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ApostilaMódulo1

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Alguns conceitos preliminares
Raciocínio lógico, raciocínio indutivo e raciocínio abdutivo
O raciocínio humano pode ser de natureza lógico-dedutiva ou empírico-probabilística. Uma maneira de explicar as diferenças entre os dois é dizer que o raciocínio lógico-dedutivo parte do geral para chegar ao particular, enquanto o raciocínio empírico parte do particular para chegar ao geral. Mas o que isso significa?
O raciocínio lógico-dedutivo parte de uma ou mais premissas que não são fruto de observação e, portanto, não são necessariamente verdadeiras, mas que por alguma razão são consideradas válidas a priori, ou seja, são postuladas. Se essas premissas são verdadeiras e o procedimento lógico é aplicado corretamente, então as consequências do raciocínio também são necessariamente verdadeiras. O raciocínio lógico, partindo de premissas não demonstradas, mas aceitas, chega a conclusões 100% válidas, mas que serão verdadeiras somente se as premissas também forem verdadeiras. 
O raciocínio empírico parte da observação, ou seja, da experiência com dados observáveis, e a partir disso extrai generalizações que têm maior ou menor probabilidade de serem verdadeiras. Neste caso, as premissas são fruto de observação, e, portanto, em princípio, verdadeiras. Mas como a nossa experiência é limitada, e é sempre possível encontrar novos dados diferentes, as conclusões são de natureza probabilística.
Exemplos de raciocínio lógico-dedutivo são os seguintes:
(2) Premissa 1: Sócrates é um homem
Premissa 2: Todos os homens são mortais
Consequência: Sócrates é mortal
(3) Premissa 1: Kino é um macaco
Premissa 2: Todos os macacos gostam de TV
Consequência: Kino gosta de TV
(4) Premissa 1: Todos os alunos da UFMG querem aprender
Premissa 2: Estes alunos são da UFMG
Consequência: Todos estes alunos querem aprender
Observem que as premissas não são fruto de observação, mas são postuladas; observem também que, se aceitamos essas premissas, nós podemos colocar quantas outras premissas novas quisermos sem conseguir tornar falsa a consequência. Isso significa que, se as premissas são verdadeiras, a consequência é necessariamente verdadeira, pois não pode ser destruída com novas premissas. Nos três exemplos acima o procedimento lógico é igualmente apropriado, mas as premissas do primeiro caso parecem verdadeiras, e não temos dificuldade em aceitar como verdadeira a conclusão; no segundo caso, ao contrário, pelo menos a segunda premissa não parece verdadeira. A verdade das premissas distingue uma conclusão verdadeira de uma conclusão que é simplesmente válida, ou seja, que respeita o método lógico, mas é baseada em uma ou mais premissas falsas. Nos exemplos acima, assim como faremos nos exemplos dos outros tipos de raciocínio, estão presentes duas premissas; contudo um raciocínio qualquer pode ser baseado em uma premissa só como em mais do que duas.
Um exemplo de raciocínio lógico na linguagem é o acarretamento. Por exemplo, se for verdade
(5) João matou Pedro 
então é necessariamente verdade que Pedro morreu. Seria uma contradição dizer
(6) *João matou Pedro, mas Pedro não morreu. 
Uma contradição é um conjunto de afirmações que não podem ser todas verdadeiras no mesmo mundo.
Uma característica do raciocínio lógico é que as condições de verdade da conclusão ou consequência já estão presentes, implicitamente, nas premissas. Repetimos que as condições de verdade são as circunstâncias que devem ocorrer em um dado mundo (real ou imaginário) para poder dizer que uma asserção é verdadeira. No raciocínio lógico, o que a conclusão faz é apenas tornar explícitas as condições de verdade que já estão implícitas nas premissas. De fato, dizer (5) corresponde a dizer
(7) João causou a morte de Pedro
Portanto o fato que Pedro morreu está já presente em (5). Isso distingue o fenômeno do acarretamento lógico do fenômeno da pressuposição. Um exemplo de pressuposição é
(8) João parou de fumar
A partir dessa afirmação pode-se concluir que João fumava. E essa conclusão parece necessária. Contudo, qualquer coisa que João tenha parado de fazer (João parou de beber, João parou de trabalhar, João parou de Xar.) pressupõe que João fazia aquela coisa (bebia, trabalhava, Xava.). Isso mostra que a pressuposição depende de uma forma linguística (seja uma estrutura morfossintática, seja um elemento lexical) e não das condições de verdade veiculadas pela(s) premissa(s). 
Uma demonstração disso é que se nós negamos uma expressão como (5) com
(9) João não matou Pedro 
ou seja, se negamos as condições de verdade de (5), também a conclusão é destruída. Se João não matou Pedro, não temos nenhum elemento para concluir que Pedro morreu. Naturalmente Pedro pode ter morrido por outras razões, mas isso não decorre da premissa João não matou Pedro. 
Ao contrário, se nós negamos (8) com
(10) João não parou de fumar 
a inferência de que João fumava continua sendo pressuposta. Isso mostra que a pressuposição está colada na forma linguística (neste caso parou de) e não nas condições de verdade, já que resiste à negação, ou seja, resiste a condições de verdade opostas. Não podemos dizer que as condições de verdade de João fumava, ou João bebia ou João Xava, estão implícitas em Joaõ parou de fumar e em João não parou de Xar.
Vejamos agora um exemplo de raciocínio indutivo.
(11) Premissa 1: Observei 1.000 homens
Premissa 2: Todos eles tinham 5 dedos em cada mão
Consequência: todos os homens têm 5 dedos em cada mão
Nesse caso, as premissas são fruto de experiência, são concretamente observáveis e, portanto, não são postuladas. Elas permanecem verdadeiras independentemente da verdade da conclusão. Contudo, a consequência não será nunca necessária (nem mesmo se a conclusão do exemplo for tirada a partir de um número muito maior de dados observados), mas sempre mais ou menos provável. De fato (independentemente de quantos são os homens observados) será sempre possível colocar uma nova premissa que torne falsa a consequência, como:
(12) Premissa 3: o homem 1001 tinha 6 dedos
Um outro exemplo de raciocínio indutivo pode ser construído mudando a ordem das proposições que constituem o raciocínio lógico em (4):
(13) Premissa 1: Todos estes alunos querem aprender
Premissa 2: Todos estes alunos são da UFMG
Consequência: Todos os alunos da UFMG querem aprender
A conclusão pode ser destruída acrescentando uma nova premissa:
(14) Premissa 3: aquele outro aluno também é da UFMG e não quer aprender
Um outro tipo de raciocínio probabilístico, mas de natureza diferente daquele indutivo, é o raciocínio abdutivo. Um exemplo é o seguinte diálogo entre A e B, que constitui as premissas):
(15) A: Quem vai cozinhar hoje à noite?
B: Eu estou cansada!
Conclusão: B não vai cozinhar hoje à noite
No caso deste exemplo, que é corriqueiro na nossa comunicação do dia-a-dia, B poderia acrescentar uma nova premissa, como
(16) mas vou fazer um esforço 
e a conclusão seria destruída. Portanto a conclusão não é absolutamente necessária, mas apenas probabilística. Contudo, esse tipo de raciocínio é diferente do raciocínio indutivo. Enquanto o raciocínio indutivo apresenta premissas com dados que levam na direção de uma certa conclusão e que são coerentes entre elas (as premissas levam informações da mesma natureza), o raciocínio abdutivo apresenta premissas aparentemente não correlacionadas entre elas a não ser que se estabeleça uma ponte através da própria conclusão. Às vezes, como no exemplo mostrado, a ponte parece natural; outras vezes ela pode ser muito menos óbvia. Um raciocínio abdutivo pode ser construído utilizando novamente as proposições dos exemplos (4) e (13) e colocando elas em uma ordem ainda diferente:
(17) Premissa 1: Todos estes alunos querem aprender 
Premissa 2: Todos os alunos da UFMG querem aprender 
Consequência: Todos estes alunos são da UFMG
De fato, não parece ter nenhuma relação entre a primeira e a segunda premissa. A relação é estabelecida através da conclusão (que, naturalmente, pode ser ou não verdadeira).
Vimos então três tipos de raciocínio, cada um com propriedades diferentes:
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