DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I
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DELEUZE GUATTARI. O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia I


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faz parte; porque se
as oscilações o perturbam, é porque cada uma responde a um indivíduo outro que
não ele, do ponto de vista do centro que é impossível encontrar. É por isso que a
identidade é essencialmente fortuita, e que há uma série de individualidades que
devem ser percorridas por cada uma, para que a casualidade desta ou daquela as
torne todas necessárias.) As forças de atracção e repulsão, de pujança e de deca-
dência, produzelTI uma série de estados intensivos a partir da intensidade = O que
designa o corpo sem órgãos (~(mas o que é singular é ainda aqui ser preciso um
I~Pierre Klossowski, Nietzsche et Ir cercle vicieux, Mercure de France, 1969.
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novo afluxo para significar apenas esta ausência»). Não existe o eu-Nietzsche,
professor de filologia, que perde subitamente a razão, e que se identifica com
estranhas personagens; existe, sim, o sujeito-nietzscheniano que passa por uma
série de estados e que identifica os nomes da história com esses estados: eu sou
todos os homens da história ... O sujeito, cujo eu desertou do centro, estende-se por
todo o contorno do círculo. No centro está a máquina do desejo, a máquina
celibatária do eterno retorno. O sujeito-nierzscheniano, sujeito residual da má-
quina, obtém um prémio eufórico (Voluptas) por tudo o que faz girar e que o
leitor supunha ser somente a obra em fragmentos de Nietzsche: «Nietzsche pensa
agora realizar, não um sistema, mas a aplicação de um programa ... com a forma
dos resíduos do discurso nietzscheniano, transformados, por assim dizer, no
reportório do seu histrionismo.» Não a identificacão con1 pessoas, mas a identifi-
cação dos nomes da história com zonas de intensidade sobre o corpo sem órgãos;
e o sujeito grita sempre «Afinal sou eu!». Nunca ninguém fez tanta história como
o esquizo, nem da maneira como ele a faz. Ele consome de uma vez só a história
universal. Começámos por defini-lo como Homo natura, e ei-lo, agora, Homo
historia. De um ao outro há o longo caminho que vai de Hõlderlin a Nietzsche, e
que se vai precipitando ((A euforia de Nietzsche não podia durar tanto tempo
como a alienacão contemplativa de Hêilderlin ... A visão do mundo de Nietzsche
não inaugura uma sucessão mais ou menos regular de paisagens ou naturezas
mortas, durando cerca de quarenta anos; é a paródia rememorante de um aconte-
cimento: um só actor para a realizar num soleníssimo dia - porque tudo se
decide e torna a desaparecer num só dia - embora ele tenha durado de 31 de
Dezembro a 6 de Janeiro - para lá do calendário vulgar»).
A célebre tese do psiquiatra C1erambault parece-nos bem fundamentada: o
delírio, com o seu carácter global sistemático, é segundo em relação a fenómenos
de automatismo parcelares e locais. Com efeito, o delírio qualifica o registo que
recolhe o processo de produção das máquinas desejantes; e, embora possua sínte-
ses e afecções próprias, como acontece na paranóia e até nas formas paranóicas da
esquizofrenia, não constitui uma esfera autónoma, mas é segundo em relação ao
funcionamento e às falhas das máquinas desejantes. Todavia, Clerambault servia-
-se do termo "automatismo (mental») para designar apenas os fenómenos auto-
máticos de eco, de sonorização, de explosão, de «non-sens», em que via o efeito
mecânico de infecções e intoxicações. Por outro lado, explicava uma grande parte
do delírio como um efeito do automatismo; a outra parte, a {(pessoaL, era de
natureza reaccional e remetia para o «carácre[)), cujas manifestações podiam, aliás,
anteceder o automatismo (por exemplo, o carácter paranóicopo. Assim,
Clerambault, via no automatismo apenas um mecanismo neurológico no sentido
mais geral da palavra e não um processo de produção económica que implicasse
as máquinas desejantes, e, quanto à história, limitava-se a invocar o carácter inato
ou adquirido. Clerambault é o Feuerbach da psiquiatria, no sentido em que Marx
diz: «Quando Feuerbach é materialista, não considera a história, e quando consi-
dera a história, não é materialista.» Uma psiquiatria verdadeiramente materialista
define-se por uma dupla operacão: introduzir o desejo no mecanismo e introdu-
zir a produção no desejo.
Não existe uma grande diferença entre o falso materialismo e as formas típi-
cas do idealismo. A teoria da esquizofrenia está marcada por três conceitos que
constituem a sua fórmula trinitária: a dissociação (Kraepelin), o autismo (Bleuler),
o espaço-tempo ou o estar no mundo (Binswanger). O primeiro é um conceito
explicativo que pretende indicar a perturbação específica ou o défice primário.
O segundo é um conceito compreensivo que indica a especificidade do efeito:
o próprio delírio ou o corte, «o afastamento da realidade acompanhado por uma
predominância relativa ou absoluta da vida inreriof). O terceiro é o conceito
expressivo, que descobre ou redescobre o homem delirante no seu mundo especí-
fico. Os três conceitos têm em comum o facto de referirem o problema da
esquizofrenia ao eu, por intermédio da «imagem do corpo» (última metamorfose
da alma, em que se confundem as exigências do espiritualismo e do positivismo).
No entanto, o eu é o papá-mamã ~ e há muito que o esquizo deixou de acreditar
nele. Está para além, atrás, por cima algures, mas não nesses pro.blemas. Mas onde
quer que esteja há problemas, sofrimentos insuperáveis, misérias insuportáveis-
porquê, então, querer reconduzi-lo ao que já abandonara, metê-lo nesses proble-
mas que não são os dele, ridicularizar a sua verdade que se pensou homenagear
suficientemente com uma chapelada ideal? Parece que o esquizofrénico deixou de
poder dizer eu e que é preciso devolver-lhe essa função sagrada da enunciação.
lU G. de Clerambaulr, Oeuvre pJychúurique, EU,F.
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É o que ele resume, ao dizer: estão outra vez a aldrabar-me. «Nunca mais direi eu,
nunca mais, é uma estupidez. De cada vez que o ouvir, hei-de pôr no seu lugar a
terceira pessoa, e é se pensar nisso. Se isso os diverte. O que não irá alterar nada.»
E se tornar a dizer eu, isso também não altera nada. Está tão longe destes proble-
mas, tão pata lá deles! Nem Fteud se libertou do estreito ponto de vista do eu-
e o que o impediu foi a sua forma trinitária, edipiana, neurótica: papá-mamá-eu.
Seria de perguntar se não teria sido o imperialismo analítico do complexo de
Édipo que levou Fteud a descobtit, e fitmat com a sua autotidade, o lamentável
conceito de autismo aplicado à esquizofrenia. Porque afinal, e não é preciso es-
conder isto, Freud não gosta dos esquizofrênicos, nem da sua resistência à
edipianização, e preferia tratá-los como animais: diz que tomam as palavras por
coisas, que são apáticos, narcisicos, separados do real, incapazes de transfert, que
parecem filósofos - (1semelhança indesejável». Tem-se pensado muito na manei-
ra de conceber analiticamente a relação entre as pulsões e os sintomas, o símbolo
e o simbolizado. Será uma relação causal de compreemão, ou de expressão?A ques-
tão tem sido formulada em termos demasiado teóricos. Porque, de facto, desde
que nos enfiam no Édipo, desde que nos compatam com Édipo, fica tudo tesol-
vida, suprimindo-se assim a única relação autêntica que era a de produção. A
gtande descoberta da psicanálise foi a da ptoduçáo desejante, a das produções do
inconsciente. Mas, com o Édipo, essa descoberta foi rapidamente ocultada por
um novo idealismo: substituiu-se o inconsciente como fábrica por um teatro an-
tigo; substituíram-se as unidades de produção inconsciente pela representação;
substituiu-se um inconsciente produtivo por um inconsciente expressivo (o mito,
a ttagédia, o sonho ... ).
Sempre que explicarmos o problema da esquizofrenia a partir do eu, mais
não podemos do que «apreciar» uma essência ou uma especificidade supostamen-
te atribuídas ao esquizo, seja com amor ou piedade, seja para a cuspir