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Apostila_saude ambiental e Epidemiologia

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que atuarão no campo da Saúde Pública, da Saúde Ambiental, da Vigilância Am-
biental ou em áreas correlatas.
Dentro dessa perspectiva, o conteúdo está organizado em seis capítulos, que se completam e 
evoluem o pensamento acerca dos temas da Epidemiologia e da Saúde Ambiental. A compreensão da 
origem da saúde e do adoecimento como processo contínuo é apresentado no contexto histórico e me-
diante modelos explicativos de seu desencadeamento. Do mesmo modo, o conceito de ambiente é dis-
cutido em sua interface com o processo saúde e doença, permitindo a introdução contextualizada da 
Saúde Pública e Saúde Ambiental como áreas de intervenção multiprofissional sobre a saúde humana. 
Por fim, a Vigilância Ambiental e os Sistemas de Informação em Saúde Ambiental são discutidos como 
instrumentos para planejamento, intervenção, monitoramento e avaliação da Saúde Ambiental.
Será um prazer acompanhá-lo(a) ao longo dessa jornada que, esperamos, contribua com seu cres-
cimento profissional e humano em prol da preservação ambiental e da promoção da saúde das gerações 
presentes e futuras no planeta Terra.
Hogla Cardozo Murai
Unisa | Educação a Distância | www.unisa.br
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Neste capítulo, vamos conceituar e contextualizar no tempo e na história da humanidade o proces-
so saúde-doença, além de discutir os principais modelos explicativos utilizados para seu entendimento. 
PROCESSO SAÚDE E DOENÇA1
O que é saúde? Quando lançamos essa per-
gunta a um estudante universitário da área da 
saúde, com alta frequência a resposta é a defini-
ção que figura no preâmbulo da constituição da 
Organização Mundial da Saúde (OMS, 1948): é o 
“estado de completo bem-estar físico, mental e 
social, e não apenas a ausência de doenças.”
Essa definição tem sido amplamente critica-
da por se constituir algo inatingível ou por retratar 
a saúde estática, composta por elementos disso-
ciados de corpo, mente e espírito. Para entender 
tal definição, é preciso contextualizar o momento 
de sua formulação. Estamos falando do momen-
to Pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), pe-
ríodo em que a devastação causada pela guerra 
tornava real a preocupação com a alimentação, 
acesso a serviços de saúde e com a manutenção 
da paz. Nesse sentido, a explicitação do bem es-
tar físico, mental e social era necessário, porque 
vinculava condições necessárias à retomada do 
desenvolvimento. Este, por sua vez, dependia de 
indivíduos saudáveis. 
O entendimento sobre o que é saúde e o 
que é doença está intimamente relacionado à 
forma como os indivíduos conduzem sua vida. 
Varia de acordo com a sua cultura e crenças. Tam-
bém está relacionado à época em que se vive e 
ao conhecimento a que se tem acesso. O conceito 
de saúde e de doença tem evoluído junto à hu-
1.1 Conceito e Evolução Histórica do Processo Saúde e Doença
manidade e as crenças em torno do adoecimento 
também determinam o modo de enfrentamento 
do problema.
Se saúde não é apenas a ausência de doen-
ça, o que é doença? Essa talvez seja uma pergunta 
ainda mais difícil de responder. 
Em sua origem no latim, o termo ‘doença’ 
deriva de ‘dolentia’ que significa padecimento. 
Assim, um indivíduo tem consciência da doença 
quando apresenta sinais ou sintomas da perda 
de seu funcionamento regular ou pleno. Significa 
a perda do equilíbrio de sua capacidade de fun-
cionamento corpo-mente em harmonia com o 
ambiente. A origem desse padecimento tem sido 
percebida e descrita de diferentes modos no tem-
po e nos espaços que os povos ocupam.
Na Antiguidade, a doença era vista como 
castigo divino ao ser humano que se afastava da 
comunhão com Deus. Pela Teoria Divina, a doen-
ça era imposta como castigo ou como forma de 
colocar à prova a fé de alguém. Essa convicção 
fazia com que o cuidado com a saúde e as ações 
preventivas se confundissem com as normas da 
igreja, que, por sua vez, sendo responsável pela 
“habilitação das pessoas perante Deus”, cuidava 
do batismo dos recém-nascidos e da unção dos 
enfermos, razão pela qual também detinha os re-
gistros de nascimentos e óbitos. 
Hogla Cardozo Murai
Unisa | Educação a Distância | www.unisa.br
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A visão de processo saúde e doença de-
terminado por divindades foi contestada por 
Hipócrates (460–377 a.C.), que via na doença de 
origem sagrada a ignorância da população. Tam-
bém lhe é atribuído o texto denominado De ares, 
águas e lugares, que estabelece a relação entre 
o ambiente e o adoecimento das pessoas. Essa 
compreensão perdurou até meados do século 
XIX, incluindo o período da formação das cidades 
e da ocorrência das grandes epidemias, período 
em que se acreditava na saúde e doença relacio-
nadas ao ambiente em que as pessoas viviam, co-
nhecida como a Teoria Miasmática. 
No século XVII, um estudioso de nome 
Sydehan explicou o aparecimento de epidemias 
da seguinte forma: 
Elas [as epidemias] se originam, nem do 
calor nem do frio, nem da umidade nem 
da secura mas elas dependem de certas 
misteriosas e inexplicáveis alterações nas 
entranhas da Terra. Pelos seus eflúvios, a 
atmosfera torna-se contaminada e os or-
ganismos dos homens são predispostos e 
determinados.
 Logo, as más condições sanitárias expu-
nham as pessoas à inalação de maus ares, chama-
dos miasmas. Segundo essa teoria, os miasmas 
penetravam pelos poros e outras aberturas do 
corpo humano causando males internos. Nes-
se período, todos os tratamentos eram voltados 
para a adequação do ambiente (iluminação, ven-
tilação, temperatura, silêncio, hidratação e dieta) 
em que o doente se encontrava.
A Teoria Divina, entretanto, voltou a predo-
minar sobre a teoria dos miasmas na Idade Média, 
por força do poder que a Igreja exercia sobre a po-
pulação. No combate aos cultos pagãos, supostos 
bruxos foram perseguidos e queimados, entre 
eles, muitas pessoas que conheciam o poder de 
ervas e de chás que aliviavam sintomas dos doen-
tes. 
As ideias em torno do envolvimento do am-
biente no processo de adoecimento foram reto-
madas em diferentes momentos e por diferentes 
cientistas, mas nem a Teoria Divina nem a Teoria 
dos Miasmas eram suficientes para explicar algu-
mas epidemias que assolavam as cidades e, na 
metade do século XIX, surgiram importantes tra-
balhos científicos, entre eles o de John Snow, que 
demonstrava a transmissão da cólera por meio 
da água. A Teoria do Contágio e o uso da esta-
tística nos estudos do processo saúde e doença 
marcaram esse período. Nas décadas seguintes, 
a descoberta e isolamento de bactérias e fungos 
iniciada por Louis Pasteur deram início ao período 
bacteriológico e à Teoria Unicausal, segundo a 
qual para cada agravo haveria um microrganismo 
causador. A descoberta e uso de antibióticos não 
atendeu à expectativa de eliminação das doenças 
na época, impulsionando a formulação da Teoria 
Multicausal, que atribuía à influência concomi-
tante de diferentes fatores físicos, químicos, bio-
lógicos, socioeconômicos e culturais a determina-
ção da doença.
Somente na segunda metade do século 
XX é que a Teoria da Determinação Social da 
Doença foi amplamente aceita, após a divulga-
ção dos estudos de Asa Cristina Laurell (1983), 
uma sanitarista mexicana que definiu o processo 
de saúde e doença como 
o modo específico pelo qual ocorre, nos 
grupos, o processo biológico de desgas-
te e reprodução, destacando como mo-
mentos particulares a presença de um 
funcionamento biológico diferente com 
consequências para o desenvolvimento 
Saiba maisSaiba mais
As diferentes teorias sobre a origem do processo saú-
de e doença não se sucederam de forma sequencial, 
mas persistiram de forma concomitante ao longo do 
tempo. Alguns resquícios da Teoria Divina persistem 
até os dias atuais: por exemplo, quando dizemos que 
a saúde de alguém se restabeleceu “graças a Deus” ou 
que alguém morreu porque “Deus quis”. Do mesmo 
modo, os

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