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HORTA  RAMOS  Entre as veredas da Cultura e da Civilização

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a palavra cultura foi, em um 
primeiro momento, trabalho de antropólogos e sociólogos, os quais se limitavam a enumerar as 
características constitutivas comuns aos diversos grupos sociais que se empenhavam em estudar. 
Dessa maneira, as primeiras definições eram enumerativas, ocupando-se em descrever os elementos 
da cultura, a exemplo dos conceitos de TYLOR, acima transcrito, e, mais tarde, o de HERSKOVITS: 
 
23 KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 14. 
24 KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 285-286. 
25 Estes escritos são Allgemeine Culturgeschichte der Menschheit, cujo primeiro volume foi publicado em 1843, e Algemeine 
Culturwissenschaft, publicada em 1854, a primeira uma História da Cultura e a segundo uma Ciência da Cultura. Cf. 
KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 14. 
26 “Culture or civilization, taken in its ethnographic sense, is that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom, 
and any other capabilities and habits acquired by man as a member of society”. Cf. TYLOR, Edward Burnet. The Origins of Culture. 
New York: Peter Smith, 1970, p. 1. Vale observar que Tylor ainda não fazia distinção entre cultura e civilização. 
27 Abordaremos oportunamente as contraposições entre a palavra cultura e civilização. 
“A cultura é essencialmente uma elaboração que descreve o corpo total de 
crenças, comportamento ou conduta, saber, sanções, valores e objetivos que 
assinalam o modo de vida de um povo”28. 
Os antropólogos, ocupados em reunir, ordenar e classificar os dados da cultura, estavam, 
até meados do século XX, pouco empenhados na tarefa de teorizar ou de alcançar a essência do 
problema29. Nada obstante, estas primeiras definições permitiram que se refletisse sobre os 
elementos constitutivos da cultura, a partir dos quais foi possível tecer análises mais profundas e 
buscar a compreensão de suas relações. 
A partir de meados do século XX, a palavra cultura passou a apresentar uma conotação 
técnica nos meios científicos, significando o conjunto de atributos e produtos de uma sociedade humana, 
diversos dos da natureza, transmitidos por mecanismos que não os biológicos-hereditários30. 
 
3. DIMENSÕES CONCEPTUAIS DE CULTURA 
Várias foram as tentativas de encontrar os elementos centrais do processo cultural. Idéias, 
crenças religiosas, tecnologia, família, estrutura da organização social são alguns dos vários fatores 
considerados. Mas, conforme observam KROEBER e KLUCKHOHN, evitou-se sobremaneira eleger “o 
elemento” dinamizador da cultura31. 
Todavia, dentre as várias definições pesquisadas, pudemos verificar algumas constantes, a 
partir das quais esboçamos uma breve sistematização32. 
O caráter histórico da cultura33 é freqüente nas definições do termo. Ora, a cultura compõe-se 
de um conjunto de atributos e produtos transmitidos através das gerações, num processo de 
acumulação e evolução social, que só pode ser compreendido numa perspectiva histórica. 
 
28 HERSKOVITS, Melville J. Antropologia cultural; Man and his Works. Tomo III. Trad. Maria José de Carvalho e Hélio 
Bichels. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1963, p. 457. 
29 O problema é levantado por Kroeber e Kluckhohn: “Even in intellectual and semi-intellectual circles the distinction between the 
general idea of culture and a specific culture is seldom made. […] The lack of clarity and precision is largely the responsibility of anthropology. 
Anthropologists have been preoccupied with gathering, ordering, and classifying data, […] only very recently [they] have become conscious of 
problems of theory and of the logic of science”. Cf. KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 69. 
30 Vale anotar a importante contribuição de WILHELM DILTHEY para a afirmação da independência das Ciências do 
Espírito frente aos métodos das Ciências da Natureza, tendo estabelecido importantes considerações sobre as 
especificidades de seus pressupostos. V. DILTHEY, Wilhelm. Introduccion a las Ciencias del Espiritu. Trad. Eugenio Imaz. 
México: Fondo de Cultura Econômica, 1949. 
31 KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 356. 
32 KROEBER e KLUCKHOHN apresentam uma extraordinária coleção de definições de cultura, recolhidas das obras de 
mais de uma centena de antropólogos, sociólogos, filósofos, historiadores e cientistas das mais variadas searas do saber. 
Tais definições encontram-se na segunda parte de sua obra Culture. Cf. KROEBER; KLUCKHOHN, Culture, cit., p. 77-
277. 
33 A expressão é evidente pleonasmo. As absolutas conexões e interdependências entre Cultura e História são também as 
que permeiam as interfaces entre Historicismo e Culturalismo. Sobre essas importantes correntes, v. SALDANHA, 
Nelson Nogueira. Historicismo e Culturalismo. Rio de Janeiro, Recife: Tempo Brasileiro, Fundação do Patrimônio Histórico 
e Artístico de Pernambuco, 1986. 
Sabe-se que conhecimentos e hábitos não são herdados por via genética. Ao contrário da 
atividade dos animais, que é, sobretudo, instintiva, a atividade mental do homem é adquirida. 
Tomemos o próprio exemplo usado por KROEBER34: Se se retiram ovos de formigas de um 
formigueiro, colocando-os em outro formigueiro desabitado, no qual se reproduz apenas as mínimas 
condições físicas do primeiro, as formigas, tão logo nasçam, repetirão instintivamente as atividades 
de sua espécie, sem qualquer alteração. Se, todavia, isolam-se crianças da mais alta classe, da 
civilização mais avançada, numa ilha deserta, sem qualquer acesso à civilização de origem, elas 
crescerão e formarão uma sociedade sem qualquer semelhança com aquela. Perder-se-iam os 
símbolos e as conquistas da cultura originária. 
Desse modo, a cultura não se adere em nossa composição material (ou animal), mas 
transmite-se historicamente a partir da capacidade espiritual humana de aprender, recriar e transmitir 
o patrimônio cultural do qual somos, ao mesmo tempo, portadores e autores35. 
Nesse sentido, MIGUEL REALE ensina que “toda cultura é histórica e não pode ser 
concebida fora da história”36. Do mesmo modo, PARK e BURGESS afirmam que “a cultura de um 
grupo é a soma total e a organização da herança social que adquiriu significado em função da 
capacidade racional e da vida histórica do grupo”37. 
Nesta perspectiva, a cultura é um processo38 no qual um grupo humano cria seu próprio 
modo de vida e o transmite através das gerações, num ritmo de acumulação e transformação 
contínuas. 
Outra constante nas considerações acerca da cultura é a afirmação de que sua propriedade 
mais importante e distintiva repousa em seus significados e valores. 
O conteúdo da cultura, segundo WARD H. GOODENOUGH, compreende as concepções 
acerca do mundo, as crenças, os significados e os valores, mediante os quais se explicam os 
 
34 KROEBER, ao negar a evolução orgânica da cultura e sua transmissão por herança genética, afirma que “toda civilización 
sólo existe en la mente. La pólvora, las artes textiles, la maquinaría, las leyes, los teléfonos, no se transmiten en sí mismos de hombre a 
hombre ni de generación en generación, al menos de una forma permanente. Es la percepción, el conocimiento y la comprensión de ellos, sus 
ideas en el sentido platónico, lo que se traspasa. Todo lo social sólo puede tener existencia gracias a la mente”. Cf. KROEBER, A. L. Lo 
Superorgánico (1917). In KAHN, J. S. (org.). El Concepto de Cultura: Textos Fundamentales. Trad. José R. Llobera, Antonio 
Desmonts y Manuel Uría. Barcelona: Editorial Anagrama, 1975, p. 46. 
35 Nesse sentido temos a distinção de Kroeber: “En resumen, la evolución orgánica está esencial e inevitablemente conectada con los 
procesos hereditarios; la evolución social que caracteriza al progreso de la civilización, por otra parte, no está ligada, o al menos no 
necesariamente, con los factores hereditarios”. Cf. KROEBER, Lo Superorgánico. In KAHN, El Concepto