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A JUS HUMANIZAÇÃO DAS REL. HUMANOS NO DIR. PRIVADO

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constituir o direito, oferecendo seu real sentido –, há de se preocupar com 
o homem e com a sua vida concreta, reconhecendo que o primeiro dever 
de comportamento humano coletivo é o futuro dos homens.16 Com efeito, 
essa dignidade constituinte da pessoa é reconhecida no diálogo relacional – 
não esqueçamos: pessoa é relação –, na troca de razões e sentidos 
experienciados pelos homens no horizonte dinâmico da história. Somos 
seres comunicáveis e comunicantes, e, por meio do discurso e da ação, 
comunicamo-nos como pessoas, na presença do outro não como mero ob-
jectum, mas desvelando nossa identidade como sujeitos. O diálogo surge-
nos como um dever, constituído pela disposição de compreensão do outro. 
Deste modo, subscrevemos a sentença de JULIEN FREUND: Au surplous, il 
n’y a pas non plus des liberté et de justice sans reconnaissance de l’homme 
par l’homme.17 Nessa atitude, distinguimo-nos e afirmamos nossa 
singularidade ante nossa plural coexistência18 – ou, noutras palavras, 
afirmamos reciprocamente nossa diferença ante nossa igualdade. Ao fim e 
ao cabo, postulamos como sendo uma ordem de direito aquela que 
afirmativamente enxerga e compreende o longo mar de rostos que enche a 
terra de humanidade.19 
4 – A PESSOA HUMANA E A JUS-HUMANIZAÇÃO DAS RELAÇÕES 
ENTRE PARTICULARES 
 
15 Idem, ibidem, p. 169. 
16 El principio de responsabilidad. trad. Javier Fernández Retenaga. Barcelona: Herder, 1995, p. 227 e seguintes. 
17 L’essence du politique. Paris: Sirey, 1965, p. 699. 
18 Com Hannah Arendt, diríamos: La parole et l’action révèlent cette unique individualité. C’est par elles que les 
hommes se distinguent au lieu d’être simplement distincts(...) Sem deixarmos de lembrar, ainda com Arendt, que: 
C’est par le verbe et l’acte que nous nous insérons dans le monde humain (...). Condition de l’homme moderne. 
trad. Georges Fradier. Paris: Calmann-Lévy, 1994, p. 232 e seguintes. 
19 José Saramago. Os portões que dão para onde?, in A bagagem do viajante. São Paulo: Companhia das Letras, 
1999, p.72. 
 
Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 
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A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito 
privado 
 
O situar da pessoa humana como pedra angular do 
ordenamento jurídico implica compreender o direito a partir de um núcleo 
normativo ético-axiológico fundamental. Esse núcleo – sobre o qual o 
direito, em sua integralidade, radica20 – afirma-se como um elevado fator 
de justificação, a regular vinculativamente os sujeitos no mundo que 
compartilhamos, independente de qualquer condição singular desses 
sujeitos. Portanto, há de estremar tanto as relações dos particulares entre 
si, quanto as relações destes com o Estado. 
Pensamos ser a inteligibilidade desse núcleo ético-axiológico, 
desvelado pelo sentido da pessoa humana, que afirma sobremaneira a 
confluência do direito público e do direito privado21. 
Tradicionalmente, a divisão do direito em público e privado 
estabelecia-se: 
a) em razão da natureza dos sujeitos da relação jurídica – o 
direito público regularia as atividades do Estado, enquanto que o direito 
privado disciplinaria as relações entre particulares; 
b) em razão da natureza do interesse presente na relação 
jurídica – o direito público visaria a proteger os interesses do Estado, 
enquanto que o direito privado protegeria os interesses do particular; 
c) pela forma da relação jurídica – se a relação fosse de 
subordinação, estaríamos diante do direito público, se a relação fosse de 
coordenação, em que as partes ocupam um mesmo plano relacional, 
falaríamos em direito privado. 
Os critérios acima elencados, ante a percepção da realidade, 
mostram-se insuficientes. Basicamente, a estrutura e a dinâmica social 
 
20 Benemérito de menção, o estudo sobre a dignidade da pessoa humana e suas implicações no universo jurídico, 
da Doutora Maria Celina Bodin de Moraes, p105-147, in Constituição, direitos fundamentais e direito privado. 
org. Ingo Wolfgang Sarlet. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003. 
21 Sobre a dicotomia público/privado, sublinhamos o relevante estudo de Eugênio Facchini Neto, intitulado 
Reflexões histórico-evolutivas sobre a constitucionalização do direito privado, in Constituição, direitos 
fundamentais e direito privado. org. Ingo Wolfgang Sarlet. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003. 
 
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A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito 
privado 
 
contemporâneas impuseram alterações no quadro da distinção 
público/privado. Em nossas complexas sociedades, torna-se extremamente 
difícil distinguir, de modo inequívoco e apriorístico, os interesses 
particulares e dos públicos. A dicotomia público/privado acentuou-se em 
um período histórico no qual se afirmavam os postulados do absenteísta 
Estado liberal22. Com a superação desse tipo de Estado ocorreu, 
progressivamente, uma inter-relação entre as esferas públicas e privadas. 
De outra banda, o poder imperial do Estado passou a sofrer 
limitações23 e, conseqüentemente, as relações travadas com os particulares 
cada vez mais passaram a se dar de modo isonômico. A essência da 
relação entre os particulares e o Estado contemporâneo não se caracteriza 
pela subordinação ilimitada daqueles aos poderes – ou ao arbítrio – deste. 
Ao contrário, firma-se um pacto, chancelado pela ordem constitucional, em 
torno da promoção e do pleno desenvolvimento autônomo das pessoas. O 
Estado assume o papel de tutela dos direitos fundamentais, bem como, 
através de políticas públicas, a tarefa de promovê-los – o que, inclusive, 
fundamenta e justifica sua intervenção.24
A onda democratizante, vivenciada pelo mundo ocidental no 
último século, e que varreu do mapa arcaicas ordens ditatoriais,25 
igualmente contribuiu para a aproximação entre o espaço público e o 
privado. A idéia veiculada pela democracia, desde suas origens, traz 
consigo uma exigência: que a administração dos assuntos públicos seja de 
competência pública – ou exercida diretamente pelos cidadãos, ou através 
de seus representantes. Mas isso não significa que a vida e os assuntos 
particulares enclausurem o indivíduo em torno de si mesmo, como se o 
público e o privado constituíssem dois hemisférios incomunicáveis da 
 
22 Ver Francisco Amaral. Direito Civil – introdução. 4ª ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p.. 69. 
23 A corroborar o afirmado, observamos o fenômeno da contratualização da lei, ou seja, o fato de, no processo de 
formação da lei, não mais se constatar um ato de soberania estatal, mas o acordo prévio de grupos organizados da 
sociedade civil, forjando um tipo de contrato, conforme bem sublinha Ricardo Lorenzetti. Fundamentos do direito 
privado, trad. Vera Jacob de Fradera, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1998, p. 58. 
24 Sobre esse tema, ver Pietro Perlingieri, op. cit. p. 111 e seguintes. 
25 Como exemplo dessa onda, referimos: a Revolução dos Cravos, em Portugal, a queda das ditaduras latino-
americanas e dos regimes que dominavam os países do leste europeu. 
 
Texto fruto do Grupo de Pesquisa Prismas do Direito Civil-Constitucional da PUCRS. 
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A Jus-humanização das Relações Privadas: para além da constitucionalização do direito 
privado 
 
sociedade. Essa circunstância, por promover demasiadamente os interesses 
individuais, arriscaria a integridade da nossa tessitura social, possibilitando 
a abertura de severas fendas na arquitetura sociodemocrática. Muitas 
vezes, os interesses particulares