Sedução na Net
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que, talvez, haja uma desaceleração no 
seu crescimento no futuro, mas dizer que haverá limites, é difícil. Temos que cuidar é de 
afastar grandes perigos, tais como o estabelecimento de censura ou de impostos 
exagerados nas transações online31. 
 Censura na rede sempre foi um assunto polêmico. Contudo, as pessoas ultimamente 
vinham descobrindo os filtros, que permitem que se restrinja o acesso a determinados 
conteúdos. Dessa forma, os pais protegem os filhos daquilo que julgam inadequado a eles, 
sem tolher a liberdade na internet. Ou, ainda, cada povo escolhe o que entra em suas casas 
pelo computador, de acordo com a sua cultura. 
 Conversar com Michael sobre a rede era sempre muito agradável. Porque ele não 
era somente um internauta entusiasmado. Mais do que isso, era um grande conhecedor dos 
seus vários aspectos, que sabia analisá-los de forma precisa. 
 - Vem muita novidade por aí. Existe uma nova cultura se formando, a cultura Web.- 
ele costumava dizer - Somos privilegiados. Vivemos em um momento de mudanças. Não 
somos meros espectadores. Somos personagens dessa nova cultura. 
 
 Olhando em volta, era fácil perceber o quanto as pessoas começavam a mudar seus 
hábitos em função das facilidades trazidas pela internet. Estavam habituando-se a ler 
jornais e revistas online. CDs eram coisa do passado. O objeto do desejo dos jovens não era 
mais os CD-players, mas sim os players que tocam os arquivos baixados por download de 
sites da rede. Faziam compras pela rede, fosse alimentos ou roupas. Desprezavam bancos 
ou qualquer outro lugar que pudesse significar fila e tumulto. Não se perdia mais tempo. 
Encontravam-se em cibercafés ou em chats da rede e em um ou outro, os valores eram os 
mesmos. Acabara a era de culto ao corpo. Cuidar do corpo já não era mais que um hábito 
saudável e imprescindível. A inteligência, a nobreza de espírito e a clareza de personalidade 
eram valores supremos. A humanidade se aprimorava e chegava a era da solidariedade, 
onde as pessoas cultivavam cada vez mais seus valores humanos. Eram pessoas 
preocupadas, sim, com o sucesso e o status, mas conseguiam-no através da inteligência e do 
conhecimento. Chegara a era dos geeppies , uma tribo que cujas características é a mistura 
os geeks com yuppies. 
 
 Muito mais tarde, em sua casa, Giulia não pensava em nada disso. Apenas navegava 
pela rede, procurando pelo Bad Boy, quando ouviu um som muito familiar. O alarme do 
ICQ mostrava Felipe conectado. 
 - Há quanto tempo que eu não encontrava você aqui! \u2013 ela digitou. 
 - Oi, gata! Eu andava mesmo meio longe, tenho ficado menos tempo na internet. 
 - Por quê? A namorada não deixa? Risos... 
 - Eu tenho estudado muito, sobra pouco tempo. 
 - Ela esta aí? 
 - Está na cozinha, terminando de fazer o jantar...risos... 
 
 Por um instante, veio à sua mente a lembrança de tempos atrás. Lembrou-se dos 
momentos mais simples da vida deles e emocionou-se. Eles conseguiam fazer um lanche 
 
31 Vinton Cerf, considerado o \u201cpai\u201dda internet, em entrevista a Peter Moon \u2013 Isto É \u2013 14/04/99 
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virar uma festa, um jantar virar um momento especial. Tudo era muito mais alegre quando 
estavam juntos. 
 Ainda conversaram alguns minutos. 
- Você tem conhecido muita gente aí? 
- Tenho saído com freqüência, sim. A Paulinha, que está aqui comigo, é uma 
pessoal especial, mas tem mais gente legal na área. 
- E o que você ainda está fazendo aqui, conectado? 
 
 Eles conversaram por mais alguns minutos. Felipe, então, despediu-se, avisando que 
Paula o chamava. Giulia voltou a procurar o Bad Boy . 
 Ela não o encontrou. Acionou a procura e passeou por algumas salas que eles 
costumavam freqüentar. Ele não estava em lugar nenhum. 
 Ela ainda esperou por muitas horas. Desde que se conheceram, teclavam todos os 
dias e ele nunca a deixava esperando. 
 Era muito mais tarde quando ela, finalmente, desistiu. Desligou o computador e foi 
deitar-se, decepcionada. 
 Fechou os olhos, buscando dormir, mas estava extremamente inquieta. Pensava no 
Bad Boy. Há algum tempo, vinha imaginando como ele seria. Dificilmente seria mais 
bonito que Felipe. Quem sabe tivesse outro tipo de beleza? E se ele fosse muito feio? 
 Ela tentou afastar esses pensamentos de sua mente. Queria dormir, descansar. Mas, 
estava cada vez mais agitada. Fazia alguns dias que não via Willian. Ele estava envolvido 
em um processo complicado e sobrava-lhe pouco tempo. 
 Na escuridão, todas as fantasias ganhavam formas. Pensava em Felipe. Ela fechou 
os olhos e viu o corpo dele, nu. Ela olhava para ele, admirando-o, completamente entregue 
àquele homem. Ele era o mais viril de todos, beijando sua boca, enquanto a despia da fina 
camisola que ela usava. Sentia as mãos dele tocando suas coxas e subindo pela virilha e 
então, elas desciam novamente e acariciavam suas pernas. Carinhos suaves faziam seu 
corpo relaxar. O corpo dele dançava no mesmo ritmo do dela e, então a dança se 
transformava em um verdadeiro ritual. Ela o puxava para perto de si, querendo senti-lo 
dentro dela. 
 De repente, uma rajada de vento fez bater a porta do quarto de Giulia. Ela fechou os 
olhos novamente e o viu. Mas aquele corpo junto ao de Felipe não era o dela. As mãos que 
acariciavam seu corpo eram as suas próprias mãos. Sentiu-se vazia. 
 Estava sozinha naquela noite de chuva em Nova York. 
 
 Amanhecia no Rio de Janeiro e Felipe estava ainda acordado. Ele mal dormiu 
aquela noite. Abraçado a Paula, era em Giulia que ele pensava. Ultimamente, vinha sendo 
surpreendido por um forte desejo, sempre acompanhado da imagem dela. Pensava com 
freqüência nela, lembrando dos seus momentos de amor. A atração física que existia entre 
eles parecia ter voltado mais forte do que nunca. 
 A primeira coisa que fez, ao levantar aquele dia, foi mandar um e-mail para Giulia. 
Faltava, ainda, seis semanas para ela retornar ao Brasil. Era tempo demais. Queria ir vê-la. 
 
 
 
 
 
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Capítulo XIII 
 
 A noite de céu claro, na primavera do Rio de Janeiro, prenunciava que aquela 
seria uma viagem tranqüila. Era outono em Nova York. Felipe preferia mesmo que não 
fosse inverno ou verão. Gostava de temperaturas mais amenas. 
 O vôo transcorreu calmo e o avião aterrissou alguns minutos antes do previsto. 
Giulia o esperava do lado de fora do aeroporto. Quando viu o aviso de pouso, ela inquietou-
se. Sabia que ainda levaria algum tempo até que Felipe aparecesse. Mas, ele estava alí, em 
solo americano, sob o mesmo teto que ela. Era questão de tempo, agora. 
 Nos últimos dias, ela vinha sonhando com esse momento. Nunca imaginou que o 
sonho se tornaria realidade. Mas, conversando com Felipe pelo ICQ, ela descobriu que ele 
também sentia saudades dela. E, brincando, ela lhe perguntou quando ele iria visitá-la. 
Brincando, também, ele respondeu que iria quando ela quisesse. Então, conversaram 
seriamante e alguns dias depois chegou um e-mail dele, avisando que estava indo encontra-
la. Giulia teve dois trabalhos. Para poder sumir alguns dias e ficar à disposição de Felipe, 
ela precisou arrumar desculpas convincentes para Willian e para o Bad Boy. O primeiro não 
entendeu quando ela comunicou, por e-mail, que iria viajar uns dias sozinha para uma 
cidadezinha no interior dos EUA. Embora tenha ficado irritada com as muitas perguntas 
desconfiadas que ele lhe fez, ela o tranqüilizou, dizendo que viajaria com Cindy. 
 - Vou com ela e com as amigas dela. Só vão mulheres.- ela mentiu. 
 
 Já o Bad Boy lhe desejou boa viagem e disse que ia viajar também. 
 \u201cQue cabeça boa, a dele. Nem se preocupa.\u201d \u2013 ela se surpreendeu. Era esse modo 
de ser que Felipe tentara lhe ensinar durante tanto tempo. Na época, ela não tinha condições 
de aprender. Hoje, ela não só admirava quem agia dessa forma, com esse desprendimento, 
como ela própria adotara esse comportamento. 
 
 Mas, só conseguiu agir dessa forma quando descobriu o valor da liberdade. Porque 
só respeitando a vida privada do outro,