Sedução na Net
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percebesse que ele era o 
motivo da recusa. Ele, por sua vez, não queria que ela fosse, mas vira a sua empolgação 
diante do projeto. Já interferira uma vez na vida dela, quando a fez mudar de São Paulo 
para o Rio de Janeiro, abandonando tudo. Embora ela tenha se adaptado melhor à nova 
cidade, ele sentiu-se culpado quando se separaram e ela ficou sem amigos e sem a família 
por perto. Ele não queria assumir a responsabilidade de pedir para ela não viajar. Aceitaria 
a decisão dela. . 
 Três dias depois, um telefonema cobrou uma resposta de Giulia. Havia conversado 
longamente com Felipe. 
- Sim, podemos acertar os detalhes. Aceitamos a proposta e eu vou pessoalmente 
cuidar disso nos EUA \u2013 disse ao telefone, com a voz mais formal que consegui, tentando 
dissolver o nó que se formava na sua garganta. 
 
Quando desligou o telefone, correu para a sala de Felipe. Na porta, respirou fundo e 
entrou. 
- Temos muito trabalho pela frente. Acabei de acertar os detalhes da minha viagem. 
Vou para Nova York em três semanas. Quero conhecer tudo o que há na rede sobre e-bay. 
 
O mais casualmente que conseguiu, ela sentou-se ao lado de Felipe e começou sua 
exploração por uma ferramenta de busca, na máquina dele. O mais naturalmente que pode, 
ele a ajudou, dando dicas e opiniões. Trabalharam durante dias, sem tocar novamente no 
assunto da viagem. Cada um a seu modo, eles não conseguiam esquecer que estava 
chegando o momento de se separarem. 
 
 Para Felipe, o principal era ver Giulia seguir aquilo que seu coração lhe ordenava. 
Se ela estava decidida a ir mesmo, ele não iria impedi-la. Já mudara uma vez a vida dela em 
função de um desejo seu. Não faria isso novamente. Deixaria que ela fosse aonde seu 
coração a levasse. \u201cEu gosto demais dela para interferir em seu desejo\u201d, ele pensava. 
Enquanto isso, ele seguiria levando sua vida no Brasil, cuidando dos negócios e se 
divertindo com mulheres que, para ele, não tinham grande importância. Felipe sabia que 
havia muitos riscos numa viagem como essa. Certamente, ela voltaria mais madura e 
poderia, até mesmo, envolver-se com alguém nos EUA e adiar a volta. Nada seria como 
antes, a partir do momento em que ela embarcasse no avião. 
 
 Ela, por sua vez, não estava tão feliz quanto tentava demonstrar. Não estava 
completamente animada para viajar. Mas, optara por sair de perto dele por uns tempos, com 
medo de estragar o seu relacionamento. Ele estava em uma fase que não importava se era 
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Maria, Ana ou Fernanda. Alguma outra mulher, além dela, estaria ao lado dele, porque esse 
era o seu desejo. Giulia achou que o melhor a fazer era deixá-lo viver essa fase livremente. 
E esperar que ele a chamasse de volta, se sentisse a sua falta. \u201cMesmo porque\u201d, ela 
pensava, \u201cse ele me amasse, não me deixaria viajar.\u201d 
 
 Eles passaram muito tempo reunindo material sobre Nova York, para que Giulia se 
orientasse o melhor possível quando chegasse lá. Em suas mesas, havia pilhas de mapas, de 
todos os ângulos possíveis, inclusive com as mãos das ruas, caso ela se aventurasse a dirigir 
por lá. Guias de referência, pontos turísticos, material sobre o modo de vida dos 
americanos, tudo o que achavam na rede, eles imprimiam. 
 
 Algumas semanas depois, ela estava embarcando. Através de uma agência 
especializada, ela pode, pela internet, acertar grande parte dos detalhes práticos para viver 
alguns meses lá. Quando chegasse, iria diretamente para o apartamento que alugara. 
Também pela rede, escolheu uma academia de ginástica a poucas quadras de seu 
apartamento. 
 Ela chegou junto com o outono em Nova York. Tinha , nos EUA, um pequeno 
grupo de amigos, com os quais podia contar: Paul e Susan, um casal de meia-idade, Cindy, 
uma universitária de 24 anos, Willian, um advogado de 35 anos e Michael, um empresário, 
cuja idade ela ignorava. 
 Ela conheceu todos eles na internet. Nos primeiros dias, eram eles que a socorriam, 
quando necessário. Logo, ela sentiu-se à vontade na nova cidade, apesar de tropeçar, de vez 
em quando, na língua. Mas, achava graça em tudo e logo isso se tornou cada vez menos 
freqüente. Nos primeiros dias, falava com Felipe a toda hora por telefone. Um conhecia 
cada passo do outro, embora separados por milhares de quilômetros. Também trocavam 
muitos e-mails por dia, de modo que isso atenuava um pouco as saudades que eles sentiam. 
Giulia tomava especial cuidado para não perguntar sobre a vida pessoal de Felipe. Na 
verdade, tinha medo que ele lhe falasse que, finalmente, estava saindo com alguma mulher 
especial. Ele, por sua vez, evitava perguntar sobre a vida de Giulia. Queria que ela se 
sentisse livre, para fazer o que quisesse. 
 
 Fazia quase um mês que estava nos EUA quando ela começou a perceber algumas 
mudanças nos hábitos de Felipe. Quando lhe telefonava à noite, nem sempre o encontrava 
em casa. Invariavelmente, fazia mil contas, achando que errara o fuso, apesar da diferença 
tão pequena entre Rio e Nova York. E tentava outra vez e outra vez, até que desistia. 
 Houve um dia em que ela não conseguiu se conter. Estavam conversando sobre 
coisas banais e ela, de repente, lhe perguntou: 
- Você está saindo com alguém? 
 
 Felipe hesitou do outro lado da linha. Mariana não era importante para ele, mas 
naquele momento, servia a seus propósitos. Ela era uma boa companhia, divertia-o com seu 
jeito de menina e fazia-o sentir-se mais jovem no contato com ela. 
 - Não é nada além disso. Não sinto nada especial por ela. 
 
 Ele imaginava que Giulia reagiria com agressividade. Mas, ao invés de revolta, 
havia doçura na sua voz: 
 - Eu só quero ver você feliz. Se é isso que você quer, espero que vocês fiquem bem. 
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 Eles eram de novo, naquele momento, os amigos de coração. Ele contou para ela o 
que estava vivendo. Falou da garota, do que estava sentindo, do que o encantava nela e do 
que o incomodava. Abriu se coração e fez isso muitas outras vezes, a partir daquele dia. 
 
 Giulia aceitou com naturalidade a situação. Estava mais acostumada e, começava a 
perceber que o que Felipe sentia por ela e por Mariana era completamente diferente. Não se 
sentia ameaçada pela garota. Já não se sentia \u201cproprietária\u201d de Felipe. Não tinha sequer a 
certeza de que estariam juntos novamente, quando ela retornasse ao Brasil. Resolveu levar 
sua vida adiante, sem preocupar-se com o que aconteceria. 
 
 Willian era sua companhia mais constante naquele país, não só pela sua 
disponibilidade de tempo, mas também porque ele falava um pouco de Português e queria 
aprender mais. Com ele, Giulia falava em seu idioma, ensinando-o. Quando saíam juntos, 
era a vez dele corrigi-la, transformando em coloquial o seu \u201cinglês de escola\u201d, como ela 
mesma dizia, brincando. 
 Ele era extremamente atraente. Seus olhos claros davam a ela a impressão de que 
ele era uma pessoa sincera. Os cabelos dele combinavam perfeitamente com as feições de 
seu rosto, de traços fortes. Acostumado à atividade física desde criança, Willian tinha um 
porte físico privilegiado. 
 Aos poucos, com o convívio, a amizade deles se fortaleceu. Cada vez que a saudade 
de Felipe apertava, era para William que Giulia corria, procurando colo. E ele estava 
sempre disponível para ela, sempre disposto a ouvi-la. Da amizade, surgiu uma forte 
atração que, a princípio, deixou Giulia confusa. Durante algum tempo, não pode entender 
como podia amar Felipe e sentir-se atraída por outro homem. Durante algum tempo, sentiu-
se incomodada com essa situação. Até que um dia, percebeu que era exatamente isso o que 
Felipe tentava lhe explicar. Que era sim, possível amar uma pessoa e sentir atração por 
outra. Além disso, ela estava extremamente carente. A ausência de Felipe, a insegurança 
por saber que ele estava com outra mulher, o fato de estar de passagem por aquele país, 
tudo contribuía para que Giulia se sentisse sozinha. E havia a saudade do Brasil. 
Constantemente, sentia falta das cachoeiras das Paineiras, da paisagem da pista Cláudio 
Coutinho, de Grumari e suas