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Sedução na Net

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ter que enfrentar filas 
em estacionamentos, sem precisar suportar lugares lotados, protegido da violência urbana.. 
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Percebeu rapidamente que as salas de bate-papo, como qualquer forma de convívio 
social, possuem regras. E que nem todas as regras estão nos manuais de segurança dos 
provedores. Facilmente assimilou essa nova forma de relacionar-se. Logo, estava 
completamente à vontade naquele ambiente. 
Quando terminou um longo namoro, ainda sem muita vontade de misturar-se às 
pessoas, foi na rede que Felipe encontrou um modo de não se sentir sozinho. Em cada sala, 
podia conversar com muitas pessoas diferentes e ir escolhendo as mais interessantes, sem 
trabalho, sem cobranças, sem grandes compromissos. 
 A primeira coisa que aprendeu foi que, tal qual na vida real, não se pode confiar em 
tudo o que lhe diziam naquelas conversas online. Nas primeiras vezes em que saiu com 
pessoas que conheceu na internet, teve algumas surpresas nada agradáveis. 
Hoje ele achava graça quando lembrava o dia em que foi, entusiasmado, conhecer 
uma garota de 27 anos, que morava na Lagoa. Ela lhe mandara uma foto muito bonita. 
Morena, tinha olhos lindos e seu cabelo era longo, liso, do jeito que ele gostava. Não 
acreditou quando a viu com os cabelos curtos, rentes à nuca, e muitos quilos mais gorda 
que na foto. Nem parecia a mesma pessoa. Pior que isso, ela insistia em dizer que cortara os 
cabelos há alguns dias e que engordara “no final de semana”. 
O ruim dessa história foi sentir-se enganado. Se ele passava horas selecionando 
pessoas que atendessem aos seus pré-requisitos, não era justo ela ter mentido daquela 
forma. Ele não ignorava que o anonimato que o computador propicia faz com que as 
pessoas sintam-se seguras e ousem coisas que não fariam na vida real. Mas, ela mentiu 
deliberadamente, ao assumir uma imagem que não correspondia mais à realidade. A foto 
que ela lhe mandara era, certamente, bem antiga. Ela havia criado uma armadilha, 
aproveitando-se das características daquele meio de comunicação. Certamente imaginou 
que o envolveria muito antes dele dar-se conta de que ela não mais correspondia àquela 
imagem agradável da foto. Ledo engano. O que ela fez foi criar uma fantasia e frustrá-la a 
seguir. Ambos perderam tempo e a oportunidade, talvez, de tornarem-se bons amigos. 
Depois disso, ele começou a tomar mais cuidado na rede. Sem censura, sem limites, sem 
repressões, muitas pessoas assumem personagens e contam histórias fictícias de suas vidas. 
Muitas são, na vida virtual, o que não podem ou não conseguem ser na vida real. 
Experimentam comportamentos diversos, emitem opiniões que nunca ousariam, inventam 
afinidades que não existem. O problema começa quando elas fazem dessas fantasias a sua 
realidade perante a outra pessoa e a envolve nessa mentira. A tal garota aprendeu da pior 
forma possível que é um erro muito grande acreditar que, nas salas de bate-papo, tem-se 
total liberdade, inclusive para mentir. A não ser que se pretenda passar o resto da vida no 
plano virtual. Ele nunca mais a procurou. 
Percebendo que mentiras eram comuns nos bate-papos virtuais, ele começou a se 
precaver. Muitas vezes, repetia a mesma pergunta, com um espaço de tempo, de formas 
diferentes. Ou então, trocava algumas frases pelo chat e, quando se interessava pela pessoa, 
levava a conversa para o telefone. Esse aparelho, tão familiar, é muito útil nessas horas. As 
pessoas, ficam mais desarmadas e têm menos tempo para elaborar as respostas. E nunca, 
nunca mesmo, ele esperava tempo demais para encontrar pessoalmente quem chamava a 
sua atenção na internet. 
 Paquerar, contudo, não era o único interesse de Felipe na rede. Assim, fez grandes 
amizades alí e, através delas, conhecia realidades distintas da sua. Eram pessoas de outros 
estados, pessoas muito mais novas e com idéias completamente diferentes. Podia falar dos 
mais variados assuntos, buscando as salas por interesse, e exercitar o inglês e o francês nas 
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salas por idiomas. Divertia-se, enfim, e descobria novas formas de ver o mundo, sem sair 
de casa. E, em tempos de crise, gastando pouco dinheiro. 
 Foi na internet que ele conheceu Giulia. Ela, morando em São Paulo e ele no Rio, 
foram pegos de surpresa certa madrugada em um chat. Começaram brincando e, quando 
perceberam, havia amanhecido. Ele quis ouvir a voz dela. Ela quis que ele ligasse. E foram 
mais horas ao telefone, até que eles fossem dormir, com o sol no meio do céu. 
Aquela paulista brincalhona, com um nick instigante, chamara a sua atenção. Nunca, 
contudo, imaginou, por um só momento, que fossem viver uma história. A distância que os 
separava, para ele, era um empecilho. Mas, as coisas foram acontecendo e ele não lutou 
contra nada. 
 Quinze dias mais tarde, ela estava indo conhecê-lo. A atração foi imediata, foi amor 
à primeira vista. 
 - Amor à primeira teclada – brincavam. 
 
No início do namoro, Giulia passava três ou quatro dias no Rio e voltava para casa. 
Logo, passava mais tempo nessa cidade, na casa dele, do que em sua própria casa. Fizeram 
planos e concretizaram-nos, numa rapidez que assustou suas famílias e seus amigos. Para 
eles, acostumados à velocidade da rede, onde tudo é imediato, não havia nada de anormal. 
Então, ela mudou-se de vez para perto de Felipe. Foram morar cercados pela 
natureza e servidos pela tecnologia, fazendo uso dela para manter-se no mercado de 
trabalho. Ambos trabalhavam com alta tecnologia, de modo que montaram uma moderna 
estrutura de comunicação. Dessa forma, trabalhavam em casa e enviavam o que produziam 
pela rede. O resto do tempo, dedicavam às coisas que mais gostavam de fazer. Esportes, 
caminhadas pela areia, passeios de barco ou de moto, longas tardes de estudos ou, 
simplesmente, não fazer nada. Apostavam que, em pouco tempo, a exemplo do que 
acontece nos Estados Unidos, as empresas brasileiras despertariam para os benefícios de 
manter seus funcionários trabalhando em casa, colaborando para melhorar a qualidade de 
vida das pessoas. Além disso, novas relações de trabalho vinham se estabelecendo, com a 
facilidade de comunicação proporcionada pela internet. Cada vez mais, a terceirização dos 
serviços propiciava oportunidades de trabalho onde o que interessava era a capacidade do 
profissional e não a sua idade, aparência ou modo como se vestia. Acreditavam que, em um 
futuro próximo, haveria oportunidades para quem realmente detivesse o conhecimento. 
Previam um futuro onde sequer haveria a obrigatoriedade de se viver nas grandes cidades, 
tendo que se sujeitar a seus problemas e a sua violência e muitas outras pessoas poderiam 
desfrutar do que eles, naquele momento, consideravam um privilégio As barreiras 
geográficas deixariam de existir, ampliando o mercado de trabalho de forma monstruosa6. 
Para as empresas isso significaria redução de custos e aumento da produtividade. Com a 
privatização das companhias telefônicas e a transmissão de dados através de outros meios, a 
internet estava cada vez mais rápida, facilitando a comunicação. Além disso, proliferavam 
no país os provedores gratuitos. 
Giulia e Felipe mantinham um apartamento no Rio de Janeiro e iam para lá sempre 
que sentiam saudades do ritmo da grande cidade. Então, passavam dias indo aos shoppings, 
freqüentando os restaurantes que gostavam, saindo para dançar, assistindo a shows e peças 
de teatro, visitando os amigos. Depois de um tempo, voltavam para casa, morrendo de 
saudades dos seus cães, e retomavam sua calma rotina. Gostavam das mesmas coisas, 
 
6 Bill Gates em “A Empresa na velocidade do Pensamento”- Companhia das Letras - 1999 
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tinham as mesmas vontades e os mesmos sonhos. Eram amigos em todas as horas, acima de 
qualquer coisa. Mas, entre eles, havia também um forte desejo, que transformava seus 
momentos de amor em verdadeiros rituais. O sexo, para eles, ia muito além do físico. Havia 
uma intensa troca de energia, como se eles fossem uma só alma, forte, feliz,