Sedução na Net
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luminosa. 
Ambos eram pessoas em busca de crescimento espiritual. Muito mais adiantado nessa 
busca, Felipe ensinava Giulia, mostrando-lhe os caminhos que já havia percorrido e 
dividindo com ela suas reflexões sobre a vida e sobre o Universo. 
Cada um tinha seu próprio computador e sua própria conexão à internet, de modo 
que podiam navegar quando bem entendessem. Um não tinha acesso à caixa postal do 
outro, o que preservava a privacidade de ambos. Sabiam que podiam viver no mundo 
virtual sem deixar que este se misturasse ao real, se quisessem. Eles queriam. 
Muitas foram as vezes em que ficavam horas teclando7, cada um em seu 
computador, com outras pessoas. Isso, para seus amigos parecia estranho, mas, para eles 
tinha uma explicação muito normal. Enxergavam perfeitamente que hoje, com a vida que se 
leva nas grandes cidades, com as preocupações de sobrevivência em um mundo em 
constante evolução, nosso núcleo familiar é muito menor. Nosso círculo de amigos, muitas 
vezes, confunde-se com nosso ambiente de trabalho e a competitividade da vida moderna 
tornou as pessoas mais individualistas, mais voltadas para si e para as suas metas. Essa 
estrutura, completamente diferente das nossas raízes, onde vivíamos em tribos, organizados 
em grandes grupos familiares, acaba gerando uma carência enorme de estar com outras 
pessoas. Por vezes, jogamos toda essa carência em uma só pessoa e destruímos um 
relacionamento que poderia ser maravilhoso. O chat é uma forma muito prática e imediata 
de suprir essa carência. Ali, sempre há alguém disposto a nos ouvir, a ser nosso amigo, a 
nos fazer companhia, mesmo que por alguns minutos. Muitas vezes, descobrimos que nosso 
grande problema não é o maior de todos, nem mesmo o mais triste. 
Giulia gostava de conversar com as pessoas nas salas de bate-papo. Nem sempre 
dizia que seu coração estava completamente ocupado, pois isso poderia condená-la ao 
isolamento ou atrair pessoas com outros fins. Nas poucas vezes em que tentou dizer que 
vivia com Felipe, logo no início de uma conversa, a resposta vinha em forma de propostas 
nada decentes. Invariavelmente, achavam que ela ali estava em busca de aventuras. Logo 
descobriu o porquê disso. Pessoas casadas, em busca de amantes na rede, eram cada vez 
mais comuns. Sem o risco de expor-se e sem muito trabalho, pessoas insatisfeitas com seus 
casamentos podiam facilmente achar ali quem lhes suprisse as necessidades. 
Isso a preocupou, quando Felipe começou a ficar mais tempo conectado do que ela. 
Então, eles tiveram um problema. 
 
Capítulo III 
 
 Houve uma época em que ele começou a inquietar-se. Era fim do ano de 1999 e eles 
foram passar as festas de fim de ano no Rio. Cada vez que iam para a capital carioca, 
parecia que mais famílias estavam morando nas ruas. O país, depois de algum tempo de 
estabilidade, passava por um novo momento de insegurança e as pessoas já não estavam 
mais acreditando no governo reeleito no ano anterior. Isso o entristecia. 
E não era só isso. Embora conversassem muito, ela não prestou atenção quando ele 
começou a dar sinais de que a sua vida não caminhava como ele planejara. 
 
7 O verbo \u201cteclar\u201d, no vocabulário da internet, é usado no sentido de \u201cestar conversando com\u201d. 
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Giulia suspeitava que aquela era apenas mais uma fase de reflexão na vida dele. 
Felipe amava a vida com tal intensidade que não cessava de buscar respostas. Como não 
existem respostas objetivas para o que é subjetivo, ele passara por várias fases reflexivas 
desde que se conheceram. Talvez, ele achasse que a vida deles estava certa demais, pacata 
demais. Podia ser que ele estivesse sentindo falta de desafios, porque era, acima de tudo, 
um empreendedor. Quem sabe, precisasse de novos sonhos, pois concretizara grande parte 
dos antigos. Ela não tinha certeza do que o estaria incomodando. A questão é que ela 
poderia ter esperado que o tempo passasse e lhe trouxesse uma resposta sobre o que 
realmente acontecia com ele. Não foi assim que ela agiu. 
O Natal e o Ano Novo não foram alegres como sempre. Ele insistia em lhe dizer que 
não havia nada de errado acontecendo. Não queria precipitar-se, porque ainda não sabia 
definir exatamente o que estava sentindo. Contudo, ela via que, gradativamente , ele perdia 
o interesse pelas coisas que mais gostava. Via sua alegria se apagando, seu olhar se 
entristecendo. 
Para ela, o relacionamento deles era um conto de fadas, com direito a príncipe 
encantado. Desde que o conhecera, sua vida girava ao redor dele. Como moravam e 
trabalhavam juntos, passavam quase todo o tempo lado a lado. Embora Felipe a 
incentivasse a cultivar hobbies e outros interesses, Giulia preferia sempre acompanhá-lo nas 
coisas que ele gostava de fazer. O prazer dela era fazer tudo como ele gostava. Não 
importava onde estivessem ou o que estivessem fazendo. Ela alegrava-se ao vê-lo sorrindo, 
brincando, feliz e fazia o impossível para que ele estivesse sempre assim. Algumas vezes, 
eles brigavam. Normalmente, essas desavenças surgiam quando ele queria um tempo só 
para si ou quando ela descobria que ele estava programando alguma coisa com os amigos, 
onde ela não cabia. Na sua lógica, nada mais justo que ser o centro da vida dele. Afinal, ela 
largava qualquer coisa para estar com ele e esperava dele a mesma atitude. 
Giulia também saia do sério quando sentia ciúmes. Ultimamente, esse problema 
vinha agravando-se por causa, principalmente, do tempo que ele passava na internet. 
Desconfiada, nas poucas vezes que ele saía sozinho, ela fazia uma verdadeira rota de 
investigação em suas coisas. Não havia uma gaveta do seu escritório que ela não 
remexesse, nenhuma anotação que ela não lesse. Quando ele voltava, ela sempre dava um 
jeito de vasculhar o seu carro, à procura de pistas comprometedoras. Ela só não vasculhava 
seu computador porque ele, cuidadoso, mantinha-o com senha de acesso. 
Ela começou a procurar onde estava o problema, quando viu Felipe cada vez mais 
introspectivo e sisudo. Se ela fazia de tudo para ele e ele dizia amá-la, não havia um motivo 
para o fato dele não ser mais o homem apaixonado dos primeiros tempos de romance. Para 
ela, contos de fadas sempre tinham finais felizes. E como não conseguiu achar outra 
explicação para a apatia dele, o caminho mais natural foi imaginar que houvesse outra 
mulher na vida de Felipe. Só podia ser isso: havia outra pessoa monopolizando a atenção 
dele. 
Ele tinha um comportamento diferente do dela nos chats. Nunca dizia que tinha 
alguém em sua vida, mandava fotos para quem quisesse vê-las e nunca negava o número do 
celular quando conhecia uma mulher interessante. Ela lhe cobrava isso, mas ele lhe dizia 
que não havia com que se preocupar. 
Ela, entretanto, cada vez mais, convencia-se de que encontrara a vilã da história. 
Dali em diante, não tiveram mais paz. O fantasma de uma possível traição ficou grande 
demais no mundo deles. 
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O que ela não enxergava é que não havia ninguém monopolizando a atenção dele, 
simplesmente porque Felipe, acima de tudo, amava a sua liberdade. As conversas na rede 
não passavam de distração, naquele momento. Amava Giulia, mas não deixava de fazer 
amizades, de ter uma vida própria. Além disso, a paixão do início abrandara e ele achava 
que era hora de construírem um relacionamento sobre outras bases. Na internet, ele 
conhecia o universo feminino cada vez mais, de modo diferente de como fizera até então. 
Felipe nunca teve dificuldades para conquistar quem lhe interessasse. Tempos atrás, 
contudo, o jogo de sedução era outro. O que primeiro o atraía eram rostos bonitos, corpos 
sinuosos, cabelos saudáveis, sorrisos encantadores. Muitas vezes, por trás dessas 
qualidades, descobria vidas sem graça e personalidades sem brilho. 
Em tempos de internet, o jogo era diferente. Felipe hoje seduzia virtualmente com a 
mesma facilidade que o faria frente a frente com uma mulher. Não que ele as iludisse. Era 
muito mais um exercício da