Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)
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Capítulo 6 (antigo 5) revisto (2)


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\u2013 sustentada, em realidade, pela valorização da moeda brasileira entre 1994 e 1998 \u2013, a Argentina acabou por experimentar, em meados de 1999, um período de forte turbulência e especulação contra o peso, comprometendo o frágil crescimento então esboçado. Essa situação acabou levando, em 2001, depois de uma conturbada crise política, à desvalorização do peso. O caso argentino é um bom exemplo de que a questão do crescimento econômico e das relações econômicas entre os países tornou-se extremamente complexa, de modo que discuti-la implica levar em conta, além do regime cambial, uma série de outras variáveis, muitas das quais diretamente relacionadas com aquilo que se tem convencionado chamar de internacionalização financeira, que será visto com mais profundidade no Anexo deste capítulo.
Há finalmente um terceiro tipo de sistema cambial, que podemos chamar de regime misto. Nesse sistema, a taxa de câmbio pode variar dentro de um dado intervalo, determinado pelo Banco Central (por isso também chamado no Brasil de sistema de bandas cambiais). Esse sistema funciona da seguinte forma: a autoridade monetária fixa, não um determinado preço para a divisa, mas uma faixa de preços, com um limite mínimo e um limite máximo, dentro dos quais ela pode flutuar livremente no mercado. Caso ela atinja o valor máximo ou o valor mínimo dados pela banda, o Banco Central intervém no mercado, ou comprando ao preço dado pela taxa mínima (e impedindo que ela caia além disso), no caso de o câmbio atingir o limite inferior, ou vendendo ao preço dado pela taxa máxima (e impedindo que ela suba além disso), no caso de o câmbio atingir o limite superior. O regime misto é assim um regime de câmbio fixo atenuado, pois ao invés de a autoridade econômica determinar um dado preço para a divisa, ela determina uma faixa de preços e dá ao mercado espaço para atuar dentro dessa faixa. 
Uma outra forma de regime misto, que funciona neste caso como um regime de câmbio flutuante atenuado é um sistema em que a autoridade deixa o mercado funcionar livremente, não fixa preço nem faixa de preços para a divisa, mas intervém no mercado toda vez que julga necessário, seja para atenuar fortes oscilações, seja para impedir que a divisa atinja algum preço que a autoridade julgue inconveniente para a economia naquele momento. Como a autoridade monetária é, normalmente um grande jogador (player), pois opera com grandes volumes de divisas, sua atuação consegue em geral interferir no comportamento da taxa, direcionando-a da forma julgada mais adequada. 
Atualmente, a maior parte dos países, pelo menos no que diz respeito às principais economias, utiliza o regime de câmbio flutuante, mas não em sua versão pura, ou seja, pratica um regime cambial de mercado atenuado, contando com a possibilidade sempre presente de intervenção da autoridade monetária. 
Existem basicamente três regimes em que o mercado cambial pode ser classificado: i) o regime de câmbio flutuante, em que a taxa é determinada integralmente pelo mercado; ii) o regime de câmbio fixo, em que a taxa é determinada pelo Banco Central, por meio da compra e venda de divisas no mercado; e iii) o regime misto, em que a taxa flutua no mercado, mas a autoridade econômica tem forte poder de intervenção, seja estabelecendo bandas de flutuação, seja intervindo por meio de operações de compra e venda para direcionar o comportamento da taxa.
Tanto o sistema fixo como o flutuante apresentam vantagens e desvantagens. Historicamente, o sistema flutuante resultou em grandes instabilidades nas diversas taxas de câmbio no mundo, ao passo que o sistema fixo não se mostrou eficiente quanto à determinação da taxa de câmbio \u201ccorreta\u201d. Quem sabe o atual processo de intensificação do comércio entre as nações resulte em novas experiências cambiais e na consolidação de um sistema menos instável ou mais adequado ao equilíbrio das contas externas dos vários países.
	5.4.3	
6.4.3 Taxa de câmbio: fatores financeiros\ufffd
Na seção anterior, quando discutimos o equilíbrio no mercado cambial, demos uma idéia bastante geral acerca dos determinantes deste mercado. Citamos, como exemplo, as exportações e importações de bens e serviços como fatores relevantes. Mas devemos também levar em conta os denominados fatores financeiros (e de certa forma o fizemos quando destacamos o fluxo de renda na determinação dos fatores de oferta e demanda no mercado cambial). Esta é uma consideração particularmente importante tendo em vista a atual configuração do processo de internacionalização financeira, caracterizada por grandes fluxos financeiros, particularmente de curto prazo.
A idéia sobre como fatores financeiros podem exercer influência sobre a taxa de câmbio pode ser mais bem entendida a partir da denominada condição de paridade de juros. Esta condição, em sua versão mais simples, nos diz que, num mundo com livre mobilidade financeira, sem expectativa de desvalorização cambial e sem risco, os movimentos de capitais financeiros irão ocorrer enquanto houver diferencial de taxas de juros entre os países. Ou seja, o capital irá se movimentar para o país que oferece maiores taxas de juros em suas aplicações financeiras; e o movimento de capitais em direção a este país somente irá cessar quando a taxa de juros local se igualar às taxas de juros dos demais países. De uma forma muito simples, esta idéia nos diz que, num mundo \u201cideal\u201d com livre mobilidade de capitais financeiros, existe a tendência de equalização das taxas de juros.
Podemos tornar nosso raciocínio mais próximo da realidade considerando agora que os países têm moedas diferentes e que a relação entre essas moedas pode se alterar. Isso terá implicações importantes sobre a equalização aqui proposta. Suponha que um investidor norte-americano possua US$ 1 milhão para aplicar no Brasil, entre os períodos 1 e 2, à taxa de 20%. Como a aplicação no Brasil é feita em moeda local, isto é, o Real, o investidor deverá converter seus dólares em reais no período 1. Consideremos, a título de simplificação, que a taxa de câmbio no período 1 seja de R$ 1,00 por US$ 1,00 (isto é e1 = R$ 1,00). O investidor então recebe R$ 1 milhão e aplica no mercado financeiro nacional. No final do período 2 ele terá um total de R$ 1,2 milhão. Considere, entretanto, que no período 2, que é o momento em que o investidor norte-americano irá buscar reaver seus dólares a partir dos ganhos em Reais, a taxa de câmbio seja de R$ 2,00 por US$ 1,00 (isto é e2 = 2,00). Com esta taxa de câmbio, o investidor somente irá reaver US$ 600 mil (R$ 1.200.000,00/2,00). Ou seja, o investidor, apesar de ter obtido ganhos financeiros em moeda nacional, uma vez que aplicou no mercado brasileiro à taxa de 20% no período, obteve grandes perdas em sua moeda (o dólar), por conta da mudança cambial. Esta idéia sugere que o investidor irá querer não apenas a remuneração proporcionada pela taxa de juros, mas também \u201calgo mais\u201d que compense uma eventual desvalorização cambial (neste exemplo numérico, se o investidor tem a expectativa da mudança cambial de 1,00 para 2,00, qual seria a taxa de juros que ele deveria receber para não ter as perdas verificadas?).
A partir destas idéias, pode-se resumir a condição da paridade de juros a partir da seguinte expressão:
	 i = i* + [(et+1 - et)/et]
 
onde:
i = taxa de juros doméstica; 
i*= taxa de juros internacional;
et+1 = taxa de câmbio esperada para o período t + 1; 
et = taxa de câmbio no período t; e 
[(et+1 - et)/et] = expectativa de desvalorização cambial. 
Manipulando esta relação, chegamos a uma outra que nos permite melhor visualizar a importante relação entre taxa de câmbio e taxa de juros:
	 et = eet+1/(i - i* + 1) 
 
Esta segunda relação nos permite determinar uma relação inversa entre taxa de câmbio e taxa de juros doméstica. Ou seja, tudo mais constante (no caso i* e et+1), quanto maior a taxa de juros, menor tende a ser a taxa de câmbio. Intuitivamente a história pode ser contada da seguinte forma: se o Brasil eleva as taxas de juros, a