Género E Direitos Fundamentais
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Género E Direitos Fundamentais


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aconselhamento e serviços SSR; (iii) Nenhuma pessoa deve ser discriminada, ou vítima de violência, nomeadamente no quadro da vida sexual e reprodutiva.
 \u2713 Direito ao respeito pela vida privada - (i) Os serviços de SSR, incluindo a informação e o aconselhamento, devem ser prestados com privacidade e garantia de confidencialidade das informações pessoais dos utentes; (ii) direito efectuar escolha autónoma em matéria de reprodução, incluindo as opções relacionadas com o aborto seguro; (iii) direito de exprimir a orientação sexual, sempre respeitando o bem estar e o direito dos outros; (iv) Todos os serviços de SSR devem estar disponíveis para todos os indivíduos, casais e em particular jovens, na base do respeito pelos seus direitos à vida, privacidade e confidencialidade.
 \u2713 Direito à liberdade de pensamento \u2013 (i) Direito à liberdade de pensamento e de expressão relativa à vida sexual e reprodutiva; (ii) Direito à protecção contra quaisquer restrições por motivos de pensamento, crença e religião, no acesso à educação e informação relativas à sua saúde sexual e reprodutiva; (iii) Os profissionais de saúde (não) têm o direito de invocar a objecção de consciência para recusar o fornecimento de serviços de contracepção ou aborto e o dever de encaminhar os utentes para outros profissionais dispostos a prestar o serviço solicitado (com excepções).
 \u2713 Direito à informação e educação \u2013 (i) direito a receber uma educação e informação correctas sobre a sua saúde sexual e reprodutiva, sem estereótipos ou sexismo, de forma objectiva, crítica e pluralista; (ii) direito de receber uma educação e informação suficiente, de forma a assegurar que quaisquer decisões relacionadas com a sua saúde sexual e reprodutiva, sejam exercidas com consentimento pleno, livre e informado; (iii) direito de receber informações completas quanto às vantagens, eficácia ou riscos associados a todos os métodos de regulação da fertilidade e prevenção da gravidez não desejada.
 \u2713 Direito de escolher casar ou não e de planear a família \u2013 direito de ser protegida contra a obrigação de se casar sem o seu pleno consentimento e de aceder aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo casos de infertilidade.
 \u2713 Direito de decidir ter ou não filhos e quando \u2013 (i) direito de acesso à informações, à educação e aos serviços necessários a uma maternidade e aborto sem risco, que deve ser acessível, prático e aceitável, (ii) direito ao acesso à gama mais ampla possível de métodos seguros, eficazes e aceitáveis de regulação de nascimentos; (iii) liberdade de escolha e de utilização do método seguro de protecção contra a gravidez não desejada que seja seguro e aceitável.
 \u2713 Direito aos cuidados e à protecção da saúde - direito de beneficiar de um gama completa de serviços de saúde sexual e reprodutiva de qualidade, incluindo a informação, o aconselhamento em matéria de gravidez e esterilidade, o acesso a todos os métodos de regulação da natalidade e aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva, bem como a continuidade na prestação dos mesmos.
 \u2713 Direito de beneficiar dos progressos da ciência \u2013 (i) direito de beneficiar das novas tecnologias em matéria de saúde reprodutiva seguras e reconhecidas, incluindo as relacionadas com a esterilidade e a contracepção. (ii) dever de protecção contra todos os efeitos nocivos para a saúde e bem-estar, de técnicas empregues e estar informada sobre o assunto.
 \u2713 Direito à liberdade de reunião e de participação política - direito de associação que visa promover o bem-estar em matéria de sexualidade e reprodução, e de influenciar os governos para que a saúde e os direitos nessa matéria sejam uma prioridade dos mesmos.
 \u2713 Direito de não ser submetido a tortura e a tratamento desumano ou degradante \u2013 (i) todas as crianças têm o direito à protecção contra todas as formas de exploração, especialmente da exploração sexual, da prostituição infantil e de todas as formas de abuso, violência e assédio sexuais; (ii) direito à protecção contra a violação, a agressão, o abuso e assédio sexuais.
Ressalta da análise aos direitos acima elencados, que a questão dos direitos sexuais e reprodutivos atinge directamente as mulheres, na medida em que a autonomia reprodutiva e o exercício da sexualidade são matérias envoltas em preconceitos, tabus e domínio. Há casos em que o homem não aceita que a mulher escolha um determinado método anticonceptivo, alegando desconforto (Taela:2009). Outros exemplos podem ser apontados como é o caso de religiões que proíbem o uso do preservativo e de qualquer outro método artificial de regulação da natalidade (Igreja católica, religião islâmica, dentre outras).
A este propósito é elucidativo o estudo realizado por Teresa Silva e Ximena Andrade (2005) sobre a feminização do SIDA em Moçambique, no qual as autoras referem que os modelos de educação e a influência religiosa determinam que a jovem não esteja preparada, quando adulta, para negociar com o parceiro o exercício da sexualidade, seja na reprodução como no prazer, por outro lado as mulheres encontram-se sujeitas à contaminação de doenças sexualmente transmissíveis sem que se possam precaver e também não têm o direito de escolha sobre o seu corpo.
Atente-se também a questão da penalização do aborto pelo código penal vigente, como um factor inibidor dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher, na verdade o aborto inseguro praticado fora dos serviços de saúde e sem o acompanhamento de pessoal técnico especializado, resulta em graves problemas de saúde que muitas vezes conduzem à morte, infertilidade ou infecções graves das mulheres que o praticam, regra geral pertencentes ao estrato social mais baixo, consequentemente, as mais desfavorecidas (Machungo:2004).
O aspecto positivo neste ponto é o de se constatar que a CRM permite a realização dos direitos acima preconizados, conforme o seu Título III atinente aos Direitos, Deveres e Liberdades fundamentais, o que significa que no nosso ordenamento jurídico a lei mãe protege estes direitos.
Todavia, também é claro que a sua realização não é tarefa fácil e carece de um grande comprometimento e empenho por parte do Estado enquanto garante da promoção dos direitos fundamentais e não só, a sociedade civil tem um grande papel na medida em que conforme atrás explanado os direitos em alusão estão envoltos em tabus e estereótipos que não permitem uma abordagem social franca, aberta e inclusiva, facto que constitui uma grave limitação ao gozo dos direitos fundamentais das mulheres e que deve ser combatido.
Outro aspecto que ficou patente na análise do campo dos direitos sexuais e reprodutivos é que, não obstante a sua transversalidade, as áreas da saúde e da educação são fundamentais para se conseguir a efectivação destes direitos. Com efeito, a saúde é tão crucial que não se pode pensar em direitos sexuais e reprodutivos sem cuidados de saúde básicos, nomeadamente, existência de hospitais e de pessoal técnico capacitado, disponibilização de informação técnica sobre SSR, tratamento e aconselhamento de doenças sexualmente transmissíveis incluindo o HIV-SIDA, garantia de informação e acesso aos métodos de regulação de natalidade, aconselhamento aos jovens e adolescentes, dentre outros.
Neste aspecto específico, importa destacar a análise feita pela Professara Ana Loforte (2007), no tocante aos desafios que se colocam no sector da saúde na implementação dos objectivos estratégicos do género para atenuar as desigualdades de género, na qual a autora reconhece que o Ministério da Saúde tem estado a tomar medidas significativas no tocante à integração da igualdade de género, contudo persistia um longo caminho por percorrer.
Um dos aspectos referidos prendia-se com a necessidade de se elaborarem políticas de saúde tendentes a elevar a autonomia das mulheres, em virtude destas terem menos controlo sobre os recursos e menos opinião política que os homens. Explicava, ainda, que o conceito de autonomia é entendido como o controlo sobre a própria vida e corpo, o direito a uma identidade independente e auto respeito.