Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos145 materiais1.375 seguidores
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a posição do Brasil é deficitária, sendo que tal déficit vem crescendo significativamente nos últimos anos. Assim, se a dívida externa em si hoje não preocupa tanto (o valor total alcançado pelos estoques de empréstimos de não residentes a residentes é de cerca de US$ 146 bilhões em dezembro de 2010 \u2013 vide a rubrica empréstimos do passivo da tabela), a situação muda de figura quando levamos em conta a totalidade dos ativos e passivos, pois aí aparece um saldo negativo de mais de US$ 700 bilhões. 
A Posição Internacional de Investimentos indica o valor do passivo externo líquido do país num dado momento (totalidade do passivo, descontados os valores dos ativos e das reservas internacionais). 
Aquilo que anteriormente tanto preocupava as autoridades, a famosa dívida externa, é na realidade apenas um dos itens do passivo, àquela época, de fato, o mais importante deles. Hoje, porém, com os fenômenos decorrentes da internacionalização financeira, o que é preciso considerar é o passivo externo como um todo, e não apenas os valores referentes a empréstimos. Mas, no caso brasileiro, além do montante em si do passivo externo, extremamente elevado, preocupa a evolução desse valor, bem como sua composição. Os números da tabela, portanto, revelam alguns pontos inquietantes e que contradizem o senso comum em relação à posição supostamente confortável do setor externo de nossa economia nos últimos anos do período considerado. Assim, por exemplo, em 31 de dezembro de 2010, verificamos a existência de um passivo externo de quase US$ 1,3 trilhão para um volume de reservas de cerca de US$ 300 bilhões. Além disso, os investimentos em carteira, constituídos por ações e títulos de renda fixa (como títulos públicos), representam a metade desse passivo. Isso torna a situação ainda mais delicada, porque diferentemente de outros tipos de passivo, como os decorrentes de investimentos diretos, essas aplicações podem ser rapidamente negociadas nos mercados secundários e sair do país.\ufffd Os dados da tabela mostram também que os investimentos em carteira são os que crescem mais rapidamente: seu valor ao final de 2010 é praticamente 4 vezes maior que ao final de 2003, enquanto que a mesma relação é de 3,5 para os investimentos diretos e de 3,2 para o passivo como um todo. 
Assim, apesar da significativa melhora em alguns de nossos indicadores externos e do substantivo volume de reservas internacionais de que hoje dispõe o país, não se pode dizer que o Brasil esteja completamente seguro no que diz respeito a suas contas externas. Além disso, os continuados períodos de apreciação de nossa moeda têm levado o país de volta a uma posição que já teve no passado e que se pensou que tivesse sido superada: a de exportador de produtos primários, predominantemente. Com o real tão valorizado, nossos produtos industriais perdem mercado externo (e também interno), pois tornam-se muito caros. Isso acontece também com os produtos primários, mas, conforme já antecipado, neste caso, o Brasil tem se beneficiado de um continuado período de aumento dos preços das commodities e de demanda externa em elevação, o que mantém os incentivos à exportação e favorece as vendas externas desses bens. Mesmo assim, isso não tem sido suficiente para contrabalançar o forte elemento negativo representado pela taxa de câmbio. Não é por acaso, portanto, que nossa balança comercial, que chegou a apresentar um superávit de quase 50 bilhões de dólares em 2006, registrou um resultado positivo de apenas US$ 20 bilhões em 2010. Do ponto de vista de nossas contas externas, isso significa que não é sustentável por muito tempo uma situação em que as transações correntes apresentam resultados sistematicamente negativos e crescentes. 
A política que inunda nossa economia de dólares provenientes de investimentos externos pode parecer saudável no curto prazo, pois produz seguidos resultados positivos no Balanço de Pagamentos e aumenta nossas reservas, mas revela-se temerária no médio e longo prazos, pois aprecia nossa moeda e produz uma situação insustentável. As informações trazidas pela Posição Internacional Investimentos nos ajudam a perceber com mais clareza essa fragilidade, uma vez que apresentam os valores dos estoques de ativos e passivos externos, permitindo-nos redimensionar os contornos da verdadeira situação do país. 
 
 Resumo
Os principais pontos vistos neste capítulo foram:
O Balanço de Pagamentos (BP) registra a totalidade das transações entre o país e o resto do mundo, e sua mecânica contábil obedece ao princípio das partidas dobradas. Em termos mais formais, dizemos que o balanço de pagamentos registra todas as transações entre residentes e não residentes de um país num determinado período de tempo.
Definem-se como residentes de um país todas as pessoas, físicas ou jurídicas, que tenham esse país como seu principal centro de interesse: pessoas que moram permanentemente no país; todas as empresas sediadas no país, inclusive as filiais de empresas estrangeiras; e o próprio governo. Incluem-se ainda, na categoria de residentes, embaixadas e consulados que se encontram em outros países. Por exclusão, temos a definição de não residentes.
O Balanço de Pagamentos é formado por seis grupos de contas: a balança comercial, que registra as exportações e importações de bens tangíveis; a balança de serviços, ou de invisíveis, que registra as operações relacionadas com transportes, viagens, e serviços governamentais, ou seja, bens intangíveis; a balança de rendas, que registra o pagamento e recebimento de juros, lucros e demais formas de remuneração de fatores de produção; as transferências unilaterais, que, como o próprio nome sugere, registram transferências de mercadorias ou recursos (transações sem contra\u200bpar\u200btida); a conta capital, que registra as transferências de patrimônio (transações sem contrapartida); e, finalmente, a conta financeira, que registra os investimentos externos no Brasil e os de brasileiros no exterior, os empréstimos entre residentes e não residentes e outras transações envolvendo ativos e passivos. Além desses grupos, registra-se também a rubrica erros e omissões, para fazer frente a eventuais diferenças contábeis.
Somando-se os saldos da balança comercial, de serviços e rendas e das transferências unilaterais, chega-se ao saldo do Balanço de Pagamentos em transações correntes ou da conta corrente do Balanço de Pagamentos. Somando esse saldo à conta capital e financeira \u2014 e considerando eventuais erros e omissões \u2014, chega-se ao saldo total do Balanço de Pagamentos. A conta Haveres da Autoridade Monetária \u2013 variação, disposta logo abaixo do resultado final do BP, demonstra o que ocorreu com as reservas internacionais do país no período a que se refere o balanço. 
Déficits no Balanço de Pagamentos em transações correntes devem ser compensados por superávits na conta capital e financeira. Caso o resultado dessa conta seja insuficiente para cobrir o déficit, teremos um saldo total deficitário no Balanço de Pagamentos, que deverá ser compensado pela redução das reservas. Não sendo assim, se, por exemplo, não houver reservas suficientes para enfrentar o déficit, empréstimos de regularização (empréstimos efetuados junto a organismos multilateriais como o FMI) terão sido efetuados e/ou atrasados (declaração de moratória) terão sido lançados na conta financeira, para que o equilíbrio contábil do BP seja obtido. No caso de ter havido superávit no saldo total do balanço de pagamentos, ele aparecerá como aumento de reservas. 
Tal como acontece com as contas do Sistema de Contas Nacionais, a contabilidade do BP também obedece o princípio das partidas dobradas e a necessidade dos equilíbrios interno e externo. A conta Haveres da Autoridade Monetária funciona como uma conta de Caixa, de modo que toda operação que implica entrada de recursos externos no país é lançada a débito, e toda operação que implica saída de divisas do país é lançada a crédito. Por isso a variação dessa