Género E Direitos Fundamentais
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Género E Direitos Fundamentais


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e a Igualdade de género
Os artigos 35 e 36 da CRM são de extrema importância neste ponto, por serem o ponto de partida para a análise que se pretende.
O artigo 35 consagra o princípio da igualdade universal dos cidadãos perante a lei nos termos seguintes: \u201cTodos os cidadãos são iguais perante a lei, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres, independentemente da cor, raça, sexo, origem étnica, lugar de nascimento, religião, grau de instrução, posição social, estado civil dos pais, profissão ou opção política\u201d.
A igualdade preconizada neste princípio mereceu várias críticas pelo facto de partir de uma premissa igualitária para tratar situações à partida desiguais (Facio:2006), o que significa que o tratamento igualitário iria desde logo perpetuar a desigualdade já existente. Ou seja, é conhecida a posição desigual entre o homem e a mulher na sociedade decorrente de um longo processo de socialização, assim, a aplicação do princípio da igualdade perante a lei, iria manter a situação já verificada.
É neste sentido que o feminismo advoga que o princípio da igualdade reserva-se para os direitos, e o da diferença para marcar as diferenças, entre homens e mulheres no acesso aos direitos (Silva e Andrade:2005)
Já Osório e Artur afirmavam em 2002, que as reformas legais por si só não são suficientes para garantir a igualdade de género e uma das razões apontadas para sustentar a afirmação era o facto de a igualdade perante a lei não significar a igualdade social, pois, conforme se cuidou de ilustrar acima, a posição desigual entre o homem e a mulher na sociedade é real e vem de um longo processo de socialização.
Os autores sustentavam, ainda, que a lei faz caso omisso das causas sociais da desigualdade, sejam elas a riqueza, a classe, ou o sexo e trata os indivíduos sem as características sociais da desigualdade e chamavam atenção para a necessidade de se evitar tratar a lei por si mesma, sem se considerar o contexto em que a mesma se insere.
Deste modo, a luta dos movimentos que advogam a necessidade da promoção da igualdade de género, destaca a necessidade de se considerar a diferença já existente, para se procurar mecanismos que permitam elevar a posição do grupo colocado em posição subalterna para que possa então falar-se de igualdade entre homens e mulheres, no sentido de igualdade de oportunidades, de escolha e de decisão. Por conseguinte, a igualdade formal consagrada na lei deve ser efectivada no sentido de comportar a igualdade social.
É neste sentido que Alda Facio (2006) propõe que o direito seja entendido como sendo constituído por três tipos de normas, a saber: o direito legislado, o direito judicial e o direito dos usos e costumes, este último constituído por regras informais que determinam quem, quando e como se tem acesso à justiça e que direitos cada um tem.
Outro elemento criticado a nível doutrinário é o uso do termo \u201ccidadãos\u201d, quando se trata de preconizar a igualdade de direitos entre homens e mulheres, pelo facto de se entender que é um conceito construído com a abstracção das diferenças discriminatórias socialmente construídas. A proposta é que o termo seja substituído pela expressão Homens e Mulheres.
Como que acolhendo as críticas endereçadas ao princípio universal da igualdade perante a lei, o legislador constitucional em Moçambique foi mais além, e consagra no artigo 36, o princípio da igualdade de género nos seguintes termos: \u201cO homem e a mulher são iguais perante a lei em todos os domínios da vida política, económica, social e cultural\u201d.
A consagração expressa do direito fundamental da igualdade de género, tem um significado mais amplo, pois mostra que o legislador fê-lo consciente de que ao consagrar que todos os \u201ccidadãos\u201d são iguais perante a lei, subsistia a impessoalidade e a abstracção das diferenças contidas no mesmo, sendo necessário ir mais além, expressando de forma inequívoca a necessidade de se respeitar a igualdade de género.
Outra ilação importante que decorre da análise do artigo 36 da CRM é o facto de que partindo do pressuposto de que homens e mulheres são iguais perante a mulher, associado ao facto de caber ao Estado a defesa e a promoção da igualdade dos cidadãos perante a lei (alínea e) do artigo 11 da CRM), então é tarefa do Estado a adopção de políticas normativas e sociais que culminem com a erradicação das desigualdades que se verificam.
Neste sentido, as políticas a serem adoptadas devem a priori ser favoráveis às mulheres por serem as que se encontram em posição desfavorável resultado das discriminações de que são alvo na sociedade, o que necessariamente irá implicar a adopção de medidas designadas de acções afirmativas ou discriminações positivas (Comissão Europeia:1998).
As discriminações positivas legitimam situações em que é preciso diferenciar para se igualar, com o objectivo único de se promover a igualdade de género, obviamente que tais medidas apontam para a sua precariedade, pois, atingido o ponto de equilíbrio a sua continuidade não se justifica.
 O facto é que, existem algumas críticas contra este tipo de acções, no caso de Moçambique um dos exemplos a apontar foi aquando da discussão e aprovação da Lei sobre a Violência Doméstica praticada contra a mulher, onde o fundamento era que a lei pretende proteger a mulher em virtude desta ser regra geral a vítima da violência doméstica, enquanto alguns sectores da sociedade advogavam a sua inconstitucionalidade face ao princípio da igualdade consagrado na constituição. A discussão terminou com a introdução do artigo 36 que consagra a igualdade de género na aplicação da lei.
No entanto, e não obstante alguma resistência até mesmo da sociedade civil, na realidade moçambicana são conhecidos alguns exemplos destas acções afirmativas, como a introdução de quotas no parlamento e a criação de incentivos e mobilização para o envio e manutenção das meninas nas escolas até à 7.ª classe. Todavia, o Estado precisa ainda de trabalhar mais, uma vez que as avaliações feitas indicam que muito ainda está por se fazer para a promoção da igualdade de género no país[1].
2.2 Dos Direitos Sexuais e Reprodutivos na Perspectiva de Género
Os direitos sexuais e reprodutivos são direitos humanos fundamentais comummente associados ao direito fundamental à vida, neste sentido o n.º 1 do artigo 40 da CRM dispõe que: \u201cTodo o cidadão tem direito à vida e a integridade física e moral e não pode ser sujeito à tortura ou tratamentos cruéis ou desumanos.\u201d.
No entanto, o âmbito dos direitos sexuais e reprodutivos não se restringe ao direito à vida, na verdade é bastante mais amplo. Propomo-nos apresentar o seu espaço de abrangência com recurso à Carta dos Direitos Sexuais e Reprodutivos da autoria da Federação Internacional para o Planeamento da Família (http://www.ippf.org/en), cujo objectivo é a promoção e protecção dos direitos e liberdades sexuais e reprodutivas em todos os sistemas políticos, económicos e culturais, conforme sintetizamos a seguir:
 \u2713 Direito à vida \u2013 (i) Nenhuma mulher, em virtude da gravidez, deve ter a sua vida ameaçada ou em risco; (ii) Nenhuma criança deve ter a sua vida ameaçada ou em perigo, em razões de sexo; (iii) Nenhuma pessoa deve ver a sua vida ameaçada ou em risco por falta de acesso aos serviços de saúde e/ou à informação, conselhos ou serviços de Saúde sexual e reprodutiva (SSR).
 \u2713 Direito à liberdade e segurança \u2013 (i) liberdade de poder desfrutar e de controlar a vida sexual e reprodutiva, no direito pelo respeito dos outros; (ii) direito de não ser submetida/o a intervenção médica relativa à SSR, sem o pleno consentimento e informação; (iii) direito de não estar sujeito/a ao assédio sexual, ao medo, vergonha, culpa ou outros factores psicológicos que prejudiquem o relacionamento sexual ou resposta sexual.
 \u2713 Direito à igualdade/e de ser livre de todas as formas de discriminação \u2013 (i) Ninguém deve ser discriminado em relação à vida sexual e reprodutiva e no acesso aos cuidados de saúde; (ii) direito à igualdade de acesso à educação/informação, incluindo ao