Sedução na Net
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de teclar com ele. Depois, conversariam pelo telefone até o 
sono chegar. 
 Quando isso começou a virar rotina, ela se preocupou. Principalmente porque 
percebeu que estava acostumando-se à sua presença sem nunca tê-lo visto. Não confiava 
em tudo o que ele lhe dizia, ficava sempre procurando cruzar informações em busca de 
prováveis mentiras, mas não encontrava nada. Apenas, ele se esquivava de ir conhecê-la. 
 Chegou um momento em que ela sentiu que não podia esperar mais. Moravam 
perto, tinham todas as facilidades para se encontrar e ele estava ocupando demais os 
pensamentos dela. Não estava disposta a prolongar aquele relacionamento virtual. Por mais 
que gostasse do jeito dele, ela precisava ter certeza de que aquele homem seria capaz de 
satisfazer os seus cinco sentidos e todos os seus desejos. 
 - Não quero mais continuar esse relacionamento sem conhecer você. - ela lhe disse 
ao telefone. 
 
 Ele ficou surpreso: 
 - Por que não? Qual é o problema de nos conhecermos primeiro por dentro? Nós 
trocamos fotos, sabemos que podemos interessar um ao outro. 
 
 Ela lembrou-se que ele ainda era novato nas salas de bate-papo. Ela era a primeira 
mulher que o interessara, desde que ele entrara nos chats, há cerca de dois meses. 
 - Rodrigo, eu tenho experiência nesse tipo de relacionamento. Me escuta, isso pode 
machucar. 
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 - Eu não vejo como \u2013 ele respondeu \u2013 É apenas diferente do que estamos 
acostumados. Quando conhecemos uma pessoa, em qualquer outra situação, nós a 
avaliamos primeiro por fora. Aqui é ao contrário. Conhecemos primeiro o interior da 
pessoa. Acabamos nos abrindo mais e conhecemos a pessoa mais profundamente também. 
 - Sim, eu sei disso, mas de que adianta isso se a pessoa não agradar você , se 
quando seus olhares se encontrarem ela não fizer seu coração bater mais forte? 
 - Eu concordo com você que é fundamental a pessoa mexa conosco, que tenha um 
jeito que nos seduza. Mas, no nosso caso, um sabe como o outro é e nossas fotos são 
atuais. Você é uma mulher muito interessante e eu sei que você gostou de mim. Por que 
não posso primeiro descobrir você por dentro? 
 - Uma foto só mostra a forma. - ela respondeu. 
 - Isso mesmo! E você mostra seu coração pelas suas palavras, pelo seu pensamento, 
pelo modo como você se expressa. Então, eu vou conhecendo você inteira. 
 - Mas, isso vai além de conhecer. É a coisa da química. Você pode amar meu 
coração, mas eu posso não despertar o seu desejo, o seu instinto. Ou você não despertar o 
meu. Podemos ter formas harmônicas, bonitas, mas pode não haver brilho por trás delas. 
Em qualquer um desses casos, nada vai funcionar. 
 - Você acha que tem alguma chance de nós não nos sentirmos atraídos um pelo 
outro? Como isso poderia acontecer, se já nos damos tão bem? 
 - Isso acontece quando você olha para a pessoa e não sente aquele desejo que faz 
você querer tocar nela. Isso acontece quando o beijo da pessoa não emociona você, 
quando o gosto não agrada ou o cheiro não excita. Ou, como se costuma dizer, a química 
não funciona. 
 Ele ficou quieto, alguns instantes. Ela lhe deu tempo para absorver suas palavras e 
continuou: 
 
 - Então, você descobre que se apaixonou por uma fantasia, porque aquela pessoa 
perfeita, pronta para ser a pessoa da sua vida, para você amar para sempre, não existe. 
Você descobre que passou horas conversando com um produto da sua imaginação, porque 
a pessoa só é daquele jeito na sua mente. E isso frustra você, machuca. Por isso eu não 
acho saudável um relacionamento virtual se prolongar por tanto tempo. Entendeu, agora? 
 
 Naquele dia, ela o convenceu a se encontrarem. Ela nunca esquecia as regras de 
segurança nesses casos. Combinou o encontro em um restaurante conhecido da cidade, de 
modo a garantir que estaria cercada de pessoas. Dirigiu-se para lá em seu próprio carro, 
resguardando assim o seu endereço. Na verdade, o que ela fazia nessas situações era tomar 
os mesmos cuidados que tomaria ao lidar com pessoas desconhecidas. Nunca confiava 
imediatamente, avaliava com freqüência suas atitudes e posturas, protegia-se até sentir-se à 
vontade. Era simples assim. Errado seria acreditar na aparente intimidade que o computador 
propicia e baixar as defesas. Errado seria sentir-se absolutamente segura com alguém que 
conhecera virtualmente. 
 Insistir em encontrá-lo foi a melhor coisa que Giulia fez. Eles davam-se muito bem, 
mas nada funcionou entre eles. Não tinham nada a ver um com o outro. Ambos disfarçaram 
o mal-estar, conversaram sobre banalidades e voltaram para suas casas. Era dessas coisas 
que não têm explicação. Tinham tudo para dar certo. Deu tudo errado. 
 
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Capítulo VII 
 
No fim de junho, Felipe vinha saindo com freqüência com Anna Beatriz. Embora 
não planejasse ter, tão cedo, outra pessoa em sua vida, Bia tornou-se uma companhia mais 
assídua. Ela era alegre, amiga e companheira de todas as horas. Além disso, era doce, 
meiga e bonita. Tinha muitas coisas que ele gostava em uma mulher. A atração entre eles 
foi imediata. No dia em que se conheceram, teclaram a tarde inteira e encontraram-se à 
noite. No início, uma grande atração física os uniu. Pouco a pouco, iam surgindo 
sentimentos como carinho e amizade e eles sentiam imenso prazer na companhia um do 
outro, de modo que ele foi levando adiante aquele namoro. 
 Logo percebeu que o relacionamento deles lembrava muito o seu envolvimento com 
Giulia. Ele pensava nela com freqüência. Embora hoje levasse a vida exatamente do jeito 
que queria, ele se questionava porque não conseguira ficar com ela. Às vezes, achava que 
eles viveram tudo muito rápido. Outras vezes, achava que ela ainda era imatura para levar 
adiante um relacionamento que poderia ser definitivo. 
 Mas, a verdade é que, em muitas horas, sentia falta dela. 
 Nos últimos tempos, abandonara um pouco os chats, mas não totalmente. 
Continuava achando fascinante conhecer outras pessoas e não abria mão de algumas horas 
conectado. Em função disso, acabava tendo com Bia os mesmos problemas que tivera com 
Giulia. Era difícil a namorada entender que, para ele, aquilo não passava de diversão. 
 - Eu tenho uma amiga que perdeu o marido assim \u2013 ela dizia. 
 - Ele fugiu de casa com o computador ? \u2013 ele brincava, tentando evitar a discussão. 
 
 Então, ela repetia a mesma história e ele não duvidava de que isso realmente podia 
acontecer. Ele mesmo ouvia, vez por outra, histórias de casamentos desfeitos porque um 
dos dois envolveu-se com alguém que conheceu na internet. Mas, na sua maturidade, sabia 
que havia muito mais por trás daquela atitude do que noites passadas nos chats. 
 
 - E foi de uma hora para outra, sem que a minha amiga esperasse \u2013 ela 
completava. 
 - Bia, essas coisas não acontecem sem aviso. O casamento deles não devia ir bem, 
antes dele resolver passar noites na internet. \u2013 ele tentava explicar. 
- Ia sim, ela dizia que estava feliz. 
- Ela estava feliz. E ele? 
- Ele nunca reclamou. 
 - Tem gente que não reclama. Aliás, nem devia ser preciso ele reclamar. Ela devia 
ter percebido. 
- Então, isso quer dizer que nós não estamos bem ? Você vive na internet... 
 - Mas, eu não troco você por ninguém que eu conheço na rede, é diferente. Não 
saio do virtual para o real. 
 
 Ele lhe contou das muitas horas que passava ao lado de Giulia, cada um em seu 
computador. 
 - Existe uma grande diferença entre você entrar nos chats porque quer conhecer 
pessoas, quer ampliar o seu círculo de amizades e estar ali procurando uma nova 
realidade, porque não está feliz. Durante muito tempo, enquanto eu estive com a Giulia, 
nós dois mantínhamos uma vida virtual paralela à real e éramos felizes. 
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 - E qual é o limite entre as duas situações? \u2013 ela perguntou, desconfiada. 
 -Não é fácil descobrir esse limite. Mas, no meu caso, eu desligava o computador e 
tinha uma vida fora dele que me satisfazia, como eu tenho hoje. Não misturava a vida 
virtual com a real. A virtual era uma grande brincadeira, uma diversão que, às vezes,