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Deus e Criação Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Anderson Oliveira Lima Revisão Textual: Prof.ª Me. Sandra Regina F. Moreira Para a Análise dos Personagens Bíblicos • Introdução; • As Finalidades dos Textos Bíblicos; • A Narração Bíblica e a “Palavra de Deus”; • Sobre os Personagens Bíblicos. · Estudar algumas das características da narração bíblica; · Discutir como a narração bíblica se relaciona com a recepção e com a ideia de sacralidade atribuída aos textos; · Conhecer alguns métodos para a análise dos personagens literários. OBJETIVO DE APRENDIZADO Para a Análise dos Personagens Bíblicos Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Contextualização Nas próximas páginas, dedicadas a mais uma unidade da disciplina Deus e criação, pretendemos dar sequência aos estudos anteriormente iniciados e atingir dois novos objetivos bastante específicos. Agora que já apresentamos uma proposta de leitura da Bíblia, que destoa consideravelmente dos modos mais empregados em seu estudo (sem perder a oportunidade de inserir nesta apresentação algumas boas provocações), a que pretende lidar com Deus como um personagem e com a história da criação como uma narrativa, seguiremos com essa proposta, aprofundaremos nossas leituras e conheceremos algumas das peculiaridades da literatura bíblica que ganham desta- que quando lemos a Bíblia como literatura. Teremos a oportunidade de discutir brevemente determinados tópicos de Teoria Literária e relacioná-los com as prá- ticas religiosas de leitura, extraindo daí novas conclusões sobre problemas bem específicos que dizem respeito à análise literária da Bíblia que é, como sabemos, um livro que possui um lugar muito particular dentro do cânone literário. Um segundo objetivo que esperamos alcançar com nosso trabalho nesta unidade é de caráter mais metodológico. Está claro que Deus, visto como personagem, é o tópico central dos estudos desta disciplina, por isso trataremos dos personagens bíbli- cos a partir dos modos de ver que nos são sugeridos pela Crítica Narrativa. Estudare- mos, portanto, o modo como a Crítica Narrativa aborda os textos, que perguntas faz à narrativa que coloca em pauta, quais padrões procura identificar nas personagens que analisa etc. Esse trabalho metodológico nos dará acesso a novos instrumentos que poderão ser empregados em todas as leituras que futuramente faremos e, assim, poderemos ir mais fundo na análise do Deus bíblico, assim como no estudo de qual- quer outro personagem que as narrativas bíblicas nos apresentarem. Esperamos que todos os alunos desse curso, leitores interessados, envolvidos com a Teologia de maneira especial, aproveitem bem esse tempo de estudos a fim de fazer bons usos dos conhecimentos adquiridos. 8 9 Introdução Está dito: toda vez que aqui falarmos de Deus, estamos nos referindo a um per- sonagem literário e não a qualquer entidade transcendente, imaterial, extratextual. Para os propósitos dessa disciplina, só interessa um Deus: o que está no papel, que depende de um leitor para que ganhe existência na imaginação, o Deus que é uma criação humana, um produto da inventividade de antigos escritores, um Deus plu- ral, cujos traços dependem não apenas dos textos, mas também dos modos como nós, leitores, lidamos com esses textos. O Deus bíblico, a ideia que podemos fazer dele, é a de um amálgama de muitas páginas e deuses. Nas narrativas bíblicas, há muitos personagens que são identifi- cados com o nome de Deus, e não apenas vários nomes para um mesmo Deus. Há muitas descrições distintas, muitas personalidades divergentes, muitas faces divi- nas que, no conjunto canônico, foram associadas e acabam por formar uma única e complexa individualidade. Os redatores bíblicos reuniram tradições literárias, cos- turaram perícopes, coletaram produções de diferentes imaginários religiosos e as juntaram numa grande antologia que, por sua peculiar fragmentariedade, nos leva a conhecer um Deus extremamente plural. A erudição bíblica dos últimos séculos ocupou-se com o trabalho de decompor essa coleção de fragmentos. Provaram, é verdade, que os livros bíblicos possuem muitos redatores e muitos autores, que são formados por textos de diferentes épocas, lugares e teologias, que são obras coletivas que evoluíram com o passar dos anos, com os usos, com as cópias sucessivas, com o trabalho de pessoas que fizeram suas revisões, inclusões, comentários, traduções, ilustrações etc. Nos últimos séculos, os estudiosos tentaram, com extremo rigor científico, dissecar essa grande colcha de retalhos: eles trabalharam para identificar seus extratos redacionais, para destrinchar suas fontes e contar a história do livro. Consequen- temente, todos os que se interessam a sério pelos estudos bíblicos acabam, hora ou outra, se deparando com alguém falando de coisas como fonte javista, fonte sacerdotal, fonte Q, etc. Estes seriam alguns dos hipotéticos textos perdidos que deram origem aos livros bíblicos como os conhecemos. Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images 9 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Não se nega o valor do trabalho dos estudiosos que nos precederam, a herança que nos legaram, a seriedade com que elaboraram e testaram suas hipóteses e as soluções que elas nos apresentam para questões que tiraram o sono dos leitores da Bíblia por séculos. Todavia, a discussão tem mudado. Tem-se dado, de algumas déca- das para cá, maior importância ao texto bíblico que temos em mãos, às traduções, às versões autóctones, às respostas que os leitores fornecem aos problemas levantados pelos textos, às virtudes de cada versão quanto a seu potencial como incentivo à pro- dução individual de sentidos para cada leitor. Quer dizer que, embora seja bom saber como os textos bíblicos vieram ao mundo, mais vale saber por quais razões levaram aqueles antigos redatores a organizar essa coleção, quais efeitos queriam produzir, quais mensagens queriam transmitir, quais recursos da linguagem empregaram para atingir seus objetivos comunicativos. Mais do que saber o que existiu antes da Bíblia, ou qual era a versão mais antiga, os estudiosos contemporâneos seimportam com o papel que essa obra desempenha na cultura, procuram entender as razões para o sucesso inegável desse livro, escrutinando o livro e sua história de diferentes modos. É por seguirmos essa tendência de lermos a Bíblia como literatura, que es- tamos passando por cima daquela tradicional erudição bíblica, da exegese, dos Métodos Histórico-Críticos, da arqueologia bíblica... para tratar especialmente dos modos de ler que, de modo mais direto, dizem respeito ao nosso tempo. De acordo com a prática de leitura que estamos propondo (que não pretende dar fim às mais antigas, mas acrescentar recursos à história da leitura bíblica), o Deus bí- blico é visto como um personagem complexo, uma individualidade composta por di- ferentes olhares, diversos pontos de vista, valores e crenças. Foi pensando assim que Jack Miles, estudado anteriormente, tentou ler os diferentes retratos do Deus bíblico como etapas da evolução da personalidade de um único personagem. Esta tarefa não é fácil, como vimos, mas concordamos que este tipo de abordagem é a que mais se aproxima das intenções dos próprios textos. Noutras palavras, embora as narrativas apresentem diferentes descrições de Deus e defendam diferentes teologias, o fato é que a Bíblia, como projeto literário, prevê que seus leitores irão passar por esses muitos textos tentando, cada um a seu modo, relacionar esses diferentes modos de compreender a divindade para formar uma imagem minimamente coerente do Deus bíblico e decidir se quer, realmente, crer nele. Saber identificar as características e peculiaridades de cada personagem em cada unidade narrativa, por meio de uma análise teórica e metodologicamente competente é um recurso de grande valor para que a construção do todo seja possível. É também o melhor que podemos fazer para não seguirmos dependendo de leituras lheias, das interpretações prontas, das imagens que outros leitores fizeram do Deus bíblico e que agora querem nos impor sem que precisemos ler, pensar, estudar a Bíblia por conta própria. Sendo assim, todo instrumento interpretativo que nos ofereçam deve ser aproveitado, experimentado, apropriado, levado em conta, pois num momento ou outro, este recurso nos servirá para iluminar traços característicos de algum perso- nagem e nos permitirá ir além em nossa leitura, tornando-nos leitores melhores, teólogos mais competentes e indivíduos mais livres, mais autônomos quanto à produção de sentidos que parte das páginas bíblicas. 10 11 Para um bom aproveitamento dessa unidade, pedimos aos alunos que nos leem que atentem especialmente para as questões metodológicas, para as sugestões gerais oferecidas para a análise dos personagens bíblicos. Isso quer dizer que, quando tratamos de questões de método em livros que têm finalidades didáticas, os resultados podem variar, e não são tão importantes quanto a compreensão dos meios pelos quais tais resultados foram alcançados. Pode-se discordar de algumas conclusões apresentadas, pode-se avaliar a aplicabilidade do mesmo procedimento de análise em textos diferentes e verificar em que casos eles se aplicam de maneira mais eficiente etc. Todavia, recomendamos que o leitor não se prenda cedo demais à especificidade dos resultados apresentados, aos exemplos oferecidos. Importante! Se nossa proposta lhe parece incomum (note-se que consideramos isso muito provável), se nossas leituras soaram aos ouvidos de parte dos leitores como apropriações indevidas da tradição bíblica, pedimos que o leitor persista em seus estudos e siga o curso com atenção. Supomos que, após ter compreendido nossos pressupostos e ter se apropriado dos métodos que sugerimos, nossa maneira de ler a Bíblia fará sentido e, ainda que o estudante não a queira adotar, praticar, seguir... ainda que ler a Bíblia como litera- tura não lhe sirva, a aquisição do conhecimento a respeito dessa prática laica e literária de leitura será reconhecida como uma boa aquisição. Deveras, não são seguidores que os autores e professores procuram, mas estudantes que, com respeito ao trabalho dos profi ssionais que se dedicam à atividade letiva, exerçam sua criticidade, elaborem seus juízos e aproveitem, a seu modo, aquilo que lhes é compartilhado. Trocando ideias... As Finalidades dos Textos Bíblicos Tratar de um personagem como o Deus bíblico é um desafio. Já dissemos que os textos bíblicos são compostos pela justaposição de outros textos e tradições orais que existiam anteriormente, unidades textuais que foram editadas por redatores até que vieram a existir os textos bíblicos que a cultura consagrou, a religião canonizou e o tempo preservou. Isso, por si só, torna difícil a caracterização de um personagem. Para alguns desses personagens (os mais importantes) há tantas faces, tantos retra- tos, que algumas vezes a sensação de incoerência narrativa dificulta qualquer análise. Mas não é apenas o caráter fragmentário que torna difícil a análise literária da Bíblia e a compreensão de um personagem como Deus. É também marcante nas pá- ginas bíblicas um padrão lacônico de sua arte narrativa. Diferente do que temos em livros mais modernos, os livros bíblicos são sempre sucintos, econômicos; dizem ape- nas o que aos seus autores parece essencial. Mesmo os protagonistas mais atuantes são descritos de maneira breve e incompleta: quase nunca sabemos que aparência eles têm, como se vestiam, o que sentiam no íntimo etc. 11 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Em Como ler literatura, o crítico literário Terry Eagleton tenta demonstrar como, diferente de um leitor comum, um crítico profissional lê um livro, como aborda uma obra de maneira atenta aos detalhes, à construção, às técnicas, à literariedade... Ele dedicou o segundo capítulo do livro para tratar dos personagens literários e fala, por exemplo, que estes personagens não existem fora dos livros, que nascem e morrem com o livro, com o ato de leitura. Trata também da psicologização dos personagens em romances realistas e, em dado momento, aborda rapidamente o modo como os autores dos evangelhos construíram seu principal personagem: O Novo Testamento apresenta Jesus como uma espécie de personagem, mas não mostra interesse algum em sondar sua mente. Essa psicologiza- ção seria desnecessária para suas finalidades. A obra não pretende ser uma biografia. Não nos diz sequer que aparência tinha o personagem central. Se os autores dos Evangelhos estivessem fazendo algum curso de escrita criativa atual, é bem provável que recebessem uma nota vergonho- samente baixa. (EAGLETON, 2017, pos. 984)1 Segundo Eagleton, portanto, os evangelhos do Novo Testamento são um tipo de literatura cujos propósitos não estão voltados para a riqueza descritiva. Romances modernos são obras que, dentre outras coisas, pretendem entreter seus leitores; querem que o leitor se envolva com a história, que se engane ao conceber na mente um mundo ficcional e, para isso, servem bem às riquíssimas descrições, aos muitos detalhes, aos personagens mais profundos... Eagleton, com razão, não vê nada disso nos evangelhos. Outros críticos, pensando nisso, concluíram que a literatura bíblica é pobre, pro- duto de autores inábeis, literatura menor, cuja existência depende exclusivamente dos interesses de instituições religiosas. Mas esse juízo não é bem verdadeiro e, para fazer justiça aos escritores bíblicos, será preciso levar em conta algo que Ea- gleton apontou nas linhas que acima lemos: os evangelhos têm outras finalidades. Os textos bíblicos, deveras, não foram produzidos para nos entreter, para serem lidos em nossas próprias cópias e no conforto dos nossos sofás. Produtos de um mundo iletrado, eles foram escritos para preservar o que os primeiros cristãos contavam transmitir, as memórias míticas das origens cristãs às próximas gerações, para que fossem lidos publicamente (para serem ouvidos) em situações litúrgicas; os evangelhos foram escritos para serem meditados ao longo da se- mana, para fortalecer a fé dosrecalcitrantes, reerguer os claudicantes, instruir os neófitos, convencer os descrentes. A crítica literária dos textos bíblicos deve levar esses fatores em conta e saber procurar por aqueles recursos da linguagem que atendam a esses objetivos. Ou seja, o crítico deve mesmo se perguntar como esses textos pretendem convencer aos que em Jesus não creem, quais técnicas são empregadas para fazer com que os leitores 1 O livro de Eagleton do qual extraímos esta citação (Como ler literatura) só foi publicado no Brasil em versão digital. Raramente e-books nos permitem saber o número da página que corresponda à de uma versão impressa e, por isso, só foi possível mencionar acima a “posição” que neste e-book, em sua versão para Kindle (o e-reader da Amazon), indica o ponto em que este texto se encontra. 12 13 reconheçam em suas páginas a autoridade divina, que tipo de técnica é adotada para fazer com que o leitor reavalie as tradições religiosas que sua cultura lhe transmitiu e se submeta aos novos mandamentos que Jesus supostamente lhes entregou... Continuaremos discutindo estes temas por algum tempo, mas já podemos extrair das linhas que lemos alguns conselhos para a análise dos textos do Gênesis. Pro- curaremos saber como o narrador constrói seu personagem (Deus), o que afirma a seu respeito (ou o que deixa de dizer), quais tipos de coisas esse personagem pode ou não fazer, quando o narrador escolhe usar o discurso direto para enunciar seu conteúdo, quais comentários faz a respeito de Deus e dos demais personagens... Mas, antes de qualquer coisa, gostaríamos de tratar de um tema bastante pecu- liar ao estudo da literatura bíblica, um problema de ordem religiosa que tem estreita relação com a narratividade bíblica. A Narração Bíblica e a “Palavra de Deus” Os leitores estão conscientes de que, desde as páginas da Torá, a Bíblia insiste na proibição de que se façam representações de Deus. Pensa-se, de imediato, no pecado da idolatria: na construção de imagens que, tentando representar a divin- dade de maneira limitada, desviam a devoção do adorador para o que não é Deus. E não são poucas as advertências bíblicas feitas contra o uso religioso de objetos, esculturas, desenhos... Figura 2 Fonte: iStock/Getty Images Entretanto, o que os leitores não costumam levar em consideração é que os man- damentos bíblicos parecem lidar apenas com o que hoje nós chamamos de signos icônicos, que se definem “por sua relação de semelhança com a ‘realidade’ no mundo exterior” (GREIMAS; COURTÉS, 2012, p. 250). Ou seja, a idolatria que é condenada nas páginas da Bíblia – tão temida por judeus e cristãos, motivo de tantas ameaças e punições – trata apenas de algumas das muitas formas pelas quais podemos representar 13 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Deus através de signos. De fato, a própria Bíblia traz muitas outras representações de Deus, mas o faz preferencialmente através da linguagem, da ficcionalidade literária, dos signos verbais (MALANGA, 2005, p. 159-163). Por mais ambígua que possa ser essa representação de Deus, por mais metafórica que seja, ela é ainda uma forma de redução radical do Deus que existe no imaginário do autor e, consequentemente, é insuficiente para que dê conta do objeto que pretende representar. Por limitações assim é que esta- mos sempre afirmando que o Deus bíblico é um objeto ficcional. Hugo Volli explica os signos icônicos (aos quais nos referimos acima) com essas palavras: “Se a relação entre significante e significado é caracterizada por uma semelhança objetiva, ou até mesmo reconhecida como tal no grupo social que usa o signo, temos uma relação icônica. Um signo icônico deve a sua capacidade de significar ao fato de que a expressão é sob certo aspecto semelhante ao próprio conteúdo. As ilustrações, os retratos, as caricaturas, os esquemas de um aparelho elétrico, os mapas geográficos e até os sons onomatopaicos e as metáforas compartilham essa característica” (VOLLI, 2012, p. 40). Ex pl or A Bíblia, portanto, também traz um grande número de representações de Deus, também o reduz a signos que os homens desenvolveram para suas próprias comu- nicações, a símbolos consensualmente adotados para fins sociais. Indo além nesta provocação, quiçá possamos dizer que quem toma o Deus que é apenas uma perso- nagem literária como o único e verdadeiro Deus está, assim como quem se ajoelha diante de uma escultura, sendo idólatra. Difícil não se enredar nessa teia religiosa que foi desenvolvida para culpabilizar a todos. Todavia, o problema que colocamos não é insolúvel. Quando um livro que temos em mãos é apresentado como um romance, sabemos de antemão que as afirmações feitas pelo narrador não têm nenhuma pretensão de comunicar ver- dades diretamente aplicáveis à realidade. No faz de conta, a atitude de um leitor diante de uma narrativa que se sabe ser ficcional impede que este leitor julgue um personagem como retrato fidedigno da realidade; impede, por exemplo, que o Deus da ficção seja adorado, que o leitor se torne idólatra. Se alguém encara a Bíblia como ficção (não como romance, que é um gênero literário específico), tanto o personagem Deus como os manda-mentos contra a idolatria são toma- dos como criações ficcionais que não podem ter efeitos fora do mundo do texto. Ou seja, se o Deus bíblico não é o Deus verdadeiro, tampouco os mandamentos desse Deus e suas ameaças devem ser temidos. Por outro lado, bem sabemos que não é assim que a grande maioria das pessoas encara a Bíblia. Deveras, a afirmação de que as histórias da Bíblia são ficções literárias é uma heresia para muitos. Mas essa atitude é uma reação que se deve à maneira como estão construídas essas histórias, ao modo como o narrador as transmite, além de ter muito que ver com a ideia ingênua de que a Bíblia, como “Palavra de Deus”, não pode lidar com histórias fantasiosas, com fábulas, mitos e outras mentiras dessa espécie. 14 15 Dizem que os narradores bíblicos são oniscientes. Isso quer dizer que eles co- nhecem todas as coisas relacionadas à história que contam. Eles possuem controle das situações, conhecem plenamente todos os personagens, suas intenções ocul- tas, seus pensamentos... não há nada que eles desconheçam. Agora, notemos quantas confusões podem nascer do fato de termos narradores que não têm nomes próprios e que exibem sua onisciência a todo tempo num livro que popularmente é conhecido como Palavra de Deus. É fácil confundir esse tipo de narração com uma espécie de narração divinamente inspirada. Repetindo isso em termos mais técnicos, podemos dizer que a maioria das nar- rativas bíblicas apresentam narradores que estão fora das histórias (são textos nar- rados em terceira pessoa), e esses narradores anônimos são, como a ideia que se tem de Deus, oniscientes e onipresentes: Um narrador em terceira pessoa onisciente conta a história de fora e se refere aos personagens por nome ou por “ele”, “ela”, ou “eles”. Similar a uma câmera em movimento, este narrador é livre para vagar de per- sonagem em personagem, fornecendo close-ups de alguns, vislumbres de outros, e é livre para mover-se de um evento a outro como desejar. Os escritores dos evangelhos são narradores em terceira pessoa onis- cientes que vão de personagem em personagem, evento em evento, se aprofundando no pensamento de alguns personagens, elaborando as mo- tivações de outros, comentando a respeito de outros e assim por diante. (RESSEGUIE, 2005, p. 168) Assim, a ausência de personalidade nos narradores bíblicos, a facilidade com que eles intervêm na história, oferecendo juízos de valor sobre os personagens, e as demonstrações de onisciência que dão a todo o momento, fazem com que leito- res mais desavisados (quanto a essas questões de teoria literária) confundam a voz inequívoca dos narradores com a voz do próprio Deus. Pensemos ainda nos efeitos que os discursos de Deus em primeira pessoa exercem sobre os leitores da Bíblia. Os autores bíblicos abrem aspase procuram modos dignos de expressar a voz divina. Eles procuram fazê-la diferente da voz humana por meio de eventos paralelos como trovões, terremotos, e colocam na boca de Deus apenas aquilo que lhes parece perfeito. Mesmo assim, não há como fazer o Deus bíblico dizer coisas que excedem os limites da linguagem hu- mana; um leitor atento vai notar que esse Deus é parecido com uma marionete que fala apenas aquilo que cada autor deseja expor com mais autoridade. Trata- -se, no fim das contas, de um recurso retórico, de uma maneira de atribuir maior autoridade a determinado conteúdo. Em suma, na maioria das vezes em que aparece na Bíblia, Deus é um personagem mis- terioso, quase sempre sem forma, cuja aparência deve ser indescritível e a mente im- penetrável. Todavia, como qualquer personagem, ele é facilmente manipulável, é um instrumento a serviço da retórica dos autores bíblicos que colocam em sua boca aquilo que querem impor a seus destinatários de maneira mais fi rme. Ex pl or 15 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Joseph Fitzmyer apontou a ausência de métodos interpretativos atuais e a ine- xistência de uma consciência crítica como os elementos que caracterizam as leitu- ras fundamentalistas (FITZMYER, 1997, p. 66). Sendo assim, podemos dizer que conhecer as técnicas da narração bíblica nos previne contra os grandes erros da leitura fundamentalista, que não consegue olhar para o texto bíblico como uma construção humana, como um uso comum da linguagem. Consequentemente, o fundamentalista é um tipo de leitor que não faz distinção entre o uso de Deus como personagem e a voz do verdadeiro Deus em que ele acredita, e como dá pouca importância à participação humana na elaboração dos textos bíblicos, en- frenta dificuldades quando o Deus bíblico se contradiz ou está errado. Para evitar esse tipo de crise, alguns chegam a fugir das escolas, das faculdades, dos livros... preferem o conforto de uma fé ingênua ao confronto que nos faz progredir. Ou optam pelo estudo em instituições desautorizadas, que tratarão de repetir aquelas mesmas falsas verdades que os fazem felizes. Enfim, uma das saídas da escuridão fundamentalista é a que passa pelos estudos literários, pelos métodos e teorias, pelo exercício da criticidade no ato da leitura. Sobre os Personagens Bíblicos Personagens existem para exercer papéis específicos na construção de enredos. Eles fazem parte de cenários ficcionais e junto com os endereços, os objetos, os climas... são manuseados por um autor que quer contar uma história de modo próprio. Falando especificamente dos textos bíblicos, não é difícil perceber que há personagens que desempenham papéis mais positivos, personagens que, em termos tradicionais, chamaríamos de heróis. A eles (mantendo essa classificação tradicional e um pouco antiquada) se opõem os vilões, sujeitos que são imbuídos de uma carga de valores negativos e que se fazem adversários dos heróis em suas respectivas missões. Os mocinhos e os bandidos das narrativas bíblicas são reco- nhecíveis pelo modo como são descritos, pelas coisas que falam e fazem, e pelas intervenções dos narradores que, procurando guiar a leitura, oferecem, vez ou outra, seus próprios pontos de vista avaliadores a respeito deles. Talvez a identificação dos bons e maus personagens bíblicos não seja tão simples como quando olhamos para uma pintura medieval que identifica seus santos acrescentando grandes auréolas ao redor de suas cabeças, mas as narra- tivas bíblicas ainda não são tão subjetivas quanto aqueles romances modernos cujos personagens podem ser bem difíceis de decifrar. 16 17 Figura 3 – A morte da virgem: pintura do século XIV de Duccio di Buoninsegna Fonte: wucwo.org Todos sabem que Jesus é o grande protagonista dos evangelhos do Novo Tes- tamento - um herói que reúne novas e velhas virtudes da antiga cultura judaica. Sobre ele estão depositados todos os ideais defendidos pelos escritores; ele é um depositário de valores, o realizador de expectativas messiânicas, o objeto das mais ousadas esperanças. Tudo nos evangelhos quer levar o leitor a encarar Jesus como um sujeito perfeito: ele faz milagres sem iguais, diz coisas que expressam uma sabedoria sem igual, cumpre de maneira admirável antigas promessas proféticas, é um exemplo de moralidade e torna concreta a utopia de um reino messiânico. A caracterização de Jesus como alguém sobre-humano é tão inequívoca que mes- mo quando alguma palavra ou ação dele nos parece errada, duvidamos de nossa própria percepção e supomos que não entendemos o texto corretamente. O leitor precisa ser possuidor de uma consciência crítica muito aguçada (ou de uma dispo- sição anticristã bem decidida) para que possa questionar Jesus e as consequências de suas palavras enquanto lê um evangelho, já que a cada versículo, o narrador trabalha para nos fazer discípulos. Mas é bom lembrar que Jesus não é um personagem muito comum: ele é filho de Deus, um semideus em termos gregos, um ungido do Senhor do ponto de vista judaico e um deus no ponto de vista cristão. Qualquer leitor logo notará que não poderá alcançar sua perfeição, seguir seus passos sem tropeços. Com isso, esta- mos dizendo que Jesus é um ideal elevado demais, um personagem que se admira, 17 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos mas que não provoca plena empatia. A verdadeira empatia do leitor dos evange- lhos se dá para com os discípulos que seguem Jesus de modo titubeante, pois estes são os personagens mais verossímeis, mais humanos, mais próximos ao leitor. São os discípulos exemplos de pessoas que, em algum momento, decidiram mudar de vida, pessoas comuns que foram chamadas ao seguimento e enfrentaram dificul- dades diversas. Portanto, os evangelhos esperam que aprendamos com seus erros e imitemos seus acertos; noutras palavras, esperam que neles nos inspiremos para seguir Jesus em nossos próprios caminhos. Pensemos agora nos vilões: ainda falando dos evangelhos, consideremos os fa- riseus, adversários exagerados que seguem Jesus por toda parte e não fazem nada de bom. Nos fariseus identificamos com facilidade a ficcionalidade, a vontade de construir estereótipos; os narradores exageram os atributos negativos dos tais, enfa- tizam sua hipocrisia, incredulidade, animosidade... Aí o leitor da Bíblia é induzido à completa antipatia; provavelmente tanta repulsa é um reflexo de embates reais que se refletiram na literatura escrita nas últimas décadas do século I, quando os fariseus ainda dominavam o cenário religioso e os cristãos eram minoria. Importante! • Os personagens são divididos entre bons e maus, e sempre é útil identificar que traços caracterizam os personagens como heróis ou vilões; • os valores que os autores bíblicos aprovam ou reprovam são distribuídos entre seus personagens. Neste sentido, os personagens exibem exemplos úteis para que identifiquemos que ações estes textos esperam de seus leitores; • Jesus é um personagem singular no Novo Testamento, e Deus em toda a Bíblia. Como os autores querem que eles sejam perfeitos, sobre-humanos, cuidarão para que eles não errem, não se equivoquem, e isso significa que é nesses personagens que estarão depositados os ideais mais elevados de um autor. Importante! 18 19 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Para ler as narrativas bíblica Um dos temas trabalhados nesta unidade diz respeito à construção e análise dos personagens bíblicos. Talvez o leitor tenha o interesse de ler mais a respeito e, para isso, recomendamos um capítulo do livro de Daniel Marguerat e Yvan Bourquin, intitulado Para ler as narrativas bíblica (2009, p. 75-95), que está devidamente apresentado nas referências bibliográficas abaixo. Este livro é um instrumento de apoio de grande importância para esta disciplina e voltará a ser usado em várias outras ocasiões. Sendo assim, o leitor dificilmente se arrependerá se optar por sua aquisição. O poder retóricodos textos bíblicos e as mediações religiosas da leitura Publicamos também um capítulo de livro (LIMA, 2016) sobre o poder retórico dos textos bíblicos, que aborda questões que, nas páginas acima, foram tratadas de maneira muito breve. O objetivo do capítulo é mostrar, agora de modo mais detalhado, que a linguagem dos livros bíblicos emprega recursos que a tornam mais convincente, mais confrontadora, e isso ajuda a entender porque este é um livro tão influente e porque pessoas dizem ter mudado de vida apenas por conta de sua leitura. Leitura O imaginário religioso fundamentalista e a narratividade bíblica Num artigo que foi publicado pela revista Perspectiva Teológica, em 2015, escrevemos algumas páginas sobre algumas características das narrativas bíblicas e procuramos demonstrar que vários padrões narrativos presentes nas páginas bíblicas estão presentes também no imaginário religioso dos grupos fundamentalistas. Estas páginas podem ser úteis para aqueles que se interessarem pelos temas expostos alhures. As informações sobre o artigo estão nas referências bibliográficas ao final da unidade (LIMA, 2015), mas você pode baixar o artigo imediatamente através deste link: https://goo.gl/9fh6fY Fundamentalismo cristão: História e presença no cristianismo Outro tema do qual tratamos de maneira muito superficial foi o do fundamentalismo cristão. Indicamos, portanto, a leitura de mais um artigo introdutório (PANASIEWICZ, 2008) de fácil acesso para aqueles que queiram saber mais sobre o assunto. Acesse-o através do link abaixo: https://goo.gl/y57b25 19 UNIDADE Para a Análise dos Personagens Bíblicos Referências EAGLETON, Terry. Como ler literatura: um convite. Porto Alegre: L&PM, 2017. FITZMYER, Joseph A. A Bíblia na Igreja. São Paulo: Loyola, 1997. GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2012. LIMA, Anderson de Oliveira. A narratividade bíblica e o imaginário religioso funda- mentalista. Perspectiva Teológica, vol. 47, n. 133, 2015, p. 399-414. LIMA, Anderson de Oliveira. O poder retórico dos textos bíblicos e as mediações religiosas da leitura. In: MOSCA, Lineide do Lago Salvador (Org.). Discurso Religioso: possibilidades retórico-argumentativas. São Paulo: Fonte Editorial, 2016, p. 41-50. MALANGA, Eliana Branco. A Bíblia Hebraica como Obra Aberta: Uma Proposta Interdisciplinar para uma Semiologia Bíblica. São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2005. MARGUERAT, Daniel; BOURQUIN, Yvan. Para ler as narrativas bíblicas: inicia- ção à análise narrativa. São Paulo: Loyola, 2009. PANASIEWICZ, Roberlei. Fundamentalismo Religioso: história e presença no cristianismo. In. X Simpósio da Associação Brasileira da História das Religiões: Migrações e Imigrações das Religiões, 2008. RESSEGUIE, James L. Narrative Criticism of the New Testament: an introduction. Michigan: Baker Academic, 2005. 20