DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.443 materiais35.624 seguidores
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com a psicanálise, sem
dizer primeiro que a psicanálise é te6rica e praticamente feita de uma relação
.1Inbígua com aquilo que descobre e com as forças com que lida. Se o estudo
lrítico da ideologia freudiana já foi feito, e bem, a história do movimento nem
~t'quer foi esboçada; a estrutura do grupo psicanalítico, a sua política, as suas
[cndências, as suas auto-aplicações, os seus suicídios e loucuras, o enorme super-
ego de grupo, enfim, tudo o que se passou sobre o corpo pleno do mestre. E a
obra de Jones, que se convencionou apelidar de monumental, não liquida a cen-
\Ufa, mas, pelo conrrário, codifica-a. E como é possível coexistirem estes três ele-
mf'ntos: o elemento explorador e pioneiro, revolucionário, que descobriu a pro-
dução desejante; o elemento cultural clássico que rebate tudo sobre uma cena de
representação teatral edipiana (o retorno ao mito!); e, por fim, o terceiro elemen-
lo, o mais inquietante uma espécie de falcatrua sedenta de respeitabilidade, sem-
pre a pretender fazer-se reconhecer e institucionalizar, um formidável empreendi-
mento de absorção de lnais-valia com a sua codificação da cura interminável, a
"lia cínica jusificação do papel do dinheiro, e todas as garantias que dá à ordem
<-,tabelecida_ Em Freud havia de tudo isto - fantástico Cristóvão Colombo, ge-
Ilialleitor burguês de Goethe, Shakespeare e Sófocles, AI Capone disfarçado.
A força de Reich está precisamente no facto de ele ter mostrado como o
H'calcamento depende da repressão, o que não implica que os dois conceitos se
(onfunclam, visto que a repressão precisa do recalcamento exactame;nre para for-
lIlar sujeitos d6ceis e garantir a reprodução da formação social, inclusivamente
IL1S suas estruturas repressivas. Mas, em vez de ser a repressão social que tem que
',LT compreendida a partir de um recalcamento familiar extensível à civilização,
nte último é que tem que ser compreendido em função de uma repressão ineren-
ll' a uma dada forma de produção social. A repressão só consegue atingir o desejo
e não apenas necessidades ou interesses - por meio do recalcamento sexual.
i\ família é o agente delegado deste recalcamento porque é ela que assegura uma
«reprodução psicológica de massa do sistema eco nó mico de uma sociedade». Mas
pelo contrário, a repressão do desejo ou o recalcamento sexual, isto é, a estase da
energia libidinal, é que actualiza o Édipo e põe o desejo neste impa.5se querido e
organizado pela sociedade repressiva. Foi Reich o primeiro a formular o problema
da relação do desejo com o campo social (indo mais longe que Marcuse, que trata
este problema com certa ligeireza). É Reich o verdadeiro fundador de uma psiquia-
tria materialista. Foi ele o primeiro que, pondo o problema em termos de desejo,
recusou as explicações de um marxismo sumário com pressa demais em dizer que
as massas foram enganadas, mistificadas ... Mas, porque o conceito de uma pro-
dução desejante ainda não estava suficientemente amadurecido, não chegou a
determinar a inserção do desejo na própria infra-estrutura econémica, nem a in-
serção das puIsões na produção social. Por isso lhe parecia que no investimento
revolucionário o desejo coincidia simplesmente com uma racionalidade eco nó-
mica, enquanto que os investimentos reaccionários de massa lhe pareciam reme-
ter ainda para a ideologia, de modo que a única função da psicanálise seria expli-
car o subjectivo, o negativo, o inibido, sem qualquer participação directa na
positividade do movimento revolucionário ou na criatividade desejante (e de cer-
ro modo isso não seria o mesmo que reintroduzir o erro e a ilusão?). Apesar de
tudo, Reich foi capaz de levar à psicanálise, e em nome do desejo, um cântico à
vida. O que denunciava na resignação final do freudismo era um certo medo da
vida, um ressurgimento do ideal ascético, um novo culto da má consciência. Mais
valia partir à procura do Orgone, do elemento vital e cósmico do desejo, do que
continuar, em tais condições, a ser psicanalista. Ninguém lhe perdoou, enquanto
que Freud obteve o grande perdão. Foi ele o primeiro que tentou fazer funcionar
conjuntamente a máquina analítica e a máquina revolucionária. E no fim acabou
por ficar sozinho com as suas máquinas desejantes, com as suas caixas paranóicas,
miraculosas, celibatárias, metalizadas e envolvidas em lã e algodão.
O recalcamento distingue-se da repressão pelo carácter inconsciente da ope-
ração e do seu resultado (<<atéa inibição da revolta se tornou inconsciente»)). e esta
distinção exprime claramente a sua diferença de natureza, embora dela não se
possa concluir nenhuma independência real. É o recalcamento que faz que a re-
pressão se torne desejada, deixando de ser consciente; induz um desejo de
consequência, uma imagem falsa daquilo que atinge, que lhe dá uma indepen-
dência aparente. O recalcamento propriamente dito é um meio ao serviço da
124 o ANTI-ÉDIPO PSICANÁLISE E FAMILIARISMO: A SAGRADA FAMfLIA 125
repressão. E aquilo que o recalcamento atinge, a produção desejante, é também
objecto da repressão. Mas o recalcamento implica precisamente uma dupla ope-
ração original; a formação social repressiva delega o seu poder numa instância
recalcante e correlativamente o desejo reprimido é como que coberto pela ima-
gem deslocada e falsificada que o recalcamento suscita. Há ao mesmo tempo uma
delegação do recalcamento feita pela formação social e uma desfiguração e um
deslocamento da formação desejame feito pelo recalcamento. O agente delegado
do recalcarnento, ou antes, delegado para o recalcamento, é a família; e a imagem
desfigurada do recalcado são a.5 pulsáes incestuosas. O complexo de Édipo, a
cdipianizaçáo, é, portanto, fruto desta dupla operação. O movimento que a produ-
ção social repressiva utiliza para sejàzer substituir pela jàmília recalcanteJ é o mesmo
que esta utiliza para mostrar uma imagem deslocada da produção desejante que re-
presenta o recalcado como pulsães familiares incestuosas. A relação entre as duas pro-
duções é assim substituída pela relação família - pulsões, e é com esta manobra
que toda a psicanálise se perde. E é fácil perceber que a produção social tem todo
() interesse nesta operação, pois não conseguiria de outrO modo esconjurar o po-
der de revolta e de revolução do desejo. Pondo-lhe à frente o espelho deformante
do incesto (era isto que querias, há?) envergonha-se e estupidifica-se o desejo,
rnetendo-o numa situação sem qualquer saída, persuadindo-o com todo o desem-
haraço a renunciar a «si próprio» em nome dos interesses superiores da civilização
(e se toda a gente fizesse o mesmo, se todos casassem com a mãe ou guardassem a
i rmá para si~, não haveria nem diferenciação nem trocas ... ). f: preciso agir depres-
'>.1 e já. Um ribeiro pouco profundo caluniado de incesto.
Mas se se percebe perfeitamente o interesse que a produção social tem na
operação, já não se percebe tão bem o que é que a tOrna possível, do ponto de
vista da própria produção desejante. Todavia, temos elementos suficientes para
d;&quot;lruma resposta. A produção social precisa de dispor sobre a super~ície de reg isto
do soc.ius de uma instância capaz de atingir, de se inscrever na superfície de regis-
10 do desejo. E essa instância existe - é a família. A família, enquanto sistema de
Icprodução dos produtores, pertence essencialmente ao registo da produção soci-
,li Sem dúvida que, no outro pólo, o registo da produção desejante sobre o corpo
q'lll órgãos se faz por meio de uma rede genealógica não familiar: os pais apenas
IlItccvêm como objectos parciais, fluxos, signos e agentes de um processo que os
11.1l1scendetotalmente. Quanto muito, a criança «refere» inocentemente aos pais
uma pequena parte da espantosa experiência produtiva que, com O seu desejo, vai
tendo; mas essa experiência não se refere aos pais enquanto pais. E é exacramente
nessa altura que se dá a tal operação.