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A JUS HUMANIZAÇÃO DAS REL. HUMANOS NO DIR. PRIVADO

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auto-submeta à escravidão, 
renunciando à sua liberdade, bem assim que tenha por objeto a renúncia à 
integridade física. Nesses casos, inclusive, mais do que se tratar de uma 
impossibilidade jurídica do objeto, estaríamos diante da impossibilidade 
jurídica do próprio negócio jurídico – o que o tornaria inexistente e não 
inválido.60 Em uma tentativa de sistematização – e sem a pretensão de 
sermos taxativos –, a princípio, a disposição dos direitos de personalidade 
pode ser considerada lícita quando: a) o objeto não for um bem jurídico 
essencial à pessoa humana (ex. exploração de imagem); b) ocorrer em 
razão de um justificado interesse de seu titular ou de um terceiro (ex. 
intervenção cirúrgica, doação de sangue); c) decorrente de práticas 
socialmente aceitas, mesmo pondo em risco a vida ou a integridade física 
do sujeito (ex. as lutas de vale-tudo). 
d) Absolutos: Com efeito, os direitos de personalidade atribuem 
a seu titular uma série de poderes jurídicos. Ora bem, tais poderes, que 
recaem imediatamente sobre o bem jurídico tutelado, geram em todos os 
demais integrantes da sociedade o dever de um cabal respeito aos direitos 
de personalidade, pelo que se diz serem estes oponíveis erga omnes, 
válidos perante todos. Conforme escólio de SANTOS CIFUENTES,61 os 
poderes jurídicos irradiados pelos direitos de personalidade conduzem a um 
directo enfrentamiento com todos los miembros de la comunidad 
organizada, para impedir la turbación u ofensa en el goce previsto. Nesse 
norte, como acentua CAPELO DE SOUSA,62 a oponibilidade erga omnes dos 
direitos de personalidade faz nascer em relação aos sujeitos passivos, 
habitualmente, uma obrigação universal negativa, um dever jurídico 
abstencionista de observância a esses direitos. Essa observação é 
rigorosamente apropriada, e realça um pólo que emerge da oponibilidade 
erga omnes dos direitos de personalidade. Noutro pólo, afirma-se um dever 
 
60 Estaríamos ante a categoria dos negócios proibidos. Nesse sentido, ver Marcos Bernardes de Mello. Teoria do 
fato jurídico – plano da existência. 9ª ed. S. Paulo: Saraiva, 1999, p. 73 e Pontes de Miranda, op. cit., p. 26. 
61 Los derechos personalisimos. Buenos Aires: Lerner, 1974, 149. 
62 op. cit., p. 401. 
 
Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 
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A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito 
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jurídico positivo, a fim de tutelar o bem protegido pelo direito de 
personalidade. Assim, por exemplo, verifica-se na relação entre o Estado e 
o particular. Ao lado da limitação, imposta ao Estado, de não lesar os 
direitos de personalidade, constitui-se um dever positivo de proporcionar 
condições efetivas para o pleno desenvolvimento existencial da 
personalidade humana, a gerar, inclusive, uma pretensão em favor do 
titular dos direitos de personalidade. 
e) Extrapatrimonialidade: Tal característica compagina-se com 
a essência dos direitos de personalidade, que concernem ao próprio ser do 
ser humano – e não ao seu ter. Por conseguinte, a extrapatrimonialidade 
indica a impossibilidade de aos direitos de personalidade corresponder uma 
estimativa econômica, isto é, não são suscetíveis de uma apreciação 
econômica. A personalidade não é avaliável economicamente. Importa 
sublinhar que essa característica não implica que os direitos de 
personalidade não produzam efeitos, conseqüências patrimoniais. 
f) Vitalícios e Necessários: A vitaliciedade é também uma das 
características dos direitos de personalidade. Quer isso dizer que 
acompanham o ser humano ao largo de sua existência. E são direitos 
necessários porquanto indispensáveis à plena constituição e afirmação do 
ser humano em uma comunidade de pessoas. 
g) Imprescritíveis: Importante característica que dimana do 
amparo geral que recebem os direitos de personalidade diz respeito à sua 
imprescritibilidade, isto é, a impossibilidade de extinção pelo não uso. Não 
se submetem, pois, à prescrição extintiva. Ao lado dessa impossibilidade, 
há igualmente outra: a de não serem objetos de prescrição aquisitiva. 
Sublinhe-se, quanto ao instituto da prescrição, a princípio, sua vinculação a 
pretensões de natureza patrimonial,63 o que, constitutivamente, exclui os 
extrapatrimoniais direitos de personalidade dos efeitos prescricionais. 
 
63 Já nos comentários de Clovis: Precisamente, os direitos patrimoniaes é que são prescritíveis. Não há prescrição 
senão de direitos patrimoniais. Os direitos que são emanações directas da personalidade e os de família, puros, 
 
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7 – UM EXEMPLO DE JUS-HUMANIZAÇÃO DO DIREITO 
PRIVADO: O BEM DE FAMÍLIA – LIGEIRAS ANOTAÇÕES DIANTE DE 
ALGUMAS DECISÕES JURISPRUDENCIAIS BRASILEIRAS 
O bem de família, que, grosso modo, trata de destinar a uma 
parcela de bens as características da inalienabilidade e da 
impenhorabilidade, em proveito de uma moradia para a família, conhece 
duas modalidades: a disposta no artigo 1711 do CCB,64 de natureza 
voluntária, estabelecida mediante escritura pública ou testamento, e aquela 
outra, de regime estatutário, disciplinada pela Lei 8009/1990.65 
Especificamente, no curso de nossas modestas reflexões, ainda que às 
rápidas, gostaríamos de tratar, à luz de algumas decisões judiciais, de uma 
situação: a possibilidade de uma pessoa solteira invocar o amparo da Lei 
8009/90 para proteger seu imóvel de uma penhora. 
O ponto central reside em saber qual o alcance e a aplicação 
dessa legislação. A partir de uma interpretação literal, entende-se 
amparado pelo diploma legal só e somente o imóvel da entidade familiar. 
Por via de conseqüência, é penhorável o bem de alguém que seja solteiro 
ou resida solitariamente. Basicamente, o argumento invocado para 
sustentar esse entendimento localiza-se na vinculação do intérprete ao 
texto da lei. A título ilustrativo, encontramos a seguinte ementa: Penhora. 
Imóvel residencial de pessoa solteira. Incidência da Lei 8009/90 – restando 
ao abrigo do referido diploma legal tão-somente o imóvel que serve para 
 
não prescrevem. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. vol. I, 6ª ed. Rio de Janeiro: Rio, 1975, p.443. No 
mesmo sentido, Humberto Theodoro Júnior: A prescrição é fenômeno típico das ações referentes a direitos 
patrimoniais. (Comentários ao novo Código Civil, 2ª ed. v. III, t. II, Rio de Janeiro: Forense, 2003, p. 170. 
Santoro-Passarelli, por sua vez, sustenta serem imprescritíveis os direitos de que o sujeito não pode dispor em 
absoluto. (Teoria geral do direito civil. trad. Manuel de Alarcão. Coimbra: Atlântida, 1967, p. 89.) – como o 
seriam os direitos de personalidade. Nada obstante, importa referir o asseverado por Pontes de Miranda, no tomo 
VI, p. 127, 3ª ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1970, de seu Tratado de direito privado: A prescrição, em princípio, 
atinge a tôdas as pretensões e ações, quer se trate de direitos pessoais, quer de direitos reais, privados ou 
públicos. A imprescritibilidade é excepcional. 
64 Reza o caput do artigo: Podem os cônjuges, ou a entidade familiar, mediante escritura pública ou testamento, 
destinar parte de seu patrimônio para instituir bem de família, desde que não ultrapasse 1/3(um terço) do 
patrimônio líquido existente ao tempo da instituição, mantidas as regras sobre a impenhorabilidade do imóvel

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