Logo Passei Direto

A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
4 pág.
TextoSobreCognição

Pré-visualização | Página 1 de 2

Os principais paradigmas cognitivos
Simplificando, podemos distinguir entre três paradigmas cognitivos que se sucederam na história. Na verdade, o segundo e o terceiro convivem hoje, mesmo se o terceiro está ganhando cada vez mais espaço:
1. O paradigma cartesiano (a partir do filósofo René Descartes – sec. XVII -, cujo nome em latim era Cartesius). Para Descartes mente e corpo eram entidades completamente distintas. O que era do corpo não podia ser da mente e o que era da mente não podia ser do corpo. A mente não ocupava algum lugar específico e coincidia com a alma. Esse paradigma durou pelo menos até o final do séc. XIX, quando surge a nova disciplina da psicologia e, com ela, o objetivo de estudar a mente com os instrumentos e as metodologias das ciências naturais. Até esse momento, a mente não tem um lugar. Hoje ninguém segue mais esse paradigma, mas ele deixou heranças profundas, principalmente no cognitivismo clássico.
2. O paradigma do cognitivismo clássico. Nesta visão, que surge a partir dos anos de 1950 com algumas figuras de maior relevância como Fodor e Chomsky, e que ainda é muito forte, continua uma certa separação entre mente e corpo, mas dentro de um paradigma naturalista. Portanto a mente é uma parte do corpo, mais exatamente o sistema nervoso central. O sistema nervoso central, com a atividade neuronal, é responsável por produzir as “representações mentais” em formato amodal, ou seja, abstrato. Isso significa que agora a mente tem um lugar dentro do corpo, mas o corpo é dividido: o sistema nervoso central é responsável, entre outras coisas, pelas representações mentais, enquanto o resto do corpo é externo à mente. As atividades sensoriais recebem o input do ambiente, e as atividades motoras são responsáveis pelas ações. Os inputs são elaborados na mente (no sistema nervoso central) e depois geram os outputs, que são os comportamentos. A atividade mental não mantém nada do formato sensorial dos inputs (visual, acústico, tátil, etc.) e os outputs não têm relação direta com os inputs. 
Nessa visão, uma vez que chega na mente, um estímulo perde qualquer característica da sua fonte sensorial. Por isso se diz que o formato mental é amodal, ou seja, não mantém características da modalidade com o qual é adquirido. Isso dá origem à chamada de metáfora do computador. É como se a mente fosse um software dentro de um hardware. A forma do hardware (silício ou carne e osso) não muda o fato que o que conta é a computação feita dentro do processador (sistema nervoso central/cérebro). Consequências fundamentais dessa maneira de entender a mente são: internismo (a mente está escondida dentro uma parte do corpo); representacionalismo (a mente produz representações abstratas que nada têm do formato sensório-motor com os quais são adquiridas e manifestadas); causalidade (se trata de uma computação por nexos causais e seriais: A causa B que causa C, etc.; isso gera também uma estrutura modular, com diferentes módulos do cérebro especializados em computações específicas, que depois se integram).
3. A cognição embodied. Por volta dos anos de 1990 começa um percurso de pesquisa que levou a uma mudança fundamental na maneira de entender a cognição humana. Até então o único paradigma dominante era aquele sintetizável na metáfora do computador, segundo o qual a mente humana é comparável a um software e para estuda-la é substancialmente irrelevante conhecer o hardware, ou seja, o corpo. Hoje as novas ciências cognitivas constituem um mosaico de teorias que cada vez mais têm em comum a ideia de que grande parte dos processos cognitivos dependa do aspecto motor do cérebro, ou seja de processos senso-motores que governam o nosso corpo. A ação representa a lente sob a qual estudar a percepção do ambiente e social, as emoções, os processos de tomada de decisão, a linguagem, os conceitos e até a construção da moral. Se essa visão é uma novidade do ponto de vista experimental, de fato recupera paradigmas filosóficos do pragmatismo e da fenomenologia. Essa nova visão é chamada de embodied cognition.
O princípio de base é que o desenvolvimento do sistema nervoso é fundamental em primeiro lugar para organizar e realizar ações e não para “pensar”. Para os organismos não dotados de um sistema motor não faz algum sentido perceber e pensar, que seriam apenas um gasto de energia inútil. Qualquer avaliação para tomar uma decisão só faz sentido se temos a possibilidade de agir consequencialmente a essa decisão. Os limites da nossa capacidade de ação por sí limita os processos de tomada de decisão. 
O antigo paradigma dominante sobre a cognição humana se apoiava na metáfora do computador e naquela (negativa) do sanduiche. O programa cognitivista, elaborado a partir dos anos de 1950 e dominante até os primeiros anos de 1990, se baseia na ideia segundo a qual os processos cognitivos são procedimentos computacionais realizados em cima de representações simbólicas abstratas. Por isso é conhecido também como “teoria representacional e computacional da mente”. Se trata de um paradigma que possui uma tradição nobre na filosofia ocidental, de matriz fundamentalmente cartesiana. As palavras chaves das visões oriundas dessa matriz são “computação” e “representação mental”. 
Segundo as visões embodied, cada representação na nossa mente deve ser interpretada não somente com base em seu conteúdo, mas também com base no formato em que é expressa. Na visão do paradigma tradicional essas representações não possuem nenhuma relação com as modalidades sensoriais com as quais nós adquirimos informações do mundo. Elas são concebidas como o resultado de um processo de tradução a partir de uma linguagem sensorial (a linguagem dos nossos órgãos sensoriais que recebem as informações do mundo) em algo abstrato. Por isso essas representações são ditas a-modais. Não existe nelas nenhum rastro da modalidade sensorial com as quais foram adquiridas. Uma vez adquiridas essas representações, a informação sensorial originária se torna inútil. Não existe mais nada dela quando, por exemplo, lembramos uma experiência ou a contamos a outra pessoa, ou realizamos alguma inferência a partir dela. O formato com o qual guardamos no nosso cérebro o conceito, por exemplo, de bem-te-vi, não guarda nada da experiência visual ou auditiva que tivemos dele, é uma abstração pura, como qualquer outro conceito.
Essa visão, com uma metáfora crítica, foi comparada a um sanduiche mental. A mente seria como um sanduiche que possui duas extremidades pouco proteicas (o sensorial e o motor) e como conteúdo interno o verdadeiro produto nutritivo, ou seja, os processos cognitivos. Assim, para estudar esses processos, poderíamos jogar fora o pão do sanduiche (o corpo) e nos ocupar somente da carne, a mente. Hoje tem se tornado cada vez mais difícil pensar que os processos cognitivos possam ser estudados ignorando o domínio sensório-motor e o ambiente natural e social com e nos quais os processos cognitivos acontecem. Os processos cognitivos se tornaram grounded (enraigados no ambiente), situados ou, embodied (corporificados), na formulação mais usada. As novas ciências cognitivas recusam o antigo dualismo corpo-mente e também aquele mundo-mente. Esse dualismo é recusado em dois sentidos: em um sentido se recusa a ideia que a mente seja um espaço privado que reflete o mundo de maneira abstrata, independente das modalidades sensoriais com as quais seu conteúdo é adquirido; em outro sentido se recusa a ideia que os processos cognitivos possam ser estudados independentemente do ambiente (físico, natural, social, cultural) em que eles acontecem. Cai assim o dualismo razão-emoção, o dualismo entre si mesmo e o outro, o dualismo entre perceber e agir, e naturalmente aquele entre mente e corpo. A mente não é mais vista como algo que por acidente está dentro de um corpo (e seria o mesmo se estivesse dentro um outro continente), mas como algo que é o nosso corpo.
Um primeiro passo para superar o dualismo e a metáfora do sanduiche é entender que não podemos separar a percepção e a ação dos processos
Página12