Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos146 materiais1.375 seguidores
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período.\u200b 
Como mostram esses dados, a partir de 1999 esses déficits reduzem-se muitíssimo, transformando-se, de 2001 em diante, em superávits que crescem substantivamente até 2006, reduzindo-se a partir de então. A magnitude destas últimas variações é um indicador poderoso do tamanho do erro cometido na fixação da taxa de câmbio no período anterior em patamares tão elevados, visto que tal movimento só tem lugar a partir da desvalorização do Real, ocorrida em janeiro de 1999. 
Interessante notar o período que vai de 2003 a 2007. Além dos altos valores no superávit da balança comercial, o país também obteve superávits em transações correntes, o que não ocorria há muito tempo em suas contas externas. Tal fato se explica pelo forte crescimento da economia mundial e pela alta demanda e preços das commodities, muitas das quais presentes na pauta de exportação do Brasil. Esse período permitiu ao Brasil acumular grande volume de reservas internacionais, além tornar-se credor líquido internacional. A partir de 2008, os pesadíssimos déficits da balança de serviços e rendas acabam por reverter essa situação e o país volta a produzir pesados déficits em transações correntes, tendo atingido a cifra inédita de US$ 47 bilhões no último ano do período.
Apesar desse comportamento, entretanto, a história nem sempre foi positiva para o país, que tradicionalmente foi deficitário em transações correntes. Os motivos desses déficits recorrentes podem ser encontrados, dentre outros fatores, na remessa de lucros e dividendos ao exterior por parte das empresas estrangeiras e no pagamento de juros incidentes sobre a dívida externa, que é o estoque de débitos que o país teve durante muito tempo em relação a credores externos, o qual decorre, por sua vez, dos empréstimos e financiamentos anteriormente obtidos e ainda não liquidados. Tal comportamento da balança de serviços acabou por levar o país a apresentar sucessivos déficits no balanço de pagamentos em transações correntes,\ufffd que foram financiados com a entrada de capitais. 
Assim, além de um aumento permanente na própria dívida externa, a persistência dos déficits em conta corrente foi levando o país a uma crescente dependência do sistema financeiro internacional, dada a necessidade da obtenção de superávits na balança de capitais. As conseqüências perversas dessa crescente dependência tornam\u200b-se claras em 1982: a contínua deterioração dos indicadores externos do país, decorrente das pressões impostas pelos choques do petróleo e pela enorme elevação dos juros internacionais, mas também por equívocos na condução da política cambial, acabou por levar a uma retração na entrada de capitais que perdurou por uma década. Assim, ao longo do período 1982-1991, o balanço de pagamentos do Brasil mostrou-se, com raras exceções, sistematicamente deficitário. Os resultados só não foram ainda piores porque, a partir de 1983, a balança comercial brasileira retomou sua tendência histórica de obtenção de superávits. De fato, no período 1983-1994, o país logrou polpudos superávits em suas operações comerciais, que giraram em torno dos US$ 10 bilhões anuais e chegaram quase aos US$ 20 bilhões em 1988. Mesmo assim, o país teve de pedir ajuda ao FMI (em vários momentos) e declarar moratória (1987). 
A partir de 1992, em decorrência de uma conjuntura externa mais favorável e da continuidade dos resultados extremamente positivos da balança comercial, o Brasil passa a experimentar um forte fluxo de entrada de capitais, que, juntamente com o bom desempenho das transações correntes, permitiu ao país um grande acúmulo de reservas internacionais em montantes jamais atingidos. Essa folga nos recursos externos propiciou, de seu lado, as condições objetivas para a sustentabilidade da estabilização monetária adquirida com o Plano Real. Contudo, a sobrevalorização cambial, que nasce junto com o plano em meados de 1994, juntamente com a política de abertura comercial (também esta uma das peças-chave do plano) reverteram rapidamente os saldos comerciais favoráveis observados ao longo de ininterruptos 14 anos. Assim, em 1995, já se registrava um déficit de US$ 3,3 bilhões, que se repetiria ampliadamente nos anos subseqüentes.
 Tais déficits, entretanto, foram compensados pelas expressivas entradas de capitais, boa parte deles capitais de curto prazo, atraídos pelas altas taxas de juros internas, além dos dólares resultantes das operações de privatização e das operações de venda, ao capital estrangeiro, de importantes parcelas do capital privado nacional. Contudo, a crescente vulnerabilidade do país, dada a crescente necessidade de capital externo decorrente da permanência dos resultados negativos em conta corrente, bem como a crescente suspeita a respeito da insustentabilidade da taxa de câmbio foram fazendo refluir esse movimento, tendência essa que se viu definitivamente confirmada quando da eclosão das crises asiática (setembro de 1997) e russa (agosto de 1998). Assim, entre setembro de 1998 e janeiro de 1999, o país perdeu cerca de US$ 40 bilhões em reservas e viu-se obrigado não só a recorrer ao FMI como a desvalorizar a moeda (o que aconteceu em janeiro de 1999) e mudar o regime cambial.\ufffd Até então o Brasil trabalhava com um regime de câmbio fixo atenuado estabelecendo bandas para o comportamento da taxa de câmbio. A partir do advento da crise, o regime passa a ser o de câmbio flutuante, com a eventual intervenção do Banco Central quando necessário. 
Contudo, como já comentamos, eventuais déficits nas contas externas não constituem necessariamente motivo de preocupação. O problema surge quando esses déficits passam a ser recorrentes e tendem a se ampliar continuamente, como aconteceu com o Brasil a partir de 1994. Sucessivos déficits em transações correntes acabam por tornar o país fortemente dependente do movimento internacional de capitais, deixando-o vulnerável às crises internacionais, que estão longe de serem exceções no mundo capitalista moderno. Tal vulnerabilidade acaba por reduzir os graus de liberdade à disposição das autoridades na condução da política econômica, forçando o país, em momentos críticos, a implementar políticas de ajustamento de caráter recessivo, que impõem grandes sacrifícios à sociedade, particularmente nas mais pobres ou profundamente desiguais como o Brasil.
Cabem ainda algumas palavras sobre a reversão do resultado positivo da conta corrente do Balanço de Pagamentos nos três últimos anos da série. Como já comentamos, a partir de 2008, a balança de transações correntes voltou a ser negativa e, desta vez, pesadamente negativa: déficits de US$ 27, US$ 24 e US$ 47 milhões nos anos de 2008, 2009 e 2010 respectivamente. Ora, isso foi o resultado não só da redução dos valores do superávit comercial, como, principalmente, da virtual explosão dos resultados negativos das balanças de serviços e rendas, que chegaram a menos US$ 70 bilhões no último ano da série. 
Quando se investiga a composição desses déficits (consulte os valores no apêndice estatístico ao final do livro) percebe-se que os vilões da história são as despesas com transporte e turismo e, principalmente, as remessas de lucros, dividendos e juros. Ocorre que, com a persistência da sobrevalorização de nossa moeda, fica muito barato o envio de rendas ao exterior, construindo-se assim um forte incentivo para a intensificação dessas operações. Da mesma maneira, as viagens ao exterior ficam muito baratas e nosso turismo interno muito caro, tanto para os residentes quanto para os não residentes, resultando num saldo fortemente negativo. Só para ilustrar a situação, cabe apresentar os dados relativos a gastos com cartões de crédito feitos por residentes no exterior: eles passaram de uma média em torno de US$ 1,5 bilhão no período 2001-2004 para US$ 6,5 bilhões em 2008-2009 e US$ 10,2 bilhões em 2010. Não custa lembrar que, em termos das transações correntes como um todo, os resultados só não são ainda mais negativos em função dos elevados preços em dólar das commodities que o Brasil exporta (soja, minério de ferro