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Apostila Quimica Organica (USP)

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em termos da teoria do orbital molecular e em termos da teoria da ressonância. Como veremos em breve, ambas as abordagens oferecem descrições equivalentes do radical alila. Começaremos pela abordagem do orbital molecular, por ser visualizada mais facilmente. 
3.2.1. Descrição com orbital molecular de um radical alila
 	Como um átomo de hidrogênio alílico é abstraído do propeno, o átomo de carbono hibridizado em sp3 do grupo metila muda seu estado de hibridização para sp2. O orbital p desse novo átomo de carbono hibridizado em sp2 se sobrepõe com o orbital p do átomo de carbono central. Assim, em um radical alila três orbitais p se sobrepõem para formar um conjunto de orbitais moleculares ( que englobam todos os três átomos de carbono. O novo orbital p do radical alila é considerado conjugado com aqueles de ligação dupla, e o radical alila é considerado um sistema insaturado conjugado.
 	O elétron não-emparelhado do radical alila e os dois elétrons da ligação ( são deslocalizados sobre todos os três átomos de carbono. Essa deslocalização do elétron não-emparelhado explica a maior estabilidade do radical alila quando comparado aos radicais primários, secundários e terciários. Apesar de ocorrer uma certa deslocalização nos radicais primários, secundários e terciários, ela não é tão eficaz pois ocorre através de ligações (.
 	Podemos ilustrar a figura do radical alila dada pela teoria do orbital molecular de forma simples, com a seguinte estrutura.
 	Indicando com linhas tracejadas que ambas as ligações carbono-carbono são ligações duplas parciais. Isso acomoda um dos pontos que a teoria do orbital molecular nos diz: que existe uma ligação ( englobando todos os três átomos. Além disso, colocamos o símbolo ½ ( ao lado dos átomos C1 e C3. Isso denota um segundo ponto que a teoria do orbital molecular nos diz: que o elétron não-emparelhado fica na vizinhança do C1 e C3. Finalmente, o seguinte está implícito no quadro do orbital molecular do radical alila: as duas extremidades do radical alila são equivalentes. Esse aspecto da descrição do orbital molecular também fica implícito na fórmula que acabamos de ver.
3.2.2. Descrição do radical alila pela ressonância
 	Na passagem anterior escrevemos a estrutura do radical alila como A.
Poderíamos, contudo, ter escrito a estrutura equivalente B.
Escrever a estrutura B não significa que escolhemos simplesmente a estrutura A e a invertemos. O que fizemos foi mover os elétrons da seguinte maneira:
Os núcleos atômicos em si não foram deslocados.
 	A teoria da ressonância nos diz que sempre que podemos escrever duas estruturas para uma entidade química que só diferem nas posições dos elétrons, essa entidade não pode ser representada por nenhuma das estruturas em separado, mas é um híbrido delas. Podemos representar o híbrido de duas maneiras. Podemos escrever ambas as estruturas A e B e conectá-las por uma seta de duas cabeças, um sinal especial na teoria da ressonância, que indica que são estruturas de ressonância.
 	Ou podemos escrever uma estrutura única C, que mistura as características de ambas as estruturas de ressonância.
 	Percebemos, então, que a teoria da ressonância nos dá exatamente o mesmo quadro do radical alila que obtivemos da teoria do orbital molecular. A estrutura C descreve as ligações carbono-carbono do radical alila como ligações duplas parciais. As estruturas de ressonância A e B nos dizem também que o elétron não-emparelhado só é associado com os átomos C1 e C3. Indicamos isso na estrutura C, ao colocar um ½ ( ao lado de C1 e C3. Como as estruturas de ressonância A e B são equivalentes, C1 e C3 também são equivalentes.
 	Uma outra regra na teoria da ressonância é que quando estruturas de ressonância equivalentes podem ser escritas para uma espécie química, a espécie química é muito mais estável do que qualquer estrutura de ressonância (quando considerada isoladamente) iria indicar. Se fôssemos examinar seja A ou B isoladamente, poderíamos decidir que o mesmo é semelhante a um radical primário. Podemos portanto estimar a estabilidade do radical alila, como aproximadamente a estabilidade um radical primário. Ao fazer isso, estaríamos subestimando bastante a estabilidade do radical alila. A teoria da ressonância nos diz, contudo que com A e B são estruturas de ressonância equivalentes, o radical alila deveria ser muito mais estável do que ambas, isto é, muito mais estável do que um radical primário. Isso corrobora o que os experimentos têm mostrado como verdadeiros; o radical alila é até mais estável do que um radical terciário.
3.3. O cátion alila
 	O cátion alila (CH2=CHCH2+) é um carbocátion anormalmente estável (apesar de não podermos discutir evidências experimentais). Ele é até mais estável do que um carbocátion secundário e quase tão estável quanto um carbocátion terciário. Em termos gerais, a ordem relativa das estabilidades dos carbocátions é a representada abaixo:
 	Como é de se esperar, essa estabilidade anormal do cátion alila e outros cátions alílicos pode ser também explicada em termos de orbital molecular ou da teoria da ressonância.
 	Como o cátion alila é o resultado de remover um elétron de um radical alila, podemos dizer que estamos, de fato, removendo o elétron de um orbital molecular não ligante (orbital disponível).
 	Sabe-se que a remoção de um elétron de um orbital não-ligante requer menos energia que a remoção de um elétron de um orbital ligante. Além disso, a carga positiva que se forma sobre o cátion alila é realmente deslocalizada entre C1 e C3. Na teoria do orbital molecular, portanto, esses dois fatores, a facilidade de remover um elétron não-ligante e a deslocalização da carga, explicam a incrível estabilidade do cátion alila.
 	A teoria da ressonância descreve o cátion alila como um híbrido das estruturas D e E representado aqui.
 	Como D e E são estruturas de ressonância equivalentes, a teoria da ressonância prevê que o cátion alila deverá ser anormalmente estável. Como a carga positiva é localizada sobre C3 em D e sobre C1 em E, a teoria da ressonância também nos diz que a carga positiva deverá ser deslocalizada em ambos os átomos de carbono. O átomo de carbono 2 não carrega nenhuma das cargas positivas. A estrutura híbrida F inclui características de carga e de ligação de ambas, D e E.
3.4. Resumo das regras para a ressonância
3.4.1. Regras para escrever estruturas de ressonância
Estruturas de ressonância só existem no papel. Apesar de não possuírem existência própria real, as estruturas de ressonância são úteis, pois permitem descrever as moléculas, os radicais e os íons, para os quais uma estrutura de Lewis simples é inadequada. Escrevemos duas ou mais estruturas de Lewis, chamando-as de estruturas de ressonância ou contribuidores de ressonância. Conectamos essas estruturas através de setas de duas cabeças (() e dizemos que a molécula real, o radical ou o íon, é um hébrido de todas elas.
Ao escrever estruturas de ressonância, podemos mover apenas os elétrons. As posições dos núcleos dos átomos devem continuar as mesmas em todas as estruturas. A estrutura 3 não é uma estrutura de ressonância para o cátion alílico, por exemplo, pois para formá-la, teríamos que mover um átomo de hidrogênio e isso não é permitido.
Falando de um modo geral, quando movemos os elétrons, movemos apenas aqueles de ligação ( e aqueles de pares não-compartilhados.
Todas as estruturas devem ser estruturas de Lewis apropriadas. Por exemplo, não devemos escrever estruturas nas quais o carbono possui cinco ligações.
Todas as estruturas de ressonância deve possuir o mesmo número de elétrons não-emparelhados. A estrutura a seguir não é um estrutura de ressonância para o radical alila, pois contém três elétrons não emparelhados e o radical alila contém apenas um.
Todos os átomos que fazem parte do sistema deslocalizado devem ficar em um plano ou quase plano. 
4. Compostos aromáticos
 	Durante a última parte do século XIX a teoria da valência de Kekulé-Couper-Butlerov foi sistematicamente