DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.442 materiais35.613 seguidores
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encontrá-la onde quer que seja ... É típica,
porém, porque o seu singular desenrolar obteve um resultado universal. Forneceu a base prática (a economia
industrial) e a concepçáo teórica (o socialismo) para ela própria e todas as outras sociedades ultrapassarem as
formas mais antigas ou mais n:centes da exploração do homem pelo homem [... ]. A verdadeira universalidade
da linha do desenvolvimento ocidental está, pois, na sua singularidade e não fora dela, não na sua semelhança
mas na sua diferença em rdado às outras linhas de evolução» (Sur 11'mude de production asiatique, Ed. Sociales,
1969, pp. 92-96).
dução mercantil, e, no entanto, são duas formas muito diferentes de descodificação,
uma por privatização, a outra por abstracção. Ou então, e só em relação à propri-
edade privada, o encontro dos fluxos de riqueza conversível possuída pelos capita-
listas com um fluxo de trabalhadores possuindo apenas a sua força de trabalho
(ainda aqui, duas formas de desterrirorialização muito distintas). De certo modo
o capitalismo aparece em todas as formas de sociedade, mas como o seu pesadelo
terrificante, como o medo pânico que elas têm dum fluxo que escaparia aos seus
códigos. Por outro lado, o capitalismo só determina as condições e a possibilidade
de uma história universal porque tem de se haver com o seu próprio limite e a sua
própria destruição ou, como diz Marx, na medida em que é capaz de se criticar a
si próprio (pelo menos até um certo ponto: o ponto em que o limite aparece,
ainda que no movimento que contraria a tendência ... )1. Em suma, a história
universal não é apenas retrospectiva mas é também contingente, singular, irónica
e crítica.
A unidade primitiva, selvagem, do desejo e da produção, é a terra. Porque a
terra não é apenas o objecto múltiplo e dividido do trabalho, mas também a
entidade única indivisível, o corpo pleno que se rebate sobre as forças produtivas
e se apropria delas como se fosse o seu pressuposto natural ou divino. O solo pode
ser o elemento produtivo e o resultado da apropriação, mas a Terra é a grande
estase inegendrada, o elemento superior à produção que condiciona a apropria-
ção e a utilização comuns do solo. É a superfície na qual todo O processo da
produção se inscreve, onde os objectos, os meios e as forças de trabalho se regis-
tam, e os agentes e produtos se distribuem. Ela aparece aqui como quase-causa da
produção e objecro do desejo (faz-se sobre ela a ligação do desejo com a sua pró-
pria repressão). A máquina territorialé, pois, a primeira forma de socius, a máqui-
na de inscrição primitiva, «mega-máquina» que cobre um campo social. Não se
2 Lewis Mumford, "La premiere mégamachine», Dioglme, Julho de 1966.
145SELVAGENS, BÁRBAROS, CIVILIZADOS
confun~e com as máquinas técnicas. Nas suas formas mais simples, ditas manu-
,Iis, a máquina técnica implica já um elemento não humano, actuante. transmis-
\or ou mesmo motor, que prolonga a força do homem. permitindo-lhe já uma
certa libertação. Pelo contrário, na máquina social as peças são homens - ainda
que os consideremos com as suas máquinas - e esta máquina integra-os e
interioriza-os num modelo institucional que abrange todos os níveis da acção, da
transmissão e da motricidade. E assim, forma uma memória sem a qual não have-
ria sinergia entre o homem e as suas máquinas (técnicas). Com efeito, estas não
contêm as condições de reprodução do seu processo; remetem para máquinas
\ociais que as condicionam e organizam, mas cujo desenvolvimento também li-
mitam ou inibem. Só no capitalismo é que surgirá um regime de produção técni-
La semi-autónoma, que tende a apropriar-se da memória e da reprodução, e por-
unto a modificar as formas de exploração do homem; mas este regime supõe
I)recisamente um desmantelamento das grandes máquinas sociais precedentes.
Uma mesma máquina pode ser técnica e social, mas não sob O mesmo aspecto:
Jlor exemplo o relógio, que é uma máquina técnica que serve para medir o tempo
uniforme e uma máquina social que serve para reproduzir as horas canónicas e
rarantir a ordem na cidade. Lewis Murnford teve portanto razão quando criou a
palavra «(mega-máquina)) para designar a máquina social como entidade colectiva
(embora reserve a sua aplicação à instituição despótica bárbara): «Se mais ou me-
nos de acordo com a definição clássica de Reuleaux considerarmos uma máquina
(orno uma combinação de elementos sólidos cada um dos quais com a sua função
especializada, e funcionando sob controle humano para transmitir um movimen-
to e executar um trabalho, então, sem dúvida alguma, a máquina humana é uma
verdadeira máquina))l. A máquina social é literalmente uma máquina, indepen-
dentemente de qualquer metáfora, porque tem um motor imóvel e faz diversos
tipos de cortes: extracção de fluxo, destacamento de cadeia, reparti~ão de partes.
(:odificar os fluxos - o que implica todas estas operações - é a mais importante
Luefa da máquina social, na medida em que as extracções de produção
(orrespondem a destacamentos de cadeias, e que daqui resulta a parte residual de
(.,da membro, num sisrema global do desejo e do destino que organiza as produ-
~ôes de produção, as produções de regisro, as produções de consumo. Fluxo de
o ANTI-tDIPO144
J Meyer Fortes, in Recherches voltaiques, 1967, pp. 135-137.
mulheres e de crianças, fluxo de rebanhos e sementes, fluxo de merda, de esperma
e de menstruação, nada disto deve escapar. A máquina territorial primitiva, com
o seu motor imóvel, a terra, é já uma máquina social ou mega-máquina que codi-
fica os fluxos de produção, os meios de produção, 0$ produtores e os consumido-
res: o corpo pleno da deusa Terra reúne sobre si as espécies cultiváveis, os instru-
mentos aratórios e os órgãos humanos.
Meyer Fortes faz meramente por acaso uma observação divertida e cheia de
sentido: "O problema não é o da circulação das mulheres [... ]. Uma mulher
circula por si mesma. Ninguém pode dispor dela, mas os direitos juddicos sobre
a progenitura estão fixados em proveito duma determinada pessoa»3. Com efeito,
não vemos nenhuma razão para aceitarmos o postulado subjacente às concepções
da sociedade que se baseiam na troca; a sociedade não é um meio de troca onde º-
essencial seria circular e fazer circular, mas um socius de inscrição onde o essencial
é marcar e ser marcado. Só há circulação quando a inscrição a exige ou permite. O
que a máquina territorial primitiva faz, neste sentido, é o investimento colectivo
dos órgãos; porque a codificação dos fluxos só se faz na medida em que os órgãos
capazes de, respectivamente, os produzir e cortar estão cercados, instituídos como
objectos parciais, distribuídos e presos ao socius. E uma máscara é, precisamente,
uma tal instituição de órgãos. As sociedades de iniciação compõem os fragmentos
dum corpo, que são ao mesmo tempo órgãos dos sentidos, peças anatómicas e
articulações. Os interditos (não ver, não falar) aplicam-se aos que não fruem,
num certo estado, numa determinada ocasião, dum órgão colectivamente investi-
do. As mitologias cantam os órgãos-objectivos parciais e a sua relação com um
corpo pleno que os repele ou atrai: vaginas pregadas ao corpo das mulheres, pénis
imenso dividido entre os homens, ânus independente que se atribui a um corpo
sem ânus, Bá um conto gurmanchéu que começa assim: «Quando a boca morreu
consultaram-se as outras partes do corpo para se saber qual delas é que se havia de
encarregar do enterro., ,l>o As unidades não estão nunca nas pessoas, no sentido
próprio ou «privado,>, mas nas séries que determinam as conexões, as disjunções e
as conjunções de órgãos. É por isso que os fantasmas são fantasmas de grupo. É o
investimento colectivo que liga o desejo ao socius e reúne num todo, sobre a terra,
a produção social e a produção desejanre.