, e que se concluz como quase causa comunicando~
-lhes o movimento aparente (o fetiche). Isto é tão verdadeiro como o facro do
esquizofrénico fazer economia política, e como o facto de a sexualidade ser urna
questão de economia.
Simplesmente, a produção não se regista da mesma maneira que se produz.
Ou melhor, não se reproduz no movimento objectivo aparente da mesma manei-
ra que se produzia no processo de constituição. É que passámos imperceptivel-
mente para o domínio da produção de registo, cuja lei não é a mesma que a da
produção de produção. A lei desta era a síntese conectiva ou ligação. Mas dir-se-
-ia que quando as conexões produtivas passam das máquinas ao corpo sem órgãos
(como do trabalho ao capital), elas são submeridas a uma nova lei que exprime
uma distribuição em relação ao elemento não produtivo enquanto «pressuposto
natural ou divino» (as disjunções do capital). fu máquinas engatam-se sobre o
corpo sem órgãos, como outros tantos pontos de disjunção entre os quais se tece
toda uma rede de novas sínteses que esquadriam a superfície. O «quer ... quer»
esquizofrénico transforma-se no «e depois»; quaisquer que sejam os dois órgãos
encarados, a maneira como estão engatados ao corpo sem órgãos deve ser tal que
todas as sínteses disjuntivas entre os dois conduzam ao mesmO sobre a superfície
deslizante. Enquanto o «ou então» pretende marcar escolhas decisivas entre ter-
mos não permutáveis (alternativa), o «quer» designa um sistema de permutações
possíveis entre as diferenças que conduzem sempre ao mesmo, deslocando-se,
deslizando. O mesmo se passa com a boca que fala e com os pés que andam: «Às
vezes acontecia-lhe parar sem dizer nada. Quer não tivesse nada a dizer, quer
tivesse alguma coisa a dizer e tivesse renunciado fazê-lo. Há outros casos princi-
pdis que se apresentam ao espírito. Comunicação contínua imediata com reco-
meço imediato. A mesma coisa com recomeço retardado. Co~unicação continua
retardada com recomeço imediato. A mesma coisa com recomeço retardado. Co-
municação descontínua imediata com recomeço imediato. A mesma coisa com
recomeço retardado. Comunicação descontínua retardada com recomeço imedi-
ato. A mesma coisa com recomeço retardado»12. É assim que o esquizofrénico,
possuidor do capital mais pobre e mais comovente, como as propriedades de
11 Beckett, "Asscz» in 7i:te,~mortes,Ed de Minuit, 1967, pp. 40-41.
18 o ANTI-ÉDIPO
/' t
AS MÁQUINAS DESEJANTES 19
Malone, escreve sobre o seu corpo as litanias das disjunções e constrói para si um
mundo de jogadas em que a mais pequena permuta tem que responder à nova
situação, ou ao indiscreto interpelante. A síntese disjuntiva de registo oculta, por-
tanto, as sínteses conectivas de produção. O processo COlllO processo de produção
prolonga-se num método como método de inscrição. Ou antes, se chamarmos
líbido ao «trabalho») conectivo da produção desejante, devemos dizer que uma
parte dessa energia se transforma em energia de inscrição disjuntiva (Numen).
Transformação energética. Mas porque chamar divina, ou Numen, à nova forma
de energia apesar de todos os equívocos levantados por um problema do incons-
ciente que só na aparência é religioso? O corpo sem órgãos não é Deus, antes pelo
contrário. Mas a energia que o percorre é divina, quando ele atrai a si toda a
produção e lhe serve de superfície encantada miraculante, inscrevendo-a em to-
das as suas disjunções. Donde as estranhas relações de Schreber com Deus. À
pergunta: acredita em Deus? deve-se responder de um modo estritamente kantiano
ou schreberiano: com certeza, mas só como senhor do silogismo disjuntivo, como
princípio a priori deste silogismo (Deus define a Omnitudo realitatis, da qual
todas as realidades derivadas saem por divisão).
Divino é, pois, apenas o carácter de uma energia de disjunção. O divino de
Schreber é inseparável das disjunções nas quais ele se divide a si mesmo: impérios
anteriores, impérios posteriores; impérios posteriores de um Deus superior e de
um Deus inferior. Freud acentua fortemente a importância destas sínteses
disjuntivas no delírio de Schreber em particular, assim como no delírio em geral.
«Tal divisão é característica das psicoses paranóicas. Estas dividem, enquanto que
a histeria condensa. Ou antes, estas psicoses resolvem de novo, nos seus elemen-
tos, as condensações e as identificações realizadas na imaginação inconsciente)~13.
Mas porque é que Freud acrescenta que, reflectindo um pouco, a neurose histéri-
ca é primeira, e que as disjunções só são obtidas por projecção de um condensado
primordial? Trata-se sem dúvida dum modo de conservar os direitos de Édipo no
Deus do delírio e no registo esquizo-paranóico. É por isso que devemos formular
a questão mais geral a este respeito: será que o registo do desejo passa pelos termos
edipianos? As disjunções são a forma da genealogia desejante; mas será esta
genealogia edipiana, inscrever-se-á na triangulação de Édipo? Não será o Édipo
LI Freud, Cinq psychana~yses,tradução francesa PU.F" p. 297
uma exigência ou uma consequência da reprodução social, enquanto esta preten-
de domesticar uma matéria e uma forma genealógicas, que lhe escapa completa-
.mente? Porque é bem certo que o esquizofrênico é interpelado, que nunca deixa
de o ser. Precisamente porque a sua relação com a natureza não é um pólo especí-
fico, é que é interpelado nos termos do código social vigente: qual é o teu nome,
quem são o teu pai e a tua mãe? Durante os seus exercícios de produção desejante,
Molloy é interpelado por um polícia: ,Nocê chama-se Molloy, disse o comissário.
Chamo, disse eu, lembrei-me agora mesmo. E a sua mãe~ disse o comissário. Eu
não percebia. Ela também se chama Molloy? disse o comissário. Ela também se
chama Mol1oy? disse eu. Chama, disse o comissário. Reflecti. Você chama-se
Molloy, disse o comissário. Chamo, disse eu. E a sua mãe, disse o comissário,
também se chama Molloy? Reflecti." Não se pode dizer que a psicanálise seja
muito inovadora: ela continua a pôr as suas questões e a desenvolver as suas inter-
pretações a partir do triângulo edipiano, no momento em que sente, no