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Eutanasia Codigo de etica

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NOVO CÓDIGO DE ÉTICA[1: Medicina, Conselho Federal ano XXIV – n.182 – março 2010]
Avanços da tecnologia e as mudanças nas relações sociais contribuíram para delinear o conjunto de regras
Limites para a distanásia (morte prolongada. com grande sofrimento, gerada por obstinação terapêutica) e proposição de cuidados paliativos. Veto à manipulação de células germinativas (células reprodutivas) e reforço à autonomia do paciente. Esses são alguns dos principais pontos introduzidos pelo novo Código de Etica Médica (CEM). Aprovada em 13.12.2009, que entra em vigor a partir de 13 de abril próximo.
"Com as mudanças implementadas. não perdemos de vista a ética profissional e conseguimos responder à altura aos desafios impostos pelos avanços científicos, tecnológicos e as relações sociais. Por isso, o Código de Ética Médica é um signifIcativo elemento de progresso social e de qualidade sanitária" . afirmou o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). Roberto Luiz d' Avila, que coordenou o grupo responsável pelo trabalho.
Oficialmente, o trabalho de revisão teve início em 14 de novembro de 2007, com a primeira reunião da Comissão Nacional de Revisão. O desfecho foi sinalizado na IV Conferência Nacional de Ética Médica, realizada em agosto de 2009. Durante o processo de revisão foram contabilizadas 2.575 sugestões - o estado que mais contribuiu foi São Paulo. com 689.
Médicos e entidades organizadas da sociedade civil tiveram oito meses para encaminhar propostas através do Portal Médico do CFM. Os principais temas propostos foram questões ligadas à medicina do trabalho, direito do médico, princípios fundamentais do CEM, responsabilidade profissional. publicidade médica, condições de trabalho e interferência mercantil das operadoras de saúde.
Mudanças - A partir de 13 de abril, a distanásia passa a ser considerada, com mais ênfase, antiética e imoral Em decorrência, veda-se de forma absoluta "a obsessão terapêutica e a cruel tirania da cura com uso de meios extraordinários e desnecessários" , como explica o 1º vice-presidente do CFM, Carlos Vital. A intenção é que não haja o prolongamento obsessivo da vida biológica por meio de equipamentos, em detrimento do respeito ao ser humano nos níveis físico, psíquico, social e espiritual.
A manipulação de células germinativas é outra prática vedada pelo novo Código. Fica proibida, por exemplo,
a escolha do sexo ou a cor dos olhos de bebês. Mas a terapia gênica (procedimento médico que envolve a modificação genética de células somáticas como forma de tratar doenças) está prevista - prática que ainda está se desenvolvendo e requer grande controle ético. "O Código está de olho no futuro. Acreditamos que a medicina do século 2I será genômica", explica o professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), José Eduardo de Siqueira, que participou dos trabalhos de revisão.
Fortalecer a tomada de decisões com liberdade é outro objetivo do novo Código. Trata-se do exercício da autonomia. Também estão presentes nas novas diretrizes éticas do CFM a reafirmação de a medicina não ser tolerada como comércio e o repúdio à concepção do doente como consumidor e da saúde como produto, reforçando a responsabilidade civil do médico com seu caráter subjetivo.
Entende-se ainda que a responsabilidade do médico não se presume, tem que ser provada para que ele possa ser penalizado - por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência. É o reconhecimento de que, na área médica, não se pode garantir cura ou resultados específicos para ninguém.
Brasil já teve cinco códigos de ética
A história da medicina brasileira apresenta cinco códigos de ética, oficialmente reconhecidos pela classe médica - o que entra em vigor no dia 13 de abril é o sexto. Mas antes do aparecimento dos códigos legitimados, iniciativas brasileiras foram desenvolvidas, como a tradução do Código da Associação Médica Americana, em 1867.
O primeiro código oficialmente reconhecido no Brasil foi o Código de Deontologia Médica. aprovado em outubro de 1944, no IV Congresso Médico Sindicalista. Quase 10 anos depois, a Associação Médica Brasileira produziu, em 1953. o Código de Deontologia Médica.
A Lei 3.268/57 remodela o Conselho Federal como entidade normativa e tribunal de ética e transfere ao mesmo a responsabilidade de voltar a alterar o Código de Deontologia Médica. A tarefa começou em janeiro de 1960 e culminou com o Congresso dos Conselhos Regionais de Medicina, em 1963. Naquele ano foi publicado o Código de Ética Médica, que entrou em vigor em janeiro de 1965.
O Código de 1965 ficou em vigor até 1984, quando foi promulgado o chamado Código Brasileiro de Deontologia Médica. O próximo código viria pouco tempo depois, em 1988, como parte do processo de redemocratização do país. Seu texto foi produzido durante a 1ª Conferência Nacional de Ética Médica. realizada em 1987, no Rio de Janeiro.
AUTONOMIA DO PACIENTE GANHA FORÇA
Uma relação médico paciente mais transparente, participativa e comprometida. Essa deve ser a consequência mais visível da entrada em vigor do novo Código de Ética Médica (CEM), segundo o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Roberto Luiz d' Avila. 'Trata-se de um grande avanço. O paciente se compromete mais, porque participa da decisão", explicou.
A questão da autonomia tem sido um dos itens mais destacados por especialistas envolvidos na revisão do Código. O corregedor do CFM, conselheiro José Fernando Vinagre, destaca que as situações que envolvem a relação médico-paciente estão entre as que originam processos ético-profissionais nos conselhos de medicina. Por isso, o novo Código quer justamente fortalecer essa relação pelo respeito à autonomia e ao diálogo livre e esclarecido. "Uma relação médico-paciente calcada na confiança, na troca de informações e no consentimento gera maior equilíbrio na relação, mesmo que o resultado não seja o esperado" , analisa.
Temas novos - Mas não é apenas o reforço da autonomia que caracteriza o novo Código. Há também a inclusão de temas considerados polêmicos, mas incontornáveis diante dos avanços da ciência e das mudanças de comportamento. Um deles é o reconhecimento da finitude da vida humana. Nos princípios fundamentais, o Código de 1988 não mencionava a mortalidade humana. Agora, o assunto é tratado no inciso XXII, ponderando que nas situações clínicas irreversíveis e terminais o médico evitará a realização de procedimentos desnecessários e propiciará todos os cuidados paliativos apropriados.
Outro ponto que passa a ser discutido é a reprodução assistida. De acordo com o artigo 15, o médico não deve realizar a procriação medicamente assistida para criar seres humanos geneticamente modificados. criar embriões para investigação ou criar embriões com finalidades de escolha de sexo, eugenias ou para originar híbridos ou quimeras. A esse respeito, veda intervir sobre o genoma humano com vistas à sua modificação, exceto na terapia gênica.
Além disso, há a aceitação das escolhas dos pacientes. O inciso XXI do Preâmbulo preceitua que o médico deverá aceitar as escolhas de seus pacientes relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas. Sendo que a responsabilidade subjetiva também foi abordada. Pelo parágrafo único do artigo 1°, no Capítulo III, “a responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida”.
Democracia marcou processo de revisão do código
Códígo de Etica Médica foi um processo caracterizado pela democracia e respeito à cidadania. Foram dois anos de trabalho durante os quais, a partir de sugestões acolhidas, os interessados puderam contribuir sugerindo a inclusão, alteração ou exclusão de artigos.
Foram realizadas três conferências sobre o tema - a primeira e a segunda na sede do CFM, em Brasília (DF), em 8 de outubro de 2008 e de 25 a 27 de março de 2009, respectivamente. A terceira, de 25 a 29 de agosto de 2009, aconteceu em São Paulo (SP).
Em um primeiro momento, especialistas participaram de discussões teóricas