Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos146 materiais1.375 seguidores
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externa, isto é, a inflação do país cuja moeda estamos considerando no cálculo da taxa de câmbio (inflação dos Estados Unidos, se estivermos calculando a taxa de câmbio da moeda doméstica em relação ao dólar americano).	
Vejamos um exemplo simples. Suponhamos que, no período 1, a taxa de câmbio do país H tenha sido de $ 1,00 e que, no início do período 2, tenha mudado para $ 1,10 (valorização nominal do dólar de 10% e desvalorização nominal da moeda doméstica de 9,1%). Suponhamos ainda que, no período 1, a inflação interna tenha sido de 20%, enquanto a externa (dos Estados Unidos) tenha sido de 5%. O quadro a seguir mostra o que acontece com a taxa real de câmbio.
	Exemplo de variação da taxa real de câmbio
	Período
	Taxa nominal
e
	P*
	P
	Taxa real
(moeda do país H por dólar)
E
	Taxa real
(dólares por moeda do país H)
1/E
	Variação percentual
(%)
{[(1/E2)/(1/E1)]-1}*100
	Período 1
	1,00
	100
	100
	1,00
	1,00
	-
	Período 2
	1,10
	105
	120
	0,9625
	1,039
	3,9
Podemos notar que, apesar da desvalorização nominal de 9,1%, que implicou uma valorização nominal do dólar de 10%, em termos reais tivemos uma valorização da moeda doméstica de aproximadamente 3,9%. Essa valorização decorre do fato de que o crescimento nominal do câmbio em 10% não foi suficiente, mesmo considerando a inflação externa de 5%, para compensar a elevação interna dos preços da ordem de 20%. Assim, tudo mais constante, tal comportamento do câmbio tenderá a desestimular as exportações e estimular as importações, já que está tornando mais cara a moeda doméstica.
Contudo, o conceito de taxa de câmbio real apresentado enfrenta alguns problemas de ordem teórica e prática. Em primeiro lugar, existe uma série de outros fatores importantes no cálculo da taxa de câmbio real, tais como o grau de abertura da economia, a preferência dos consumidores e os ganhos de produtividade no setor exportador. A análise de todas essas variáveis, porém, escapa aos objetivos deste livro, ficando como sugestão ao leitor interessado a consulta de um bom livro de comércio internacional. Em segundo lugar, a inflação é um cálculo médio que inclui uma série de bens e serviços, muitos dos quais não são comercializados no mercado internacional. Assim, uma inflação anual de 20% não significa que todos os bens e serviços produzidos no país tenham aumentado 20%. Um bem que esteja sendo exportado pode até ter tido seu preço reduzido.\ufffd Concluindo, existe algum grau de arbitrariedade na utilização da fórmula apresentada. Entretanto, sua apresentação serve para demonstrar que uma valorização ou desvalorização nominal pode não significar muita coisa.\ufffd O conceito de dólar PPP (ou PPC) está também intimamente ligado a todas essas questões. Voltaremos a esse ponto na seção 6.4.4.
6.4.2 Regimes Cambiais
Até o momento nos detivemos em conceitos referentes à taxa de câmbio, sem nos preocuparmos com os fatores que determinam o seu valor. Entretanto, o nível dessa taxa pode ser determinado ou pelas forças de mercado (pelo confronto entre oferta de divisas e demanda por elas) ou a partir da interferência do governo no mercado cambial (fixando a taxa). Dadas essas duas possibilidades, podem ser definidos basicamente três regimes para o mercado cambial: regime de câmbio flutuante, regime de câmbio fixo e regime misto. Vejamos mais de perto cada um deles.
No regime de câmbio flutuante, a taxa de câmbio oscila livremente para garantir o equilíbrio do mercado, isto é, o equilíbrio entre oferta e demanda por moeda estrangeira. Nesse regime, a oferta é determinada pelos exportadores e pelos demais residentes que recebem renda e outros recursos de não residentes. Já a demanda é exercida pelos importadores e pelos residentes que transferem renda e demais recursos para o resto do mundo. Evidentemente, quanto maior for a taxa real de câmbio, menor será a quantidade de moeda estrangeira procurada, visto que ela significa que os bens e serviços importados estão caros em moeda doméstica. Contrariamente, quanto menor for a taxa real de câmbio, maior será a procura por divisas. Por razões óbvias, no que diz respeito à oferta, tais relações são inversas. Dessa forma, no regime de câmbio flutuante, podemos considerar a moeda estrangeira como uma mercadoria como qualquer outra e desenhar para ela as curvas usuais de oferta e demanda, positivamente inclinadas no primeiro caso, negativamente inclinadas no segundo, tal como no gráfico a seguir.
Nesse sistema não há, portanto, qualquer interferência da autoridade econômica (no caso o Banco Central) no mercado cambial, ficando a taxa determinada pelas livres forças da oferta e da demanda por divisas. Assim, se, num determina\u200bdo momento, há um aumento na procura por moeda estrangeira, a taxa de câmbio tende a se desvalorizar, o oposto ocorrendo se houver um aumento na oferta. 
No caso oposto, temos o regime de câmbio fixo, cujo nível é determinado pelo Banco Central. Obviamente, não se determina o nível da taxa de câmbio por decreto ou qualquer outro tipo de norma. O mecanismo de intervenção se dá a partir da compra e venda da moeda estrangeira no mercado, pelo Banco Central, por um valor fixo. Nesse caso é necessário que o Banco Central disponha de reservas suficientes para ser o grande vendedor do mercado. Se, por exemplo, o governo do país A fixar o câmbio em A$ 1,00 por dólar americano, o Banco Central desse país deve dispor de reservas suficientes para, a essa taxa, trocar por dólar qualquer quantidade de moeda nacional. Se ele julgar que não possui as reservas suficientes, ou se, por alguma razão, julgar que não é conveniente perder um montante muito grande de reservas, só lhe restará a alternativa de desvalorizar o câmbio, ou seja, tornar mais caro, em moeda doméstica, o dólar americano e, assim, desestimular sua demanda. 
 Uma modalidade de câmbio fixo que foi muito comentada nos anos 1980 e 1990 é o chamado currency board. Dado por alguns como a solução definitiva para os recorrentes problemas externos enfrentados pelos países menos desenvolvidos, esse sistema consiste na fixação de uma determinada taxa que deve ser mantida pelo governo custe o que custar. A decisão pela adoção desse tipo de sistema tem conseqüências também para outras esferas da política econômica, particularmente para a política monetária, já que isso implica adotar a regra de que só pode ser emitida moeda nacional que tenha lastro em divisas. Em outras palavras, isso quer dizer que, com a adoção do currency board perde-se um grau de liberdade muito importante na condução da política econômica, pois a definição do volume de meios de pagamento (oferta de moeda) que deve circular no país em cada momento fica na dependência do movimento das divisas.\ufffd Na realidade, o currency board é uma espécie de versão contemporânea do antigo padrão-ouro, adaptada a um mundo em que o meio internacional de pagamento não tem mais relação com o metal precioso, mas é uma moeda inconversível, cuja garantia é dada tão-somente pela confiança (fidúcia) no estado nacional que a emite, no caso, os Estados Unidos da América. 
O Brasil já teve ao longo de sua história algumas experiências com esse tipo de sistema, como o Convênio de Taubaté, de 1906, e a Caixa de Estabilização adotada pelo governo de Washington Luís em 1926. Nos anos 1980, com o agravamento do problema inflacionário, surgiram mais uma vez propostas desse tipo, visando estabilizar monetariamente a economia e resolver os problemas com as contas externas, mas nada parecido com isso chegou a ser adotado em nosso país. A Argentina, porém, adotou um sistema desse tipo no início dos anos 1990 e, para não deixar dúvidas sobre suas intenções em obedecer a tal regime, decidiu, ineditamente, colocar a paridade cambial de 1,0 para 1,0 (uma unidade de dólar americano valeria uma unidade da moeda argentina) na própria constituição do país. Isso, porém, não conseguiu livrar completamente a Argentina das agruras com as contas externas. Depois de amargar alguns anos de forte recessão e elevadíssimo desemprego e ensaiar uma retomada