Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


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tendência é a de que entrem dólares no mercado financeiro doméstico. Maior quantidade de dólares internamente significa uma tendência de queda de preço do dólar ou, em outras palavras, uma queda na taxa de câmbio (et). 
Graficamente, podemos estabelecer a seguinte relação:
	
 taxa de juros x taxa de câmbio (situação 1)
 
 et
 et 0 
 
 i0 i
No gráfico, desenhamos a curva negativamente inclinada a partir da última relação matemática que estabelecemos entre taxa de câmbio e taxa de juros doméstica. Dada a taxa de juros da economia i0 (que no gráfico é representada pela curva vertical), a taxa de câmbio que garante a paridade de juros será igual a et0, também entendida como a taxa de equilíbrio considerando os fatores financeiros. 
Podemos agora avaliar o que acontece quando ocorrem alterações nas variáveis i* e et+1. Inicialmente, consideremos que ocorra um aumento nas taxas de juros internacionais. Isto implica um deslocamento da curva negativamente inclinada para a direita. Como resultado, podemos ter a situação descrita pelo gráfico a seguir:
	
 taxa de juros x taxa de câmbio (situação 2)
 et
 
 et 1 
 et 0 i*1
 i*0
 i0 i
Inicialmente, para uma taxa de juros interna igual a i0 e uma taxa de juros internacional igual a i*0, tínhamos como equilíbrio a taxa de câmbio igual a et0. Com a elevação das taxas de juros internacionais para i*1 > i*0, sem que ocorram alterações nas taxas internas de juros, teremos como resultado uma taxa de câmbio de equilíbrio maior (et1 > et0). Intuitivamente, temos o seguinte raciocínio: um aumento das taxas de juros internacionais fará com que ocorra um fluxo de saída de dólares do mercado financeiro doméstico para o mercado financeiro internacional. Menos dólares aqui implicam um aumento do \u201cpreço do dólar\u201d. O leitor poderá verificar que, para um aumento da taxa de câmbio esperada para o período t + 1, teremos o mesmo resultado descrito pela figura acima. Também poderá verificar que um aumento nas taxas internas de juros tende a reduzir a taxa de câmbio.
Este é um modelo bastante simples e deve-se tomar cuidado quando o objetivo é descrever a atual realidade econômica e financeira internacional. Na análise aqui desenvolvida nãose considerou, por exemplo, na condição de paridade de juros a existência da variável risco. O modelo também não permite uma avaliação mais profunda dos movimentos especulativos de capitais financeiros, cuja lógica vai muito além das variáveis aqui descritas. No apêndice apresentamos uma breve discussão sobre a internacionalização financeira. Entretanto, tomando estes cuidados, o modelo é útil na avaliação dos impactos de fatores como taxa de juros e expectativas sobre a taxa de câmbio.
6.4.4 Taxa de câmbio nominal, taxa real de câmbio e PPP
Podemos agora retornar a uma questão que já estudamos anteriormente quando consideramos os problemas técnicos que estão envolvidos na mensuração das variáveis integrantes das contas nacionais, particularmente as questões envolvidas nas comparações entre países. Estamos falando da paridade do poder de compra (PPP), uma taxa de câmbio, digamos assim, especial. Como vimos no capítulo anterior, o ajuste da taxa de câmbio pela PPP faz-se necessário para que nas comparações entre países se tenha uma idéia mais precisa do valor de sua renda em termos do efetivo poder de compra das populações envolvidas. Vimos também que a construção dos índices PPP toma por base uma cesta de bens que supõe-se seja ofertada de maneira bastante similar nos diferentes países. Veremos agora como a taxa de câmbio ajustada pelo índice PPP pode ser entendida teoricamente como a taxa de câmbio de equilíbrio de longo prazo.
A abordagem da paridade do poder de compra baseia-se na idéia de que, na ausência de custos de transportes, de informação e outros custos de transação, os preços tendem, com o decorrer do tempo, a se igualar em diferentes mercados. Tal idéia é conhecida na literatura econômica como a \u201clei do preço único\u201d. Existe de fato uma certa dose de realismo nesta \u201clei\u201d quando consideramos mercados próximos e produtos homogêneos. Suponha duas cidades não muito distantes uma da outra. É de se esperar que os preços da gasolina nas duas cidades sejam bastante próximos. Se forem muito diferentes, os motoristas provavelmente irão abastecer naquela cidade em que o preço é menor. Este processo de \u201carbitragem\u201d acaba por gerar algum grau de equalização entre os preços do combustível nos dois mercados. Transportando esta idéia para a economia internacional, suponha dois países, sendo P o nível geral de preços no país H e P* o nível geral de preços no país \u201cestrangeiro\u201d. A taxa de câmbio entre as duas moedas é dada por e (considerando o mesmo conceito estudado anteriormente). Pela lei do preço único, é de se esperar uma tendência de que P se iguale a P*. Mas, como os dois países possuem moedas diferentes, devemos converter os preços para a mesma unidade, ou seja:
	P = e. P* 
A taxa de câmbio e que garante a igualdade proposta pela relação acima é denominada de taxa de câmbio de equilíbrio de longo prazo, também denominada de \u201ctaxa PPP\u201d. Evidentemente, não podemos considerar a proximidade entre dois países como algo equivalente à proximidade entre duas cidades vizinhas, pois, no primeiro caso os custos de transportes não podem ser desprezados e os países apresentam estruturas tributárias diferentes que acabam introduzindo novos elementos de diferenciação. Além disso, quando consideramos P e P*, estamos trabalhando não com um bem (como no caso do combustível de nosso exemplo), mas com uma cesta de bens, já que estas duas variáveis são na verdade índices de preços. Sendo assim é preciso levar em conta as diferenças metodológicas no cálculo dos dois índices, com especial atenção para a composição das cestas de bens que são a base para o cálculo dos índices em cada um dos países.\ufffd Enfim, existe uma série de argumentos que torna frágil a idéia segundo a qual a convergência entre os preços dada pela expressão acima venha algum dia a ser realidade tornando verdadeira a taxa de câmbio de longo prazo. Contudo, como vimos no capítulo 5, a existência das diferenças que impedem que essa convergência possa ocorrer é de fundamental importância na realização de análises comparativas entre diferentes economias nacionais.\ufffd
Existe ainda uma outra aplicação para a abordagem da paridade do poder de compra. Na seção 6.4.1 vimos que a taxa de câmbio real (E) é dada pela taxa de câmbio nominal (e) ajustada pela relação de preços entre os dois países aos quais a taxa se refere (P*/P), ou seja 
	E = 
	e .
	 P*
	
	
	
	 P
	
Essa expressão nos diz que, sempre que os níveis de preços dos dois países forem idênticos (P* = P, de modo que P*/P = 1), a taxa real de câmbio será igual à taxa de câmbio nominal (E = e). Ora, mas quando isso acontece, a taxa de câmbio nominal está no nível de seu equilíbrio de longo prazo, ou seja, está no nível PPP, uma vez que ocorreu justamente a convergência entre os níveis de preço dos dois países. É também fácil perceber que, fazendo, nesta fórmula, E = 1, chegamos à fórmula anterior (P = e.P*). Em outras palavras, pode-se dizer que, sempre que a taxa nominal de câmbio for igual à taxa de longo prazo, ou PPP (ou seja, sempre que e = P/P*) , então ela também será necessariamente igual à taxa real de câmbio. Assim, a fórmula para a taxa real de câmbio pode ser derivada da abordagem PPP. 
Para fechar esta seção e a título ilustrativo apresentamos no gráfico abaixo a evolução da taxa nominal de câmbio do Brasil no período