Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos145 materiais1.375 seguidores
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dos governos, que se combina com a abertura dos mercados financeiros internos ao exterior, é a formação dos mercados de bônus liberalizados, permitindo ampliar o mercado para papéis como bônus do Tesouro e outros títulos de dívida pública. 
Paralelamente, a desvinculação do dólar ao ouro por decisão do presidente Nixon, em 1971, pôs fim ao regime de Bretton Woods e seu sistema de taxas fixas de câmbio, que tinha vigorado por quase três décadas. Abrem-se então as portas não só para a predominância do regime de câmbio flutuante, como para uma situação de instabilidade monetária em nível mundial. O mercado de câmbio e seus derivativos passam a constituir assim, para esse capital financeiro \u201ccigano\u201d e cada vez mais inflado, mais uma atraente alternativa de valorização, que traz ainda a vantagem de assegurar a máxima liquidez. 
Como resultado de todo esse processo, os estoques de ativos financeiros foram crescendo de modo muito mais rápido do que os investimentos em capital fixo, realimentando o movimento e repondo-o em escala cada vez mais ampliada.\u200b Segundo dados da McKinseys Global Institute (uma das poucas instituições internacionais a acompanhar esse tipo de variável), o estoque mundial de ativos financeiros, que era da ordem de US$ 11 trilhões em 1980, ou seja, o equivalente ao valor do PIB mundial de então (US$ 11,8 trilhões), encerrou 2010 na casa dos US$ 210 trilhões, o equivalente a 3,7 vezes o PIB mundial (US$ 55, 9 trilhões) e isso sem colocar na conta, dadas as dificuldades conceituais e técnicas que existem para sua mensuração) os investimentos em derivativos. Apesar de estarmos aqui comparando um dado de estoque (riqueza financeira), com um dado de fluxo (PIB), esse exercício é útil para nos dar uma idéia não só da velocidade de crescimento da riqueza financeira, como do crescente descompasso entre o valor dessa riqueza e o valor da riqueza real (que supõe-se, esteja crescendo em velocidade semelhante à do PIB). 
Para países como Brasil, tradicionalmente deficitários em sua balança de serviços e rendas, pode parecer vantajosa a existência de um mercado de capitais mais integrado e internacionalizado, já que se ampliam os mercados para os haveres financeiros de curto prazo emitidos pelo país (moeda e títulos da dívida pública) e, por conseguinte, melhoram as possibilidades de compensar os déficits na conta corrente do Balanço de Pagamentos com o movimento de capitais, particularmente com os investimentos de portfólio. Entretanto, como vimos, a realização desse tipo de aplicação pelo capital internacional visa, quase sempre, fins especulativos (realizar arbitragens com câmbio e juros internos e externos), buscando a maior rentabilidade possível e resguardando o máximo de liquidez. Uma grande dependência desse tipo de capital obriga, portanto, à manutenção de elevadas taxas reais de juros, além de gerar persistentes pressões sobre a política cambial. A vulnerabilidade do país a crises externas e a ataques especulativos contra sua moeda cresce pari passu ao aumento de sua dependência em relação aos chamados capitais de curto prazo. 
Mas o problema maior talvez seja o fato de que, uma vez iniciados nessa roda viva, torna-se muito difícil aos países encontrarem o caminho de volta, visto que, pela sua própria dinâmica, ela tende a tornar os países tradicionalmente importadores de capital cada vez mais dependentes e menos autônomos. As exigências dos capitais de curto prazo acabam por ditar as regras não só das políticas cambial, monetária e comercial, como também daquelas voltadas para o crescimento, para o emprego e para os gastos sociais, que passam a ser continuamente prejudicadas. 
Dada, porém, a engrenagem da internacionalização financeira, mesmo os países que se comportam da melhor forma possível relativamente às exigências dos capitais de curto prazo, arcando com todos os custos dessa decisão em termos de renda e emprego, podem ser vítimas, a qualquer momento, de um ataque especulativo, seguido de fuga em massa de capitais. Pouco importa, no caso, se o ataque tem fundamento real ou se é mero reflexo condicionado de crises que se deram em outros lugares. A vulnerabilidade do país é a mesma. 
Com a intensificação do processo de internacionalização financeira e sua difusão também para o mercado de ações, o mundo assistiu, a partir de meados dos anos 1980, a uma onda sem precedentes de crises que atravessou o planeta e atingiu praticamente todos os mercados: em 1987 a crise das bolsas de Wall Street, seguida de uma forte crise imobiliária em 1990; em 1992 a crise da libra esterlina; ao final de 1994, a quebra do México; em julho de 1997, a Tailândia e, em menos de dois meses, todo o sudeste asiático; menos de um ano depois, em agosto de 1998, a Rússia; em janeiro de 1999 é a vez do Brasil, seguido, pouco depois, pela Argentina; em 2000/2001 a crise das chamadas \u201cempresas .com\u201d, que atingiu as bolsas de Nova York e do mundo inteiro; por fim, a crise subprime, que deu seus primeiro indícios em 2007 e estourou de vez em setembro de 2008. No momento em que esta reedição do A Nova Contabilidade Social está sendo escrita (meados de 2011), uma nova onda de crises atinge agora países centrais como Portugal, Irlanda e Itália, tendo sido precedidas pela crise da Grécia. A julgar pelo descompasso anteriormente indicado, a tendência é que continuemos a assistir a crises em série, pois a valorização financeira da riqueza traz junto com ela inevitavelmente a formação das chamdas bolhas de ativos, que sempre acabam por estourar, independentemente do barulho que façam. 
A maior integração e internacionalização dos mercados financeiros aprofunda assim o chamado risco sistêmico. Este último pode ser definido como o risco de propagação de problemas em empresas que apresentam características semelhantes em sua atividade econômica. O risco sistêmico é mais evidente no sistema bancário: a falência de um banco tende a se propagar ao longo do sistema bancário; se as pessoas acreditam que o problema é comum a todos os bancos, isso pode gerar uma corrida bancária com conseqüências drásticas para o sistema de pagamentos da economia. Assim, diante da internacionalização das atividades financeiras, o risco sistêmico passa a não se limitar às economias nacionais. Tal contingência alia-se aos riscos mais elevados associados às estratégias naturalmente mais agressivas dos fundos, bancos e outras instituições financeiras, num ambiente dominado pela concorrência internacional. É em função de considerações como essas que tem crescido a preocupação com a estabilidade do sistema financeiro internacional e que propostas têm surgido a fim de se encontrar alguma forma de controle que minimize o risco sistêmico.
\ufffd Essa estrutura foi ligeiramente adaptada em função de necessidades didáticas. Algumas explicações sobre o significado econômico e/ou técnico das rubricas foram acrescentadas. Para maiores informações consultar Nota Técnica do Banco Central do Brasil n°1, junho de 2001.
\ufffd Cabe destacar que a expressão sem contrapartida não significa que as transferências unilaterais não guardem contrapartida de lançamento contábil, pois, como vimos, todo e qualquer tipo de lançamento no balanço de pagamentos tem de respeitar o método das partidas dobradas. Sem contrapartida, aqui, significa simplesmente que houve uma transferência de recursos entre os países sem que tenha havido em sua origem uma transação econômica, ou seja, uma troca (como ocorre quando das importações e exportações de bens e serviços). Mais adiante, quando discutirmos a sistemática de contabilização do balanço e pagamentos, veremos como se estruturam as contrapartidas contábeis no caso das transferências. \ufffd
\ufffd\u201cDivisa\u201d é outro dos termos utilizados para fazer referência à moeda internacional (aquele tipo de moeda que é aceita em qualquer transação envolvendo residentes e não residentes). Conforme já informado, atualmente a divisa mundial é o dólar americano. Em determinados tipos de transação, também outras moedas como o euro (moeda européia) ou o iene