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ANTONIO E HANNA DAMASIO

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e pessoas, mas que o cérebro conserve uma "impressão" 
da atividade neuronal que se exerce no córtex sensorial e motor durante sua 
interação com um objeto. Esta impressão corresponde a um circuito de neurônios e 
sinapses cuja atividade recria aquela que caracterizou cada objeto ou evento 
memorizado. Ativada, uma impressão pode suscitar outras associadas (ver pág 
48). O cérebro registra não só os diversos aspectos da realidade exterior, mas 
também o modo pelo qual o corpo explora o meio e reage a ele. Os sistemas 
neuronais que descrevem as interações entre uma pessoa e um objeto registram um 
encadeamento rápido de micropercepções e de microações quase simultâneas. Modificações 
ocorrem em várias regiões especializadas, cada uma subdividida em vários centros,- a área 
visual, por exemplo, é composta de centro menores, especializados no processamento de 
cor, forma e movimento. 
 Mas onde são conservadas as impressões que ligam estas atividades fragmentadas? 
Acreditamos que seja em grupos de neurônios para os quais convergem axônios 
provenientes de regiões mais externas, de onde partem axônios que enviam 
retroativamente os sinais para áreas mais internas. Uma reativação destas zonas de 
convergência excita simultaneamente vários grupos de neurônios anatomicamente 
separados e dispersos, que reconstroem a atividade mental previamente registrada. 
 Se o cérebro armazena as informações relativas aos objetos e seus usos, também 
ordena estas informações, de forma que eventos e conceitos associados (formas, cores, 
trajetórias no espaço e no tempo, movimentos e reações corporais) possam ser reativados 
simultaneamente. Estas informações são classificadas com a ajuda de outra impressão, 
situada numa zona de convergência diferente. As representações das principais 
propriedades dos objetos e dos eventos estão assim imbricadas: em relação à xícara, por 
exemplo, o cérebro registra dimensões, forma, matéria, estado sólido, deslocamento ao 
longo de uma trajetória precisa e a sensação que provoca nos lábios. 
 A atividade dessas redes neuronais convergentes assegura a compreensão e a 
expressão da linguagem. Ativadas, estas redes reconstituem os conhecimentos para 
remetê-los à consciência, onde estimulam os centros de mediação entre conceitos e 
linguagem e onde permitem a formulação correta de palavras e estruturas sintáticas 
associadas aos conceitos. Como o cérebro registra simultaneamente aspectos variados das 
percepções e das ações, estas redes produzem também representações simbólicas como as 
metáforas. 
 As lesões nas regiões do cérebro correspondentes a estas redes provocam deficiências 
cognitivas associadas às diversas classes de conceitos processados pelo cérebro; a 
acromatopsia é um exemplo. Elisabeth Warrington, do Hospital das Doenças Nervosas, de 
Londres, descobriu que certos pacientes são incapazes de reconhecer objetos de um 
determinado tipo. Junto com Daniel Tranel, mostramos que sistemas neuronais específicos 
processam conceitos de certos tipos. 
 Um de nossos pacientes, por exemplo, não consegue manipular os conceitos ligados a 
entidades isoladas, como uma pessoa, um lugar ou um evento particular, embora tenha 
conhecido estas entidades antes de sua lesão cerebral. Ele perdeu ainda os conceitos ligados 
aos membros de categorias particulares: assim, vários animais se tornaram para ele 
completamente desconhecidos, embora saiba tratar-se de seres vivos. Diante da imagem de 
um rato, ele disse tratar-se de um animal, mas não tinha idéia do seu tamanho, hábitat ou 
comportamento. 
 Curiosamente, as capacidades cognitivas desse paciente ainda permitiam que ele 
manipulasse conceitos ligados a outra categorias contendo vários elementos. Ele reconhecia 
e sabia nomear ferramentas. Dispunha também de conceitos de atributos de objetos: sabia, 
por exemplo, o que era uma coisa bela ou feia; reconhecia ainda o sentido de idéias que 
exprimem um estado ou uma atividade, como estar apaixonado, saltar ou nadar, e 
compreendia relações abstratas entre entidades ou eventos. Em suma, se não podia mais 
manipular os conceitos relativos a entidades designadas por nomes comuns ou próprios, ele 
processava normalmente os conceitos referentes a atributos, estados, atividades e relações, 
definidos na linguagem por adjetivos, verbos, preposições ou conjunções; as estruturas 
gramaticais não lhe apresentavam qualquer problema, e a sintaxe de suas frases era 
impecável. 
 DOMINÂNCIA CEREBRAL 
 Lesões semelhantes às deste paciente nas regiões anteriores e médias dos dois lóbulos 
temporais deterioram o sistema conceituai do cérebro. As lesões do hemisfério esquerdo, 
próximo à cissura de Sylvius, perturbam mais a formação de palavras e frases. Essa área é 
a mais estudada pelos especialistas em linguagem, desde que Paul Broca e Carl Wernicke 
descobriram, há mais de 150 anos, que as estruturas da linguagem aí se localizam. Broca e 
Wernicke comprovaram também o fenômeno da dominância cerebral: na maioria dos seres 
humanos - 99% dos destros e 30% dos canhotos - os centros da linguagem estão no 
hemisfério esquerdo. 
 O estudo de pacientes afásicos (que perderam parcial ou totalmente o uso da palavra) 
confirma a importância de estruturas do hemisfério esquerdo na linguagem. Edward Klima, 
da Universidade de San Diego, e Ursula Bellugi, do Instituto de Estudos Biológicos, em San 
Diego, mostraram que lesões nas estruturas cerebrais de formação das palavras são 
acompanhadas por afasias da linguagem gestual. Assim, alguns surdos que apresentam 
uma lesão cerebral do hemisfério esquerdo perdem a faculdade de compreender ou de 
produzir os signos da linguagem gestual. Como o córtex visual deles está intacto, a 
deficiência não provém de uma má percepção visual dos signos, mas da incapacidade de 
interpretá-los. 
 
COMPONENTES DE UMA LINGUAGEM 
ARTICULADA 
FONEMAS - Elementos sonoros cujo encadeamento em uma 
ordem determinada forma os morfemas. 
 
MORFEMAS - Unidades lingüísticas mínimas que têm um 
sentido ou cuja combinação forma as palavras (nas linguagens 
gestuais, os equivalentes dos morfemas são os signos visuais-
motores). 
 
SINTAXE (OU GRAMÁTICA) - Arranjo de palavras em frases 
segundo uma ordem que obedece regras precisas. 
 
LÉXICO - Conjunto de palavras de uma língua. Cada elemento 
do léxico indica os morfemas e a sintaxe da palavra 
correspondente, mas não fornece seu sentido. 
 
SEMÂNTICA - Sentido correspondente a cada elemento do 
léxico e a cada frase possível. 
 
PROSÓDIA - Entonação vocal suscetível de modificar o sentido 
literal das palavras e frases. 
 
DISCURSO - Seqüência de frases que forma uma narração. 
 
 
 Por outro lado, os surdos que apresentam lesões no hemisfério direito, longe das áreas 
da linguagem, tornam-se por vezes incapazes de ver os objetos situados na metade 
esquerda de seu campo visual ou de perceber as relações espaciais entre os objetos, 
embora conservem a capacidade de compreender e utilizar a linguagem gestual. Portanto, o 
hemisfério esquerdo contém os centros de processamento da linguagem, quaisquer que 
sejam as vias de transmissão dos signos lingüísticos. 
 Alguns neurologistas mapearam os sistemas neuronais da linguagem ao localizarem as 
lesões de pacientes afásicos,-outros analisaram estes sistemas estimulando o córtex 
cerebral de pacientes epiléticos que passavam por uma cirurgia, registrando depois suas 
respostas eletrofisiológicas. 
 As lesões da região perisilviana posterior perturbam a composição dos fonemas em 
palavras e a seleção das palavras. Pacientes com lesões como esta são incapazes de 
pronunciar corretamente certas palavras (dizem "felefante" em vez de "elefante", por 
exemplo) e substituem por vezes palavras que lhes faltam por outras de sentido mais geral 
("pessoa" em vez de "mulher") ou por uma cujo sentido está ligado ao conceito que querem 
exprimir ("chefe" em vez de "presidente"). Victoria Fromkin, da Universidade de Los 
Angeles,