A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
5 pág.
Conceituação Direito das coisas

Pré-visualização | Página 1 de 2

Rio, 9 de abril de 2012
Direito das Coisas
A principal consequência em classificar a posse como de boa fé ou de má fé é o prazo para a usucapião. Trataremos hoje da aquisição da posse, que pode ser originária ou derivada. Assim, a qualificação da posse (de boa ou má fé) e a sua forma de aquisição são relevantes para a aquisição da propriedade.
A posse derivada permite somar a posse com a do seu antecessor para fins de usucapião. Comprovar a sua própria boa fé é simples – porém, comprovar a boa fé do seu antecessor na posse é mais complexo. Se um antecessor A estava na posse durante 8 anos e o seu predecessor B estava na posse durante 2 anos, se somarmos a posse dos dois, teremos 10 anos de posse – o que corresponde ao prazo para adquirir a posse de boa fé. Porém, a boa fé do antecessor deve ser comprovada. Lembrando: de 5 anos será o prazo para a usucapião em caso da pessoa possuir um justo título. Se o prazo do antecessor for caracterizada como de má fé, o prazo para a usucapião será de 15 anos. 
Já a posse por aquisição originária ocorre quando não existe relação jurídica entre o possuidor e o seu antecessor – não ocorreu transferência direta de um para o outro. Sendo assim, na aquisição originária não existirá a possibilidade de somar o prazo de posse do antecessor com o sucessor – muitas vezes o sucessor sequer sabe quem é seu antecessor. 
A posse injusta, por exemplo, será sempre uma posse originária. A aquisição da posse originária pode se dar por apreensão ou ocupação. Uma coisa abandonada, por exemplo, pode ter sua posse adquirida por ocupação de alguém. O artigo 1.204 do CC indica a definição de posse. A partir do momento em que se exerce em nome próprio algum dos poderes inerentes à propriedade, a pessoa terá a posse.
Já a posse derivada por surgir, por exemplo, por meio de um contrato de locação. Assim, o locatário terá posse direta adquirida de forma derivada. Será derivada porque advém de um negócio jurídico, e foi feita a transferência diretamente do locador para o locatário. Não basta, porém, a celebração do contrato para que se tenha posse - a tradição é necessária para a transmissão da posse por ato inter vivos. No caso dos bens móveis, a tradição é essencial para a aquisição da propriedade. Já no caso dos bens imóveis, a chave é entregue. A tradição pode ser real/material, que ocorre de fato, ou ficta, feita por meio de um gesto que simplesmente simboliza a entrega da coisa.
Assim, a tradição é a primeira forma de transmissão da posse. A segunda forma é o constituto possessório. Isso ocorre, por exemplo, quando alguém transfere o imóvel para alguém que antes detinha apenas a posse direta (como o locatário). O locatário passará, assim, a deter a posse plena da coisa por meio do constituto possessório. Outro exemplo de transmissão por constituto possessório ocorre quando a pessoa é proprietária de um imóvel e o vende para outro, porém continua morando lá – antes, ele tinha a posse como consequência da propriedade, e depois passou a possuir apenas a posse indireta. O constituto possessório ocorre, assim, quando se transfere a posse para alguém que já a detém, porém passará a exercer a posse por outro título, com outras qualificações. Os requisitos de validade do negócio jurídico devem ser observados caso a posse esteja sendo transferida por meio de um negócio jurídico. 
A transferência da posse, ocasionando posse derivada, também pode ocorrer causa mortis – nesse caso, herdeiros e legatários passarão a deter a posse. Sendo assim, a sucessão é a terceira forma de transferência da posse de forma derivada. A herança se transmite desde logo aos terceiros – porém, ela se transfere inicialmente como um todo indivisível. O princípio que indica que os bens da herança se transferem imediatamente é o princípio de sai sina. O inventariante exercerá a posse direta, enquanto todos os outros herdeiros exercerão, de início, a posse indireta.
Assim, em resumo, a posse originária pode ser injusta ou por meio de ocupação/apreensão. Já a posse derivada pode se dar por transferência inter vivos, por meio de tradição ou pelo constituto possessório, ou causa mortis, por meio de sucessão. 
Na transferência causa mortis, sempre o tempo será somado, porque a posse se transfere com as mesmas características (artigo 1.206 do Código Civil). Ou seja, se o autor da herança estava na posse de má fé, o sucessor também estará de má fé. O artigo 1.207 indica que no caso da sucessão universal, a posse se transfere de direito e imediatamente, somando-se o prazo. 
Já na transferência inter vivos o tempo pode ou não ser somado. É interessante somar, por exemplo, quando há como comprovar que o antecessor estava de boa fé. O artigo 1.207 também fala que ao sucessor singular (que sucedeu apenas um bem específico, ou seja, de forma inter vivos) será facultado somar os tempos de posse de sucessor e antecessor. 
O artigo 1.205 indica que a aquisição da posse inter vivos não precisa ser necessariamente feita pela própria pessoa, ou seja, pode ser feito por meio de representante (legal ou nomeado). Também pode-se transferir por meio de terceiro que não possuía mandato no momento – desde que depois se faça a ratificação dos atos já feitos por ele. 
A usucapião não cabe com relação a bens fora do comércio e a bens pertencentes à União, Estados e Municípios. A usucapião é definida pela posse mais o tempo – e quanto mais favoravelmente qualificada a posse, menor será o tempo necessário. Para ingressar com uma ação de usucapião, é necessário fazer uma qualificação completa e efetiva da posse que se tem. O artigo 1.207 segunda parte indica que existe uma faculdade de unir a sua posse com a do seu antecessor para os efeitos legais – esse é uma disposição relevante para a usucapião.
O artigo 1.242 fala da usucapião ordinária, enquanto o artigo 1.238 fala sobre a usucapião extraordinária. Quando se contabiliza o prazo para a usucapião, pode-se realizar a accesio possessiones (a soma das posses). A usucapião não exige que todo o prazo legal seja de posse própria – se o somatório das posses preenche o prazo, pode-se requerer a usucapião. Deve-se, porém, ter certeza de que prazo o cliente pode comprovar a boa fé antes que se peça a usucapião ordinária. Se a boa fé alheia não puder ser comprovada, é melhor ingressar com uma ação de usucapião extraordinária – isso porque o réu da ação de usucapião, o proprietário formal, poderá ser motivado a retomar a posse devido à ação de usucapião caso esta seja indeferida por ausência de prova de que a posse foi de boa fé, mansa e pacífica. Se o prazo for maior que 15 anos, é melhor entrar com a posse de usucapião extraordinária, já que nesse caso não é necessário comprovar a boa fé ou o justo título. Assim, devemos conferir se temos o prazo necessário e a qualificação da posse como de boa fé. Logo, o somatório dos prazos é uma faculdade e não uma obrigação, e deve ocorrer dependendo dos fatos que orientam cada caso.
Se um imóvel é comprado e depois um terceiro entra com uma ação para anular o registro de imóveis e, cumulativamente, a solicite a reivindicação da propriedade (como se fosse uma ação reivindicatória). Serão dois pedidos na mesma ação judicial – mas o juiz só julgará o segundo pedido se julgar procedente o primeiro. Por que não se poderia cumular a anulação de registro com a reintegração de posse? Porque, a rigor, o que se pede com a anulação de registro é mais do que a posse – é a propriedade. Atualmente, alguns tribunais indicam que quando, por esse, se pede a cumulação da anulação de registro com a reintegração de posse, por erro, deve-se considerar que existe um pedido de ação reivindicatória implícito. Assim, se flexibiliza um pouco o pedido. 
No caso acima, se o sujeito comprou o imóvel antes dessa ação de anulação de registro e tiver, durante mais de 5 anos, utilizando o imóvel como sua moradia ou tendo feito nele obras de interesse social, ele não entrará com uma ação de usucapião – isso porque ele não possui interesse processual, já que enquanto outra pessoa não entrar com a