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Sedução na Net

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todas as coisas...Tudo se movimenta...tudo muda...Que cheiro 
gostoso tem esse macho...” 
 
 Depois do mais profundo orgasmo, sentiu-se pronta para morrer. “Prazer maior 
profundo que esse, só se for na hora da morte...”. Mas, a morte não chegou naquele 
momento. 
 
 
 “...Agora eu entendi...essa energia que gera vida...que dá partida em tudo...estou 
me sentindo a própria mãe Natureza aqui...E você, Felipe, neste momento, é o Universo no 
qual eu existo...” 
 
 Faltava pouco para amanhecer quando eles deixaram a praia. 
 
 
Capítulo V 
 
 O despertador arrancou Giulia de seus sonhos. Fazia poucos dias que se mudara 
para aquele apartamento e suas coisas ainda não estavam em ordem. Ela nem parara muito 
tempo em casa. Ainda não se acostumara à ausência de Felipe. Sofrera tanto com a 
separação que limpou de sua memória os últimos tempos, desde o dia em que decidiram 
separar-se, naquela praia linda, até aquela manhã chuvosa. Agora, olhava para frente e via 
uma nova vida começando. O único jeito de ainda continuar viva era acreditar que, adiante, 
haveria coisas boas esperando por ela. Restava-lhe achar o caminho para chegar lá. 
 Um verdadeiro temporal caía sobre a cidade. Embora ainda fosse maio, parecia um 
dia de inverno. O dia escuro não lhe deixou opção, a não ser, finalmente, colocar seu 
apartamento e a sua vida em ordem. 
 Ela ligou o computador e o conectou à internet. Todos os dias, era a primeira coisa 
que fazia ao acordar, para checar a caixa postal. Somente depois disso é que planejava o seu 
dia. Preparou o café e conectou-se ao canal de jornais. Leu vários deles e foi em busca das 
novas edições das revistas. Quando procurou pela manteiga, deu-se conta de que esquecera 
de guardar as compras de supermercado, que haviam chegado no dia anterior. 
 “Sorte que vêm nessa embalagem térmica!”, pensou, aliviada. 
 
 Então, ela vestiu uma roupa confortável e começou a colocar ordem no caos. Em 
todos os sentidos. No começo da noite, só faltava guardar os álbuns de fotografias que ela 
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deixara para o fim. Queria revê-las. Eram fotos da infância, da adolescência e do primeiro 
casamento. Mas, a grande maioria era de sua vida com Felipe. 
 Fotografia era um dos hobbies dele. E como tudo o que ele fazia era bem feito, 
havia fotos maravilhosas ali. 
 - Daqui há pouco essas fotos vão virar relíquias, substituídas pelas fotos digitais – 
ela pensou, enquanto folheava os álbuns. 
 
 Não pode deixar de lembrar-se da época em que ficava com ciúmes das horas que 
Felipe ficava conectado, com medo que ele a traísse. Fazia tão pouco tempo que isso 
acontecera e hoje ela pensava de modo muito diferente. Ela não mudou da noite para o dia. 
 Quando aceitou a separação, Giulia o fez porque viu que, mais cedo ou mais tarde, 
Felipe iria embora. Ela quis apenas preservar a amizade deles, para que nenhuma desavença 
os afastasse para sempre. Mas, sofreu dia após dia a ausência dele e, mesmo depois de ter 
passado algum tempo, ainda acordava procurando pelo corpo dele em sua cama, ainda 
sonhava com ele ao seu lado. 
 Foi desse jeito dolorido e penoso que ela cresceu. Se pudesse voltar no tempo, ela 
teria agido de outro jeito. Teria feito qualquer coisa para não passar pela dor de perdê-lo, 
pelo vazio de viver sem ele. Teria procurado, principalmente, compreendê-lo, porque sabia 
que o decepcionara. Quando ele lhe mostrou a sua necessidade de liberdade, ela não soube 
recuar e avaliar. Não parou para pensar se estava agindo conforme seu coração lhe 
mandava ou se simplesmente seguia padrões de comportamento que lhe foram ensinados, 
desde pequena. Brigava com ele, quando o via horas teclando com outras mulheres, sem se 
perguntar porque isso acontecia. Irritava-o, enfrentava-o com toda a sua agressividade, sem 
perceber o quanto aquilo o entristecia. Fora capaz de magoar várias vezes aquela pessoa tão 
querida, em nome do seu orgulho e pela sua incapacidade de ouví-lo, para saber o que se 
passava em seu coração. Agora via, claramente, que o que Felipe fazia não era traição. Se 
ele tinha o desejo de aventuras, fora sincero o suficiente para jogar limpo com Giulia. 
Colocara o relacionamento deles acima de qualquer outra coisa e ela não percebeu isso. O 
caminho mais fácil, para ela, foi culpar a internet e os relacionamentos virtuais. Hoje, via 
que, no plano virtual, os vínculos são frágeis demais para ameaçar um amor verdadeiro ou 
um casamento sólido. Se levados para a vida real, esses relacionamentos podem até ser 
considerados como traição. Mas, daí a separar um casal, havia uma grande diferença. 
 E mesmo assim, ela questionava o que era a traição. Tempos atrás, um casamento 
poderia durar toda uma vida, mesmo que não trouxesse felicidade às pessoas. Depois, 
quando as separações começaram a ser aceitas pela sociedade e as pessoas puderam, 
finalmente, corrigir eventuais erros na escolha do parceiro, elas também descobriram que 
não existe uma escolha perfeita. Os relacionamentos se tornaram cada vez mais voláteis e 
até hoje, nesses tempos tão livres, essas mesmas pessoas reclamam dos desencontros entre 
homens e mulheres. 
 Depois que separou-se de Felipe, Giulia começou a ver o casamento de outro modo. 
Concluiu que é preciso avaliar se há amor suficiente para fechar os olhos àqueles deslizes, 
que nós chamamos de traição. Achava mesmo que essa palavrinha, que dói tanto, é, muitas 
vezes, confundida. “Sentir desejo por outra pessoa é traição?”- ela se perguntou inúmeras 
vezes. Se fosse, todos nós seríamos traidores. Todos nos sentimos atraídos por outras 
pessoas, em algum momento de nossas vidas. Por que, então, um desejo tão comum, põe 
tantas vezes a perder relacionamentos felizes? Hoje ela sabia que, quando um dos dois 
sobrepõe o desejo à razão, o melhor que o outro pode fazer é avaliar se vale a pena manter 
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o casal, zelar pela sua integridade, com a cabeça fria. Nessas horas, se ambos se deixam 
levar pela emoção, o resultado será apenas brigas e desentendimentos, que podem por a 
perder uma relação verdadeira, onde havia também companheirismo, amizade, carinho. 
Minutos de descontrole podem custar um longo tempo de busca, muitas vezes infrutífera, 
de uma nova pessoa que nós possamos rotular como “ideal”. Ela finalmente, entendeu o 
significado do que Felipe tantas vezes lhe repetia: 
 
-“ Lembra-se do “Show de Truman”10?Depende do ponto de vista ...” 
 
 Não que isso signifique enganar o parceiro. Mas, desenvolver uma relação de 
tamanha confiança na qual se compreenda os altos e baixos pelos quais todo casal passa. E 
avaliar se vale a pena renunciar à exclusividade e consentir que o outro vá viver as 
sensações que está buscando. E, quando ele estiver renovado, sentir de novo as mais lindas 
emoções ao seu lado. Ela, finalmente, concluiu que, sem mentiras, não há traição. 
 
 Enquanto guardava as fotos, colocava em ordem, também, a sua mente. Claramente 
percebia que uma mudança de padrão de comportamento se desenhava naquele momento e 
que aquilo não era uma coisa inédita. Ao longo do século XX, outros fatores modificaram o 
comportamento humano e todos se adaptaram. Primeiro, foi a pílula, que libertou 
sexualmente as pessoas. Depois, veio a AIDS e acabou com a festa. Novamente, todos se 
adaptaram. Desta vez, a tecnologia veio modificar nossas vidas, na medida em que torna as 
pessoas mais próximas e os encontros mais fáceis. Isso sem falar na inversão de valores. 
Passamos as últimas décadas cultuando o corpo e agora as máquinas vêm nos lembrar que 
existem valores dentro desse corpo. E muitas vezes, tamanha é a nobreza desses valores, 
que eles são capazes de harmonizar o desarmônico e desenhar beleza em traços comuns. 
 
 Hoje,quando ouvia alguém reclamar que o parceiro passava noites conectado, ela 
sabia que isso era uma conseqüência de um relacionamento cheio de conflitos e não a causa 
deles. Estava convencida de que era momento das pessoas adotarem um novo modelo de 
união, onde o respeito mútuo e a amizade fossem fortes