Sedução na Net
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Natal nova-iorquino. Pensou que, em outro ano, voltaria para aproveitar a festa dos 
americanos que, naquela noite, ela viu pela televisão. Nem mesmo prestava atenção ao que 
ele ainda lhe dizia. Os argumentos dele não faziam sentido para ela. Eles cearam em 
silêncio. No dia seguinte, ele voltou para despedir-se dela. Giulia ainda ficou na cidade , 
naqueles dias, despedindo-se dos outros amigos. Contudo, disse a Willian que partiria no 
dia seguinte. 
 Ela nem mesmo guardou recordação alguma do momento em que separaram-se. 
Tinha momentos muito melhores para lembrar. Queria lembrar-se dele tal qual o conhecera, 
tal qual o via nas fotos digitais que gravara em seu computador. Riscou de sua memória 
aqueles últimos dias com ele. 
 
 Antes de desconectar seu notebook pela última vez em Nova York, recebeu uma 
mensagem do Bad Boy. 
 
 
* Assunto : 
Data: Sábado, 23 dezembro de 2000 14:02 hs 
De: Bad Boy 
Para: Giulia 
 
Gata, 
Os momentos mais lindos são aqueles em que nossos sonhos se tornam realidade. 
Estou te esperando aqui. Boa viagem. 
Beijos, beijos, beijos... 
Bad Boy 
 
 
 \u201cMas, que droga, nem nesta última mensagem ele me falou o nome dele! Como eu 
vou chamá-lo?\u201d., pensou, enquanto desligava a máquina. 
 Foi tomar banho, mas ainda pensava em como seria o primeiro encontro deles. \u201cE 
se ele tiver uma voz horrível?\u201d. Esse pensamento a fez dar um salto. Nunca ouvira a voz 
dele. Nunca acessaram chats com voz ou usaram voice messager35. Telefone, estava fora de 
cogitação. Nesse aparelhinho, acabariam, certamente, se expondo muito mais do que 
haviam combinado. Mas, agora, ela estava pensando em cada detalhe e ficou preocupada. 
 \u201cE quando eu o vir, se eu não gostar dele? Será que é melhor eu ir com outra 
roupa, ao invés de usar a combinada?\u201d 
 
 A água morna acalmava Giulia, a cada sobressalto. \u201cNão, melhor eu ir com a roupa 
combinada, porque se ele resolver trocar nós não nos encontraremos nunca\u201d. 
 \u201cE se ele for feio? Acho que dá pra eu fugir no meio da multidão que vai estar na 
praia.\u201d 
 \u201cE se ele me agarrar no meio de todo mundo? Fomos tão longe pelo 
computador...Não, não tem perigo, tem polícia por lá.\u201d 
 
35 Mensagem de voz 
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 \u201cMas, eu vou olhar para a cara dele e vou falar o quê? \u2018Oi, Bad Boy\u2019. Que 
ridículo, eu não sei nem o nome de um homem que conhece cada desejo meu!\u201d 
 
 Ela se olhava no espelho, agora, enquanto secava o cabelo. 
 \u201cE se eu gostar dele e ele não gostar de mim?\u201d 
 
 Ela sentiu um leve mal-estar. Um calafrio percorreu seu corpo e, por uns instantes, 
ela imaginou que fosse perder os sentidos. Apoiou-se na pia e quase derrubou o secador. 
Quando se recuperou, concluiu que estava exausta. Já cogitara o possível e o impossível. 
Era hora de ir para o aeroporto. 
 Finalmente, reuniu as malas e o resto da bagagem. A sorte estava lançada. Havia 
pouca coisa que ela podia modificar àquela altura. E o que dependesse dela, não seria 
modificado. 
 No caminho para o aeroporto, algumas lágrimas escorreram pelo seu rosto. Embora 
tentasse pensar no Bad Boy, ela estava triste porque não recebera nenhuma mensagem de 
Felipe. 
 
Capítulo XVIII 
 
 O avião aterrissou em São Paulo, na última escala do vôo. Eram quase seis horas da 
manhã e chovia muito. Após o desembarque dos paulistas, restaram poucos passageiros no 
vôo que saíra lotado de Nova York. Agora, faltava a última etapa da viagem. Quando 
chegasse ao Rio, Giulia teria tempo de sobra para descansar. À noite, finalmente, 
conheceria o Bad Boy. 
 Contudo, a chuva aumentou e a tripulação avisou que não haveria condições de 
decolagem nas próximas horas. Os passageiros, entre cansados e revoltados, foram 
acomodando-se nas salas de espera do aeroporto. O dia feio e a lembrança de que estava em 
solo paulista deixaram-na um pouco deprimida. Passara tantos momentos alegres com 
Felipe na capital de São Paulo e agora eles iriam virar o ano 2001 separados. Arrependia-se 
por não ter perguntado a ele onde estaria, o que faria naquela noite. 
 Giulia estava ansiosa demais para ficar parada. Dormira mal durante o vôo e a 
diferença de fuso horário, mesmo não sendo tão grande, aumentava o seu cansaço. Tudo o 
que ela queria era estar em casa, na sua cama, descansando. E que, quando a noite 
chegasse, ela pudesse tomar um longo banho e, revigorada, ir ao encontro de Felipe. 
 
 Mas, era o Bad Boy quem a estaria esperando. Ela nem sabia de onde vinha tanta 
credulidade em relação ao que ele lhe dizia. Ela, que era sempre tão cuidadosa, tão 
desconfiada, estava, agora, indo conhecer um homem que lhe dizia ser exatamente do jeito 
que ela gostava. 
 E se ele fosse muito feio? E se ele tivesse alguma mania que espantasse Giulia? E se 
a química não funcionasse? Isso já lhe acontecera antes. De novo, os tais pensamentos 
voltaram a ocupar-lhe a mente. 
 Era tarde demais para concluir que errara ao se deixar envolver por uma pessoa sem 
rosto ou forma. Naquele momento, percebeu que envolvera-se, sim, pelas semelhanças que 
haviam entre seu verdadeiro amor e aquele estranho. 
 Por um instante, ela não pensou em nada. Aquela sensação de vazio, que vinha 
acometendo-a freqüentemente nas últimas semanas, voltou forte e quase a fez desmaiar. Foi 
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prontamente socorrida pelos outros passageiros que, insatisfeitos como ela, aguardavam o 
novo embarque. Somente foi deixada sozinha quando eles certificaram-se de que ela estava 
novamente bem. 
 - Não, se preocupem, eu estou fazendo exames para ver o que eu tenho \u2013 disse 
Giulia, com um largo sorriso, ao casal que insistia em permanecer ao seu lado. 
 
 Na verdade, ela estava profundamente preocupada com seu estado de saúde. Nunca 
tivera nenhuma doença grave e, agora, defrontava-se com esses súbitos mal-estares, sem 
imaginar o que pudesse ser. Começou a ter os mais estranhos pensamentos. Pensou na 
morte, pensou no quanto era frágil. Durante um tempo, tentou acostumar-se com a idéia de 
que poderia estar gravemente doente. E se lhe restasse pouco tempo de vida? 
 Ela jamais havia pensado no tempo como um fator limitante. Na sua cabeça, era 
como se fosse um bem inesgotável. Sempre haveria tempo para tudo. Se não fosse agora, 
seria depois. Aqueles pequenos desmaios estavam dando a Giulia outra dimensão dos dias, 
das horas, dos minutos.E se aquele fosse seu último Ano Novo? 
 \u201cSe for, eu quero passar com Felipe!\u201d 
 
 Num impulso, ela correu até a cabine telefônica mais próxima. Uma ligeira tontura a 
fez desacelerar. Discou o número da casa dele. Quem sabe, poderia, ainda, encontrá-lo 
naquela noite. Com um pouco de sorte, talvez ele pretendesse passar o Ano Novo com a 
família e ela poderia estar junto dele. O telefone tocou até a secretária atender. A voz dele, 
inconfundível, não deixava dúvidas de que ela não discara o número errado. Desanimada, 
ainda tentou ligar para o seu celular. Mas, ele não mudara o hábito de deixá-lo desligado. 
 O que quer que o destino lhe preparasse para aquela noite, agora, ela teria que 
aceitar, sem sequer reclamar. 
 - Quanta imprudência, Giulia \u2013 ela brigava consigo mesmo. Mas em seguida, 
lembrava-se da pessoa que estava escondida atrás da tela do computador- Impossível não 
gostar dele.- dizia para si mesma, contrariando toda a sua lógica. 
 
 Embora relutasse em aceitar a verdade, tinha consciência do que lhe acontecera. 
Como ficou tempo demais longe do país, acabou ficando extremamente sensível a qualquer 
vínculo com o Brasil. Mesmo trocando e-mails com Felipe e com alguns outros amigos 
virtuais, o Bad Boy falava das coisas da sua cidade, matando a sua saudade. E, em muitos 
momentos, ele falava com Giulia de um jeito que lembrava Felipe. Isso foi o que mais a 
encantou. Ele falava do Universo e da vida. 
 
 O resto do dia foi repleto de expectativas e falsos avisos de que, em breve, a 
situação se normalizaria e o avião partiria rumo ao Rio de Janeiro. 
 Quando eles realmente decolaram, eram dez da noite. O piloto anunciou a duração 
do vôo: meia hora. Muito