Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos145 materiais1.375 seguidores
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não são integralmente pagas à vista, sendo ao menos uma parte de seu valor parcelada. Por exemplo, um exportador pode financiar a venda de suas mercadorias, de modo que o país receba esses recursos não de uma só vez, mas em parcelas. Da mesma forma um importador pode comprar mercadorias desembolsando aos poucos os recursos necessários para pagá-las. O que diferencia estes créditos dos financiamentos da conta anterior é que aqui trata-se de financiar operações correntes, enquanto lá estão envolvidas transações com capital, como é o caso, por exemplo, de uma compra de empresa. 
A oferta de crédito é um dos elementos que pode determinar o nível de exportações de um país. Se os exportadores não tiverem nenhuma condição de oferecer crédito a seus clientes, ou seja, de parcelar suas vendas, certamente perderão muitos negócios para outros concorrentes que podem fazê-lo. A possibilidade de que isso aconteça de forma adequada está ligada à política de crédito do país, particularmente à política monetária, responsável pela determinação da taxa de juros.
O item 7.3.3, moeda e depósitos, é um item que vem ganhando importância nos anos recentes em função da intensificação dos processos de abertura financeira. Eles referem-se à possibilidade de que residentes mantenham legalmente recursos em divisas fora do país e/ou que não internalizem recursos provenientes de vendas realizadas a não residentes. Assim, por exemplo, um exportador brasileiro de suco de laranja pode optar por não internalizar a totalidade dos recursos obtidos com suas vendas, solicitando ao seu cliente que deposite parte do valor das mercadorias numa conta bancária mantida fora do país. Neste caso, a parcela de valor que não é internalizada entra com sinal negativo no BP e funciona como se fosse um investimento que um residente fez fora do país (portanto em divisas).
Finalmente, o item 7.3.4 que fecha a conta financeira e esta segunda parte do BP abriga qualquer outro tipo de transação envolvendo ativos que não se enquadre nas anteriores. 
Teríamos com isso as informações necessárias para apurar o saldo do BP, bastando para tanto somar o saldo da conta corrente com o saldo da conta capital e financeira. Contudo isso ainda não é possível, pois precisamos de um lançamento adicional (item 8), por conta da existência de erros e omissões. Se a contabilidade de uma empresa tem um grau de complexidade nada desprezível, imagine-se a contabilidade de um país. Os lançamentos a débito e a crédito efetuados no BP provêm de diversas fontes de informação, gerando, na prática, um total líquido diferente de zero. Segundo o Bacen, a principal causa desse tipo de problema está nas discrepâncias temporais das diversas origens dos dados utilizados. Ou seja, apesar do completo respeito ao princípio das partidas dobradas, a existência de dificuldades operacionais impede que seja zero o resultado final de todos os lançamentos efetuados. Surge daí o lançamento denominado erros e omissões, que é um valor de chegada, ou seja, ele é calculado justamente para tornar nula, no balanço de pagamentos, a somatória de débitos e créditos. 
Cabe perguntar por que esse item está colocado exatamente nessa posição, ou seja, como o último item antes da apuração do saldo total do balanço de pagamentos (item 9). Para responder a essa pergunta, precisamos relembrar alguns pontos. Como vimos, o saldo em conta corrente do balanço de pagamentos (item 5) mostra o resultado que o país obteve, no período em questão, a partir de suas operações correntes. Se é positivo, o país, ao longo de suas operações de compra e venda de bens e serviços, pagamento e recebimento de fatores de produção, e envio e recebimento de transferências correntes levadas a efeito durante o período, acumulou divisas, ou seja, produziu mais desses recursos do que deles necessitou. Assim, ou o país utilizou esse superávit para realizar investimentos em outras economias, ou lhes concedeu empréstimos, ou, simplesmente, decidiu aumentar as reservas em divisas do país (variação na conta haveres da autoridade monetária). Ao contrário, se o resultado for negativo, isso significa que no mesmo período, e contando com suas operações correntes, o país não foi capaz de gerar os recursos necessários para honrar seus compromissos em moeda estrangeira. Terá, então, de obtê-los de outra forma: vai tomar empréstimos, ou vai atrair investimentos estrangeiros e capitais de curto prazo, ou vai consumir reservas, se as tiver, ou vai pedir socorro ao FMI, ou, em último caso, simplesmente não vai pagar. 
Com tudo isso, já deve ter ficado claro ao leitor que o saldo do balanço de pagamentos (item 9) deve ser idêntico à variação da conta haveres da autoridade monetária (item10).\ufffd Tendo em vista que este último item pode ser considerado como uma \u201cconta de caixa\u201d, podemos reputá-lo tal como as contas usuais de ativos das empresas \u2014 ou seja, os acréscimos são lançados a débito (sinal negativo) e as diminuições a crédito (sinal positivo) \u2014, de onde deduz-se facilmente que a soma de ambos os saldos deve ser nula. De fato, uma vez considerados os gastos e despesas correntes (cujo saldo aparece no item 5) e as entradas e saídas de recursos relativas à conta capital e financeira (itens 6 e 7), o resultado então obtido é o saldo do balanço de pagamentos propriamente dito ou saldo total do balanço de pagamentos. A conta haveres das autoridades monetárias apenas demonstra esse resultado. Assim, por exemplo, se o saldo total do balanço de pagamentos (item 9) foi positivo em US$ 500 milhões, as reservas do país devem ter se elevado nesse mesmo montante, o que estará registrado sob a forma de um resultado devedor na variação da conta haveres (item 10). 
Contrariamente, um saldo negativo no balanço de pagamentos significa que, no período em questão, o país teve de utilizar parte de suas reservas (haveres) para saldá-lo. Pode ter acontecido de o país não ter conseguido atrair os capitais ou obter os empréstimos e financiamentos necessários para honrar seus compromissos externos com importação de bens e serviços, fatores e não fatores, e com amortizações de antigos empréstimos. Assim, teve de utilizar as reservas para financiar o déficit no Balanço de Pagamentos.\ufffd Dessa forma, se chamarmos o saldo do balanço de pagamentos de BP e o valor resultante das variações de haveres de R (de reservas), diremos que:
	BP = - R
	ou
	BP + R = 0
Ou seja, um saldo positivo no balanço de pagamentos implica um saldo negativo na conta haveres, lembrando que um saldo negativo nesta última significa uma elevação das reservas do país. Sem muito esforço o leitor perceberá também que o resultado do balanço de pagamentos em transações correntes (TC) é igual ao sinal inverso da soma do resultado da conta capital e financeira (CF) com o saldo das variações de reservas (R), ou:
	
	TC = - (CF + R) 
Assim, resumidamente, poderíamos dizer que, em face de um déficit em seu balanço de pagamentos em conta corrente, um país pode tentar obter os recursos que faltam por meio de operações de investimento, empréstimos ou financiamentos, ou mesmo a partir dos capitais de curto prazo. É o resultado desse esforço que vai determinar se o país vai ganhar ou perder reservas no período, ou ainda se terá ou não de pedir auxílio a instituições como o FMI ou simplesmente não honrar os compromissos. Por isso a soma de CF com R explica como o país resolveu seu problema de déficit em transações correntes. Da mesma maneira, no caso de um superávit em conta corrente, a soma de CF com R vai explicar que destino o país deu aos recursos adicionais obtidos no período em questão.
Todavia, como já vimos, as imperfeições existentes no processo de registro das informações podem fazer com que haja diferenças entre os valores apurados para BP e a variação de R, de modo que sua soma não se mostre nula. Como as contas referentes às reservas são de controle muito mais preciso (exercido pelo Banco Central), parte-se então do pressuposto de que o erro deve estar nas contas que integram as transações correntes