DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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é evidente que a má-
quina social primitiva não é territorial. Só o será o aparelho de Estado que, segun-
do a fórmula de Engels, «subdivide, não a população mas o território) e substitui
,I organização gentílica por uma organização geográfica. Não é, todavia, inútil
mostrar a importância das ligações locais, mesmo quando o parentesco parece ter
o ANTI-ÉDIPO
"
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mais importância do que a terra. É que a máquina primitiva subdivide a popula-
ção, mas fá-lo numa terra indivisível onde se inscrevem as relações conectivas,
disjuntivas e conjuntivas de cada segmento com os outros (por exemplo, a coexis-
tência ou a complementaridade do chefe de segmento com o protector da terra).
Quando a divisão se refere à própria terra devido a uma organização administra-
tiva, fundiária e residencial, não podemos ver nisso uma promoção da
territorialidade mas, pelo contrário, o efeito do primeiro grande movimento de
desterritorialização nas comunidades primitivas. A unidade imanente da terra como
motor imóvel é substituída por uma unidade transcendente de natureza muito
diferente que é a unidade do Estado; o corpo pleno já não é o da terra, mas O do
Déspota, o Inengendrado, que se ocupa tanto da fertilidade do solo como da
chuva do céu e da apropriação geral das forças produtivas. O soeius primitivo
selvagem era portanto a única máquina territorial em sentido restrito. E o seu
funcionamento consiste em declinar a aliança e a filiação, declinar as linhagens
sobre o corpo da terra, antes que aí apareça um Estado.
Se a máquina é de declinação, é porque é impossível deduúr simplesmente a
aliança da filiação, e as alianças das linhas filiativas. Seria um erro atribuir à alian-
ça um poder de individuação sobre as pessoas duma linhagem; porque o que ela
produz é uma discernibilidade generalizada. Leach refere casos de regimes matri-
moniais muito diversos, dos quais não se pode inferir a existência duma diferença
na filiação dos grupos correspondentes. Em muitas análises «acentuam-se as liga-
ções internas do grupo solidário unilinear ou as ligações entre diferentes grupos
que têm uma filiação comum. As ligações estruturais que derivam do casamento
entre membros de grupos diferentes têm sido ignoradas, ou então assimiladas ao
conceito universal de filiação. É o que faz Fortes que, embora reconhecendo nas
ligações de aliança uma importância comparável à das ligações de filiação, as dis-
simula por meio da expressão descendência complementar. Este conceito, que lem-
bra a distinção que os romanos faziam entre agnático e cognático, implica essen-
cialmente que todo o indivíduo está ligado aos pais do seu pai e mãe por ser
descendente de um e outro, e não por eles serem casados ... (No entanto) as liga-
ções perpendiculares que unem lateralmente as diferentes patrilinhagens não são
concebidas pelos próprios indígenas como laços de filiação. A continuidade no
tempo da estrutura vertical exprime-se adequadamente pela transmissão agnática
dum nome de patrilinhagem. Mas a continuidade da estrutura lateral não se ex-
I, E,R. Leach, Critique de l'anthropologie. 1966, tradução francesa l~U.F., pp. 206~207.
prime assim. Ela é mantida por uma cadeia de relações econômicas entre devedor
'" credor ... É a existência destas dívidas abertas que mostra a continuidade da
relação de aliança,/'. A filiação é administratÍva e hierárquica, mas a aliança é
política e económica, e exprime o poder enquanto este não se confunde com a
.ldministração. Filiação e aliança são como que as duas formas dum capital primi-
I;VO, o capital fixo (ou stock filiativo) e o capital circulante (ou blocos móveis de
dívidas), a que correspondem duas memórias, uma bio-filiativa e outra de alian-
~:ase palavras. Se a produção é registada sobre o socius na rede das disjunções
flliativas, ainda é preciso que as conexões do trabalho se separem do processo
produtivo e passem para o elemento do registo que, como quase-causa, se apro-
pria delas. Mas para poder fazer isto ele tem que passar a ter outra vez um regime
(onectivo, o que faz por meio duma ligação de aliança ou de outra conjugação de
pessoas compatível com as disjunções de filiação. É neste sentido que podemos
dizer que a economia passa pela aliança. Na produção de crianças, a criança ins-
(reve-se por meio de uma referência às linhas disjuntivas do seu pai ou da sua mãe
l'nquanto que estes, e inversamente, o inscrevem por intermédio duma conexão
Icpresentada pelo casamento do pai e da mãe. Não há, portanto, nenhum mo-
mento em que a aliança derive da filiação; as duas formam um ciclo essencial-
mente aberto em que o socius age sobre a produção, mas onde também a produ-
...10 reage sobre o socius.
Os marxistas têm razão quando lenlbram que, se o parentesco é dominante
Ila sociedade primitiva, é porque é determinado a sê-lo pelos factores económicos
(' políticos. E se a filiação exprime o que é dominante ainda que determinado, a
,diança exprime o que é determinante, ou melhor, o retorno do determinante no
~lstema determinado de dominância. Torna-se assim essencial considerar como é
que as alianças se compõem concretamente com as filiações sobre uma dada su-
perf.ície territorial. Leach determinou precisamente a instância das liuhagens locais
cllquanto distintas das linhagens de filiação e operando ao nível de pequenos
,l'gmentos: são esses grupos de homens que residem num mesmo sítio ou em
lugares próximos uns dos outros que, muito mais do que os sistemas de filiação e
,1~classes matrimoniais abstractas, maquinam os casamentos e formam a realida-
til' concreta. Um sistema de parentesco não é uma estrutura, é uma prática, uma
151SELVAGENS, BÁRBAROS, CIVILIZADOSo ANTI-ÉDIPO150
7 Louis Berthe,~Ainés et cadees, !'alliance et l'hiérarchie chez les Baduj». L'Hommr, Julho de 1965. Cfr.
a fórmula de Luc de Heusch, in «Lévi~Strauss», L'Arcn.o 26: «Um sistema de parentesco é também e sobretudo
uma praxis» (p. lI).
~ L.G. Loffler, «LAlliance asymétrique chez les Mru», L'Homme, Julho de 1966, pp. 78-79. Lcach, na
Critique de limthropologie, analisa a diferença entre a ideologia e a prática a propósito do casamento kachin
(pp. 140-141); faz uma crítica muiro profunda das concepcões de parentesco como sistema fechado (pr. 153-
-154).
9 Piene Clastres, «LArc ec le panier» L'Homme, Abril de 1966, p. 20.
praxis, um processo e até uma estratégia. Louis Berthe, analisando uma relação de
aliança e de hierarquia, mostra claramente como uma aldeia intervém como ter-
ceiro para permitir conexões matrimoniais entre elementos que, em relação à
estrutura, a disjunção das duas metades proibiria: «o terceiro termo deve interpre-
tar-se mais como um processo do que como um verdadeiro elemento da estrutu-
ra}>?Sempre que interpretarmos as relações de parentesco na comunidade primi-
tiva em função de uma estrutura que se desenvolvesse no espírito, caímos na
ideologia dos grandes segmentos que faz depender a aliança das filiações maiores,
mas que é desmentida pela prática. «É preciso perguntarmos se nos sistemas de
aliança assimétrica existe uma tendência fundamental para a troca generalizada,
isto é, para o fecho do ciclo. Não encontrei nada de semelhante nos Mru ... Todos
se comportavam como se ignorassem a compensação que resultará do fecho do
ciclo, e acentuavam a relação de assimetria, insistindo no comportamento credor!
devedof»8. Um sistema de parentesco só aparece como fechado quando separado
das referências económ1cas e políticas que o mantêm aberto, e que fazem da alian-
ça algo de totalmente diferente dum arranjo entre classes matrimoniais e linhas
filiativas.
É o que acontece em todas as codificações de fluxos. Como é que se pode
garantir a adaptação recíproca, a ligação respectiva duma cadeia significante e
dum fluxo de